ARRASTÃO

Guaracy Mingardi

09 de abril de 2012 | 19h18

 

Parece que a polícia paulista saiu, pelo menos temporariamente, da letargia e prendeu uma quadrilha especializada em arrastões em condomínios. Só este ano, segundo contas da imprensa, foram mais de dez casos na capital. Apesar de estatisticamente irrelevante o roubo em residência é um dos crimes que mais assusta, porque as pessoas são atacadas onde se sentem mais seguras, sua casa.

Uma das consequências desse crime é o aumento do número de condomínios com monitoramento por câmeras. O síndico ouve sobre os arrastões, se apavora, chama uma empresa qualquer, de preferência de um amigo, manda instalar o sistema que empurram para ele, contrata vigilância supostamente qualificada e todo mundo se sente mais seguro. Ai que mora o perigo!

Na prática a contratação apressada não aumenta quase nada a segurança do edifício ou conjunto de casas. Medidas passivas de segurança só ajudam quando bem feitas e pensadas. Se o leitor atentar para as reportagens sobre os arrastões vai notar que na maioria dos casos é citado que “os ladrões levaram o computador que gravava as imagens”, ou coisa que o valha. Em um condomínio que visitei o síndico me disse uma frase lapidar “o sistema está escondido, os ladrões não vão achar”. Nem procurar. Simplesmente irão apontar uma arma para o porteiro ou vigilante e perguntar onde está, e é evidente que ele vai falar, todo mundo fala com esse nível de ameaça.

Um sistema de câmeras só funciona quando interligado, quando não está sendo registrado apenas em um local. Uma boa empresa de monitoramento deve não apenas gravar o local protegido como também monitorar de fato as imagens. Ou seja, além de replicar a gravação na sede da empresa, tem de manter alguém observando constantemente os locais que é paga para proteger, o que também implica em prevenir. Afinal não adianta muito para o morador que foi agredido, ferido ou assassinado que o ladrão seja filmado. Pode ajudar a punir o criminosos ou recuperar os bens, mas não repara o pavor do momento ou a perda de uma vida.

E o vídeo ele tem de ser bom, imagens nítidas. Sempre que a tv mostra a imagem gravada de um roubo nos perguntamos como a polícia pode identificar o ladrão. Na verdade não pode. Não temos um bom arquivo de imagens em nenhuma polícia do país, a forma que ainda funciona é ficar repetindo o filme para os investigadores experientes até que um deles encontre um rosto conhecido. O que só é possível quando as imagens tem um grau mínimo de nitidez, fato raro. Quando o sistema vendido é vagabundo as imagens mudam de cor, as feições ficam achatadas ou distorcidas e o ângulo não permite identificar ninguém.

Quanto ao vigia contratado, os grandes  problemas normalmente são a falta de treinamento adequado e de profissionalismo, dele e da empresa. Em alguns locais basta não ter antecedentes criminais para assumir uma vaga. A seleção é inadequada para um trabalho desse tipo, onde requisitos como capacidade de observação, educação, auto controle e esperteza são essenciais, muito mais do que valentia ou equivalente.

Valentia não adianta nada quando se tem de enfrentar um grupo de até dez criminosos, as vezes armados de metralhadoras. Por outro lado a capacidade de desconfiar, de triar quem entra ou não no condomínio e o discernimento de agir da forma correta e na hora precisa são fundamentais para exercer uma função de vigilância. Porteiro ou vigia sonolento o tempo todo, que não conhece os condôminos, irritadiço ou com síndrome de Rambo não adianta nada. Se ele quer ser super herói esta no lugar errado, tem de se inscrever na Marvel.

Os ladrões de condomínio são profissionais do crime, violentos e muitas vezes bem armados, quem tem de lidar com eles é a polícia, investigando e prendendo rapidamente. A segurança passiva usada nos condomínios pode dificultar o arrastão e/ou ajudar a identificação dos ladrões. Se fizer isso bem feito já está muito bom.

Os arrastões em restaurantes são praticados por outros grupos, menos especializados, menores e com armamento inferior, mas talvez por isso até mais perigosos. Sobre esse crime da moda discutiremos na próxima quinta feira.

 

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