DANDO NOME AOS BOIS

Guaracy Mingardi

29 de março de 2012 | 14h22

 

Existe uma superstição muito comum, mas pouco discutida, que falar determinadas palavras atrai o mal. Como mencionar em voz alta o Diabo, por exemplo. J. K. Rowling, autora de Harry Potter, usou  isso ao descrever uma sociedade de magos que tinha medo de falar o nome do feiticeiro do mal, Voldemort. Existe até uma categoria científica para esse medo irracional: Onomatofobia, que é o medo de ouvir certas palavras ou nomes.

Aparentemente alguns setores da sociedade brasileira compartilham dessa fobia, começando pela mídia. O mais conhecido é o vodu televisivo que proíbe os jornalistas da Globo de falar o nome das organizações criminosas do país. Usam artifícios enormes para nomear essas organizações. Por exemplo, “facção que atua dentro e fora dos presídios paulistas”, ou cariocas, depende do caso. E seus convidados também têm de fazer malabarismos para não usar frases simples. Além de tudo esse fetiche é impreciso. A organização paulista não é uma facção. Essa palavra significa parte, grupo, e seria mais adequada se a associação de criminosos  tivesse concorrência. Se fosse um grupo entre outros, mas não é. Controla mais da metade dos presídios paulistas. É quase hegemônico.

A desculpa para essa proibição é que usar o nome significa dar publicidade ao grupo criminoso, torná-lo mais conhecido. Como se todos não soubessem o nome, o que faz e os locais de atuação de cada uma das organizações criminosas. Principalmente na periferia ou comunidades pobres. Já a classe média, que normalmente não tem contato direto com o problema, pelo menos fica mais bem informada pela imprensa escrita.

Pior do que o fetiche da TV é a atitude similar utilizada  pelos responsáveis pela administração da segurança pública em São Paulo. A versão oficial é que a principal organização criminosa paulista está em decadência, não controla mais nada, portanto nem merece destaque. A Polícia Civil, por exemplo, não pode falar sobre o assunto e foi afastada das investigações sobre a organização, ou “Partido”, como chamam os membros.

Essa atitude lembra a Sicilia de vinte anos atrás, quando praticamente todos negavam a existência da Máfia. Governos, amplos setores da imprensa, políticos, etc., calavam sobre o assunto. Lá só era pior porque a “Omertà”,  a lei do silencio imposta pelos mafiosos, ia mais longe. Admitir a existência da Máfia para gente de fora não era saudável para nenhum siciliano. Aqui pelo menos o cidadão comum pode dar nome aos bois sem ser censurado.

Há mais de cem anos os setores avançados da medicina iniciaram uma batalha com seus colegas reacionários para levar a luz e o ar puro aos doentes. A superstição da época era que isso fazia mal aos indivíduos acamados. Os progressistas venceram a briga, e provaram que temos que levar a luz para os cantos escuros se queremos combater o mal.

Fazer de conta que o Primeiro Comando da Capital não existe, ou não mencionar seu nome, significa manter a situação na penumbra. Implica  jogar o jogo dos lideres do PCC, que utilizam a velha táctica atribuída ao Diabo, fingir que não existe. Eles sempre afirmam que tudo é invenção da imprensa.

Porém  o Estado e a TV não tem de cair nesse conto do vigário. Enquanto eles se deixarem enrolar vão persistir versões desencontradas, parciais ou mentirosas sobre o Primeiro Comando. Vai aumentar o medo e a ideia que a organização é ainda mais forte do que realmente é.

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