Modus Operandi

Guaracy Mingardi

16 de abril de 2012 | 23h25

 

Todo super herói tem um inimigo mortal, um criminoso genial e idealizador de golpes altamente complexos. Mesmo nas histórias onde o detetive é um sujeito comum existem os grandes criminosos, sofisticados e geniais. Na vida real a coisa é um pouco diferente.

Com algumas exceções o profissional do crime é meio burrinho. Quando não é completamente estúpido! Na onda de seqüestros de dez anos atrás, por exemplo, muitos criminosos cometeram erros bizarros, como esconder a vítima debaixo da cama da tia, marcar a entrega do resgate num local sem rota de fuga, contar vantagem no bar ou bobagens do tipo.

Essas falhas eram comuns naquela época e continuam a provocar baixas entre as fileiras de foras da lei. O último exemplo ocorreu semana passada, quando uma gang especializada em seqüestro relâmpago foi capturada. Ao analisar a reportagem de Camilla Haddad de 01 de abril de 2012 fica evidente que a quadrilha cometeu pelo menos dois erros fatais

Um deles é comum, se repete em inúmeros casos. É o pecado da ostentação. De repente, sem justificativa nenhuma, o chefe da gang ficou rico. Alugou casa na praia para dar uma festa, comprou bebidas caras, relógios de grife, etc. Alguns comparsas foram até filmados usando os cartões roubados das vítimas num frenesi de consumo. O mundo do crime está infestado de informantes, portanto a última coisa que um ladrão bem sucedido deveria querer é chamar a atenção sobre uma prosperidade súbita.

A principal falha, porém, foi menos espetacular, mas muito reveladora da mentalidade do criminoso médio. A quadrilha, por ganância, preguiça e pura burrice, levou a especialização ao extremo. Apesar de atacarem também alguns motoristas no semáforo, desde o início do ano seu alvo preferencial eram mulheres que iam para a academia, na região do Brooklin Paulista, e sempre no início do dia ou ao entardecer.

Eles aprenderam fazer isso, só isso. Foram meses seqüestrando numa área muito restrita. Afinal a região é de classe média, portanto local onde transitam pessoas com gordas contas bancárias. Além disso, eles deviam conhecer o bairro e sabiam onde ficavam as academias. Então para que perder tempo estudando outra área, atacando cada vez num lugar diferente?

Outra constante era o horário. De manhã ou ao entardecer eles tinham muito tempo para circular com a vítima antes de ser dado o alarme. Se o crime fosse tarde da noite o uso dos cartões seria restrito a R$100,00 e corriam o risco de cruzar com barreiras policiais. Nesse vai e vem roubaram dezenas de pessoas sem mudar em nada o modus operandi. É claro que acabaram sendo presos e um deles, aparentemente o líder, já foi reconhecido por várias vítimas.

Esse grupo é um bom exemplo de como a maioria dos criminosos é meio limitada, e repetem a mesma conduta até serem presos. E é nisso que a Polícia Civil tem de se apoiar para lidar com os roubos que infestam São Paulo e outras grandes cidades brasileiras. Estudar os hábitos dos criminosos, entender como agem e, principalmente, criar arquivos que identifiquem o modus operandi das quadrilhas. Esse procedimento é um dos mais conhecidos métodos de investigação policial. Coriolano Cobra, que escreveu sobre investigação na década de 50, já pregava isso, mas a polícia esqueceu esse delegado, autor do manual de investigação mais usado nas academias por décadas. Quando ele ainda lecionava havia esboços desses arquivos em fichários de papel. Hoje, apesar da facilidade criada pelos bancos de dados digitais, os arquivos de modus operandi continuam sendo esboçados, nunca concluídos ou utilizados.  E não só em São Paulo. Em vários estados ouvi a mesma conversa mole de que o banco de dados está fase de elaboração. Enquanto isso ladrões tão incompetentes como a quadrilha do Brooklin continuam a agir, até que um ‘tira’ mais esperto note as coincidências e acabe com a folia.

Há quase duzentos anos François Vidocq, o ex-presidiário que fundou a Suretê, polícia de investigação francesa, escreveu em sua autobiografia:

“Seria impossível classificar os ladrões se eles não tivessem classificado a si mesmos Depois de cumprir uma ou duas penas ficam conhecendo suas aptidões; então adotam um gênero e não o deixam mais, a não ser que sejam obrigados.”

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