HISTÓRIAS QUE O POVO CONTA

Guaracy Mingardi

03 de maio de 2012 | 14h16

 

Existem duas formas de encarar o Primeiro Comando da Capital (PCC) que ajudam a organização a manter sua mística e poder. Uma delas, fingir que ele não existe e nem mencionar seu nome, foi tratada em um artigo anterior. A segunda é dar a ela uma dimensão exagerada, tornando-a quase onipotente.

Essa é uma abordagem que ganha cada vez mais adeptos, principalmente entre os formadores de opinião que lidam com a questão de forma parcial e/ou superficial. Normalmente a principal fonte de pesquisas ou reportagens do tipo são criminosos de baixo escalão, que por motivos óbvios atribuem a organização a que pertencem um poder imenso. Lembra alguns traficantes cariocas do começo dos anos 90 afirmando que o Comando Vermelho ia descer o morro e tomar conta da cidade. Depois disso o CV já perdeu poder para o Terceiro Comando, os Amigos dos Amigos, as Milícias e, mais recentemente, para as UPPs. Nunca desceu o morro nem teve poder para tanto.

A principal linha de argumentação dos que exageram a força da organização criminosa é que o PCC seria o principal responsável pela queda dos homicídios em São Paulo. A ideia é de que os criminosos, para não criar tumulto ou chamar a atenção da polícia, ameaçam punir quem mate sem autorização.

Uma idéia interessante, mas que lembra muito as teorias da conspiração num ponto: seus partidários utilizam apenas o que favorece a tese e põem de lado os fatos contrários. O mais importante dentre esses fatos ignorados é a evolução dos índices criminais em São Paulo nos últimos 13 anos.

É quase unanime entre os que trabalham na área que o PCC só começou a ganhar poder nas ruas em 2005, antes disso era uma organização poderosa na cadeia e com alguma influencia fora. O melhor exemplo disso é a diferença dos eventos do início da década e os de 2006. Entre 2001 e 2003 o PCC conduziu rebeliões em 28 presídios e alguns poucos ataques a polícia. Já em apenas uma semana de 2006 houve a mega rebelião em 78 presídios e centenas de ataques que produziram mais de 50 mortes entre policiais, bombeiros, guardas municipais, etc. Outro indício da importância de 2005 é que quando você entrevista um pequeno traficante ou um policial na maior parte das vezes tem a informação que a boca de fumo X passou para o PCC em 2005.

Portanto o ano de 2005 está marcado como o ano da transição, em que boa parte do mercado das drogas em São Paulo passa a ser controlado pelo ‘Partido’, como é conhecido o Primeiro Comando em certos círculos. É razoável então supor que podemos trabalhar com esse ano como o divisor de águas, um ano misto.

Portanto vamos dividir o período em dois momentos, 1999/2005 e 2005/2011. Segundo dados obtidos no site da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, no primeiro período, onde o PCC era mais fraco, houve uma queda de 5.742 homicídios, enquanto que no segundo a queda foi de 2884. Ou seja, as mortes continuaram caindo, mas num ritmo bem mais tímido. Portanto o peso do ‘Partido’ não foi tão grande assim.

É evidente que uma organização como o PCC tem grande influencia sobre os índices criminais, mas nem mesmo a Máfia Siciliana no seu período áureo conseguia evitar que maridos continuassem a matar mulher, briga de transito ou de bar que acaba em morte, etc.

Em 2009 houve uma reunião na Direito GV entre 20 especialistas (policiais ou da universidade) de todo o país para definir a causa da queda dos homicídios em São Paulo. Foram apresentadas mais de uma dúzia de teses sobre o que teria provocado a queda. Algumas ligadas a melhorias das polícias e ao ingresso das prefeituras na segurança. Outras derivadas de questões sócio/econômicas. A campanha do desarmamento e outras políticas públicas também foram mencionadas. E por último vieram as questões ligadas as mudanças na criminalidade, principalmente na distribuição do crack.

É provável que a ascensão do Primeiro Comando seja a maior mudança na criminalidade paulista, sendo um fator que ajudou a diminuir as disputas por pontos de tráfico e, portanto, os índices após 2005, mas explicar todo um processo complexo, com inúmeros atores, através de uma única causa é, como sempre, bobagem.

Definir de fato por que os homicídios diminuíram em São Paulo é muito importante. Afinal eles um dia voltarão a crescer. Se não soubermos por que caíram é provável que na hora do aperto alguém apareça com uma solução baseada no achismo.

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