O EFEITO TEQUILA

Guaracy Mingardi

01 de junho de 2012 | 10h35

 

(Artigo publicado no Estadão de 27/05/2012 – Caderno Aliás)

 

Desde o início de maio pelo menos 70 pessoas foram mortas no México devido as guerras do tráfico. Algumas foram encontradas decapitadas e tiveram as mãos decepadas. Outras foram enforcadas. O grupo a que se atribui a maioria das mortes são Los Zetas, nome adotado por um sindicato criminoso, talvez o mais sofisticado e perigoso do país. Essa organização nasceu em 1999, quando um grupo de soldados de elite  desertou e foi trabalhar para o Cartel do Golfo, uma das mais poderosas organizações de traficantes. Os desertores foram seduzidos por salários muito superiores aos do exército mexicano.

Alguns anos depois os dois grupos romperam, o que provocou uma guerra que persiste até hoje. De um lado estão os Zetas e os cartéis de Tijuana e Juarez. Do outro o Cartel de Sinaloa, que se aliou aos restos do Cartel do Golfo e algumas gangs menores. Os dois grupos disputam as rotas de tráfico para os USA, principalmente na região de Nuevo Laredo, que pertencia aos Zetas, mas está sendo invadida pelos rivais.

Devido à sua formação os Zetas são muito organizados e violentos. Usam decapitações, tortura e matança indiscriminada para aterrorizar os adversários. Da mesma forma que o finado Cartel de Medelín, que aterrorizou a Colômbia nos anos 80 e 90, eles confrontam violentamente o Estado e na maioria das vezes preferem atemorizar a corromper. E já que estamos comparando com a Colômbia do final do século, o grupo de Sinaloa tem mais afinidade com o Cartel de Cali, que preferia o acordo por baixo dos panos. Atualmente, porém, as duas narcoalianças optaram pela violência pura e simples.

A principal causa da escalada de violência é que o conflito se transformou numa guerra de três lados. O novo contendor é o governo mexicano que, para emular os vizinhos do norte, declarou “guerra ao tráfico” em 2000. Apesar do exemplo da traição dos Zetas o exército foi chamado para a luta, não para realizar ações pontuais, mas para se incorporar ao dia a dia do combate ao tráfico.

Como conseqüência da guerra houve cerca 65 mil mortos em pouco mais de uma década, sem que o Estado mexicano consiga avançar um passo no controle do tráfico. Os cartéis ainda dominam a fronteira, abastecem o mercado americano e a corrupção dentro do aparelho repressivo continua forte. Com o agravante de que agora está cada vez maior dentro das forças armadas.

Na última semana três generais mexicanos foram presos acusados de vínculo com o tráfico. Outra versão é que eles estariam apoiando o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que dominou por décadas o governo mexicano. Um dos generais participou de uma reunião pública do PRI onde discutiu a atual política de combate ao narcotráfico.

De qualquer forma, seja por conluio com os cartéis ou pela entrada no espaço político partidário, o fato é que os oficiais estão presos por causa do uso do exército numa atividade eminentemente policial.

Nas décadas de 80 e 90, quando o PRI ainda estava no poder, o exército também foi usado contra o tráfico, mas de forma limitada. Havia um acordo tácito de que os “narco” não poderiam ultrapassar certos limites. Se o fizessem o exército iria pegar pesado. Entrar para bater forte e depois sair. Ainda assim houve muitos escândalos de corrupção dentro das forças armadas, mas isso não chamava muito a atenção, já que o governo do PRI havia se transformado numa cleptocracia, dominando uma máquina cada vez mais corrupta.

Já o atual governo tem como uma de suas bandeiras a moralização do Estado, o que torna a situação mais difícil de sustentar. Prova disso são as pesquisas de intenção de voto para presidente, que atualmente apontam para uma vitória do candidato do PRI.

Nem todas as políticas de combate ao tráfico foram tão desastrosas quanto a inclusão do exército na briga. Uma medida que pode ajudar no médio prazo é a reforma do aparelho policial federal. O atual governo ampliou o quadro e investiu na seleção de pessoal. Na prática foi culpado de apenas duas coisas: falta de estratégia e impaciência.

Do ponto de vista estratégico o erro foi atacar todos os inimigos simultaneamente. Deveria ter priorizado o enfrentamento a alguns grupos de traficantes e manter a repressão rotineira contra os outros. Depois de conter os primeiros poderia voltar suas baterias contra os restantes. Quanto a impaciência, chamar o exército foi uma tentativa de mostrar serviço, resolver o problema de uma só vez. Uma magia para exorcizar o tráfico, mas não existem poções mágicas em segurança pública.

Enquanto isso, no Brasil, estamos aos poucos envolvendo as forças armadas na luta contra o tráfico. Todo dia alguém pede a entrada do exército e alguns setores do Estado se mostram cada vez mais sensíveis a essa tese. Ocupar morros, emprestar blindados e patrulhar durante as greves de policias são os primeiros passos de uma escalada arriscada, um jogo de tudo ou nada. Pode funcionar, mas também pode levar para dentro das forças armadas o problema vivido pelo México: corrupção e politização.

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