ARRASTÃO 2

Guaracy Mingardi

12 de abril de 2012 | 15h48

 

Existem crimes que atingem diretamente um extrato da população. O roubo em coletivos, por exemplo, atinge diretamente pessoas que estudam ou trabalham até tarde e moram na periferia. Essas são as vítimas preferenciais de um tipo de ladrão com baixa profissionalização, mal armado, que atua sem qualquer planejamento e em regiões relativamente próximas de sua casa. Acaba por ser reconhecido e preso, ou então vai para a cadeia por pura incompetência. Esse crime é um tipo de arrastão, embora não seja tratado pela mídia como tal.

Outro tipo é o roubo praticado por um grupo armado que bloqueia o trânsito e rouba os motoristas forçados a parar. Isso era uma especialidade de grupos que atuavam no Rio de Janeiro, principalmente na região dos túneis. É praticado por ladrões mais audaciosos, em grande número e bem armados. Em muitos casos enfrentam a polícia, que tem dificuldade de se aproximar devido ao congestionamento.

Os outros dois tipos de arrastão fazem parte do crime da moda em São Paulo. São os roubos em condomínio e os realizados contra os frequentadores de restaurantes. Atingem quase sempre a classe média ou média alta e provocam pavor nos seus alvos potenciais. Afinal a casa ou um restaurante tradicional são zonas de conforto, locais onde o indivíduo normalmente se sente seguro.

Os autores de ambos os crimes são profissionais, porém existem muitas diferenças entre eles. Os arrastões nos condomínios implicam em maior planejamento, informação de dentro, quadrilhas maiores, melhor armadas, com chefia estabelecida. Quando as vítimas são frequentadores de restaurantes o lucro é muito menor, afinal todo mundo usa dinheiro de plástico. Isso atrai um tipo de ladrão com menor experiência e contatos fracos no “milieu”.

Ser menos experiente não significa, porém, menor periculosidade. Quanto maior a profissionalização menos o criminoso tende a matar ou machucar a vítima sem motivo, afinal o que ele quer é dinheiro, não uma complicação a mais. Entrar e sair rápido é a marca do profissional especializado. Espancar ou matar sem motivo demonstra inexperiência, nervosismo, burrice ou psicopatia.

Recentemente ocorreu em São Paulo um arrastão em condomínio onde uma vítima foi morta somente por ser policial militar. Isso tem se tornado mais frequente, e só ocorre porque a polícia perdeu suas prioridades. A regra sempre foi dar atenção especial a determinados tipos de criminosos. Autores de latrocínios, estupros seguidos de morte, matadores de crianças, etc. Esses eram perseguidos e se tornavam alvos prioritários para a polícia. Também eram utilizados por outros criminosos como moeda de troca. Todo pequeno ladrão sabia que teria algumas facilidades se entregasse aquele sujeito.

Que a burocratização do trabalho policial, e principalmente da investigação, tornasse tais atitudes mais raras até pode ser compreendido. Já que nada mais é prioridade para o policial comum, porque se preocupar com criminosos perigosos? A questão é que nem a morte de colegas motiva alguns policiais. Para diminuir o risco de seu trabalho toda polícia do mundo tem uma regra: qualquer ataque a um dos seus é ofensa pessoal. Em New York matar um policial significa ser caçado por toda a polícia, criar milhares de inimigos. Isso, quando bem direcionado e não envolve execuções sumárias, é uma atitude de auto proteção sensata. Quando a maioria dos policiais burocratiza a caça ao matador de um colega (não interessa se civil ou militar), esta mostrando que não existem mais prioridades. Imaginem então o empenho na busca do assassino de um desconhecido ou do autor de um arrastão. Zero.

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