Má digestão

Guaracy Mingardi

24 de junho de 2012 | 21h08

 

No dia dos namorados o governador Alckmin recebeu uma delegação de representantes de bares e restaurantes. Pauta da reunião: os arrastões que estão assustando a população e afugentando os fregueses dos restaurantes. Como sempre acontece nessas situações o executivo prometeu ação imediata. O governo se comprometeu a aumentar o efetivo nas ruas e dar prioridade à prevenção desse crime. Como esqueceu de combinar com os ladrões, na mesma noite ocorreu um “arrastão” na Rua Doutor Melo Alves, área nobre da capital.

O secretário de Segurança,  Ferreira Pinto, também foi otimista. Falou de um trabalho articulado das polícias Civil e Militar, do esclarecimento de 70% dos casos, etc. Os donos de restaurantes, porém, não se fiaram nessa conversa mole. Vários providenciaram segurança particular, em alguns casos armada, o que é uma medida controversa. Pode aumentar a sensação de segurança, mas também aumenta a possibilidade de um cliente ser ferido num fogo cruzado.

A boa notícia é que o aparelho repressivo, finalmente, acordou para o problema. A má notícia é que nosso sistema de segurança pública continua lerdo. Só identifica os problemas quando a crise já está instalada. Isso explica porque os comerciantes tiveram de ir ao governador por que providencias fossem tomadas. E se fosse um crime cujas vítimas não tivessem acesso privilegiado, quando tempo demoraria para a Secretaria de Segurança reagir?

Não é a primeira vez que isso acontece. Tivemos outros crimes da moda:  “marcha ré”, em que os criminosos utilizavam um carro para estourar vitrines de joalherias, sequestro relâmpago, a explosão de caixas eletrônicos, etc. Todas essas modas iniciaram timidamente, com uma ou duas quadrilhas especializadas e depois se popularizaram no meio criminal. E em nenhum desses casos o crime foi identificado inicialmente como um problema, só depois que tinha vitimado um grande número de pessoas.

O criminoso médio está longe de ser um gênio. Ele aprende os procedimentos para realizar um crime e se mantém dentro do mesmo modus operandi por semanas, meses ou mesmo anos. Só muda impulsionado por fatores externos. Basicamente porque apareceu um algo mais rentável ou a polícia, finalmente, se adaptou e ganhou know how no combate a um crime antigo. Como a maioria das ações humanas, a atividade criminal obedece à lei do custo e benefício. A probabilidade da punição X a rentabilidade da ação.

O aparelho policial do Estado, porém, não acompanha as mudanças com a celeridade desejável. Vem a reboque, sempre atrasado. As polícias, Civil e Militar, são grandes burocracias, que demoram para se mexer, para alterar objetivos e métodos.

Um dos grandes exemplos da difícil adaptação do aparelho repressivo é o crime de sequestro, que era top de linha no fim dos anos noventa e início deste século. No começo eram apenas os grupos organizados que sequestravam, e as vítimas eram pessoas com muito dinheiro, mas a reação policial foi tão lenta e estabanada que o crime se popularizou. Entraram no ramo quadrilhas de todo tipo, agindo sem qualquer preparação e com total falta de critério. Passaram a sequestrar pessoas de todas as classes sociais, muitas vezes sem recursos para pagar o resgate. É evidente que somente os grandes casos, envolvendo personalidades famosas, chegavam a mídia, mas isso era a ponta do iceberg.

A adaptação policial só ocorreu porque houve pressão de dois Secretários de Segurança que se sucederam no comando das polícias. Eles exigiram que as polícias se mexessem. Quando isso ocorreu a máquina foi, aos poucos, prendendo os sequestradores e deixando claro que esse crime tinha um custo alto, a chance de prisão era grande. De uns dez anos para cá a situação caiu na normalidade. Os sequestros ainda ocorrem, mas em menor quantidade.

Esse tem sido o padrão das últimas décadas. O crime evolui e a polícia corre atrás do prejuízo, e só depois do caso policial se transformar num  problema político. Não existe nenhum trabalho de análise e interpretação de tendências, as burocracias policias trabalham como se os problemas fossem perenes e as respostas também. Vide o caso da bobagem feita na Cracolândia no início do ano, onde a PM usou os mesmos métodos empregados desde os anos 70 para espantar os indesejáveis. Métodos que não surtiram efeito na época, muito menos agora.

Se as policias tendem a imobilidade o órgão que tem de se mexer é a Secretaria de Segurança Pública. Afinal o Secretário é, segundo a Constituição paulista, o chefe das polícias e o responsável político por seu desempenho perante o governo e a opinião pública. Seu staff deveria ser o núcleo da elaboração das políticas de controle da criminalidade. Atualmente é um imenso órgão de relações públicas, buscando justificativas e vitórias onde existem apenas erros e empates. Identificar padrões e encontrar meios de deter a escalada criminal tem de ser o objetivo da Secretaria de Segurança, se não é melhor que seu titular procure outro emprego.

 

Este artigo, com o nome de A Reação Arrastada foi publicado  no Estadão, caderno Aliás, no dia 17 de junho de 2012

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