O FILHO DOS OUTROS

Guaracy Mingardi

09 de junho de 2012 | 18h59

 

Não deveriam surpreender ninguém os resultados da pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) divulgados pela imprensa nesta semana. Eles revelam que aumentou o número de pessoas favoráveis a tortura e que concordam com as ações mais violentas da polícia, como atirar ou agredir suspeitos de crime. Para completar o quadro também cresceu o contingente daqueles que reivindicam o aumento das penas. É evidente que esse discurso punitivo funciona para o estranho, o filho dos outros, o criminoso desconhecido. Basta ler os depoimentos em um inquérito qualquer que se percebe que uma parte considerável dos que apóiam a violência, as penas longas, etc. muda rapidamente de opinião quando as vítimas são parentes ou conhecidos.

Analisar esta tendência não é simples, porque muitos fatores podem ter influenciado a decisão dos entrevistados. Alguns deles são mencionados com freqüência: insegurança, descrença na justiça ou na polícia, etc. Existe um fator, porém, que não tem nada a ver com a falta de competência do Estado, é um fenômeno puramente midiático: a proliferação dos programas televisivos que apelam para a exploração da violência.

Esse tipo de imprensa sempre existiu, mas alguns anos atrás tinha alcance limitado, pois estava restrita a mídia escrita, que atinge um pequeno público. Mesmo os programas apelativos que existiam na rádio tinham limitações. A maioria contava histórias horripilantes, crimes hediondos, mas não fazia a mesma pregação que alguns dos atuais. Estes mostram os mesmos casos horripilantes, acompanhados das imagens mais apelativas e de um discurso que nunca muda:

 

“A culpa é dessa lei que beneficia os criminosos”

“Esses juízes são moles”

“Eles (os políticos) não deixam a polícia trabalhar”

 

 

Na prática é um discurso que enaltece a violência como a única forma de controle da criminalidade. O uso da inteligência, do planejamento, das técnicas investigativas, etc. são descartadas como irrelevantes. O que importa para os autores dessas falas é ter uma polícia que atire primeiro e pergunte depois.

E essa arenga não influencia apenas a população, mas também alguns policiais, que se convencem que a função deles é essa mesma, extirpar o mal a qualquer custo. E muitos só percebem tardiamente que ser o gatilho mais rápido é caminho certo para o erro, para matar um inocente. Outra percepção que só vem muito depois ocorre quando é acusado de crime. Ai o policial percebe que todos aqueles que incentivaram sua ação de matador, todos os amigos que tinha na imprensa, o abandonam sozinho quando enfrenta o júri. Ai ele passa, para esses mesmos “jornalistas” a ser um monstro, um matador sem caráter.

Uma das minhas recordações mais interessantes do período em que trabalhei como investigador de polícia é de um programa de rádio, precursor dos atuais, em que o apresentador pousava de machão, herói sem medo e sem mácula. Um dia prendemos um matador de aluguel e a produção da rádio pediu uma entrevista com o criminoso. Um repórter qualquer foi fazer a entrevista e pediu que ela fosse feita na sala dos investigadores e que ficassem pelo menos dois “tiras” dando segurança. Quando a reportagem foi apresentada houve uma insinuação que teria sido feita dentro da cela, a voz do repórter havia sido trocada pela do jornalista “machão” e as perguntas tinham sido substituídas por coisas que ele não teria coragem de dizer numa cela com o “justiceiro”:

E ai, vagabundo, como um covarde como você virou matador?

Esse ai tem de ir pra salinha. (se referindo ao uso da tortura)

Por causa dessa experiência e de outras similares é que enxergo nesse tipo de programa um lado cômico e outro trágico. É engraçado por estar tão longe da realidade e trágico porque serve para burlar a população, criando uma figura de herói onde existe apenas um palhaço.

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