ASNEIRAS EM SÉRIE

Guaracy Mingardi

16 de junho de 2012 | 18h43

 

Parece que bobagem é contagiosa. Um bom exemplo é o recente evento que envolveu Polícia Militar, Polícia Federal, funcionários federais e  estudantes da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). No meio da crise já instaurada nas universidades federais, onde os professores estão em greve por todo o país, uma ação policial mal planejada, pessimamente executada e finalizada de forma desastrada, pode aumentar a adesão a greve e motivar os indecisos.

Pra quem ainda não sabe, nesta semana a Polícia Militar foi chamada por um alto funcionário da UNIFESP para conter uma manifestação estudantil que reclamava sobre as condições precárias do campus. Segundo os responsáveis pelo chamado a manifestação teria passado dos limites, e alguns funcionários se sentiam acuados. Esse foi o começo da comédia de erros.

O envio de uma tropa não preparada para essa atividade foi o segundo erro. Ou  o grupamento empregado errou por falta de preparo ou por excesso de zelo. 22 presos é um exagero. Praticamente todo o grupo de alunos protestando. Duvido também que o disparo de balas de borracha fosse essencial, a não ser que o destacamento enviado fosse muito pequeno, o que reforçaria a tese de falta de planejamento, afinal já ocorriam manifestações no campus há dias. Outra alegação é que os alunos atiraram coisas e insultaram os policiais! Como se isso não ocorresse em toda e qualquer manifestação.

O terceiro erro ocorreu quando os detidos foram apresentados à Polícia Federal. Foram enquadrados por três crimes:

Dano ao patrimônio público – o que é cabível se houve depredação ou equivalente,

Constrangimento ilegal – o que pode até ser exagero, mas ainda é aceitável,

Formação de quadrilha (?) – ai pegaram pesado demais.

Para não ficar só com a minha opinião indaguei a 3 juristas diferentes sobre a oportunidade desse último enquadramento. Todos afirmaram que era bobagem, e que isso iria cair rapidamente no judiciário. Mesmo que caia, o simples indiciamento por formação de quadrilha já criou uma crise desnecessária.

É bom lembrar que os alunos e professores desse campus são unanimes em afirmar que as instalações são muito ruins, o que pode ser constatado por qualquer pessoa que o visite. Portanto o protesto tem uma base na realidade. A argumentação de que o grupo de alunos não é representativo e de que o protesto passou dos limites pode até proceder, mas não há dúvida de que a reação foi exagerada e inepta. Se os funcionários que telefonaram 190, os PMs que atenderam o chamado e a equipe da PF que recebeu a ocorrência tivessem combinado talvez não fossem tão bem sucedidos em por lenha na fogueira. Simultaneamente transformaram uns poucos manifestantes em heróis e deram fôlego extra à paralisação dos professores.

Apesar de não ter tido participação direta nos eventos o pepino sobrou para o Ministério da Educação, que vai ter de recolher os cacos e intervir para dar fim ao ciclo de bobagens. Tarefa difícil, já que os eventos fizeram com que os ânimos se exaltassem ainda mais.

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