Sem perder o sono com o BC

Estadão

24 de novembro de 2010 | 11h44

José Paulo Kupfer

Confesso que não me emociono tanto assim com a escolha do presidente do Banco Central. Talvez eu confie mais nos poderes da estrutura institucional do sistema de metas de inflação, mesmo que ela tenha sido montada meio às pressas, do que o chamado “mercado”.

O dito mercado parece ficar fora do eixo quando pressente algum movimento no sentido de escapar do credo ortodoxo sobre a santíssima trinda…. ops… o tripé macroeconômico (metas de inflação, câmbio flutuante, responsabilidade fiscal). No fundo, o mercado não parece confiar nos dogmas que declara observar, em permanente contrição.

Fosse diferente, a escolha do nome (e do que ele representa) para comandar o Banco Central não provocaria tanto descabelamento. Ou bem o sistema dispõe de salvaguardas próprias para assegurar seu funcionamento ou bem ele depende de um nome capaz de garantir o que seu arcabouço institucional não lhe fornece. Um fato é que, com altos e baixos e necessidade de aprimoramentos, o sistema de metas, aos onze anos de vida, vai bem, obrigado. Outro é que, se tudo dependesse de um nome, aí é que não teríamos progredido em nada.

Mas, se um marciano baixasse por aqui, neste momento da transição de governo, correria o risco de concluir que o nome é mais importante que as instituições. “Os juros futuros subiram depois da quase confirmação de que o atual presidente do BC não seria convidado a continuar”, escreveria no relatório que levaria para Marte, para sustentar a tese de que o nome é que sustenta o sistema – e não o desejável inverso.

Sim, não é só isso que levou o mercado a fazer careta, puxando os juros, nem que seja por um momento, para cima da curva. A mão insepulta – e peluda – da perda de autonomia operacional do BC sempre volta à cena nessas horas, como voltou agora.

Nem adianta ponderar que não há como um sistema de metas de inflação funcionar sem autonomia de quem pilota a política monetária. E que nem um desenvolvimentista de casaca, ao assumir um mandato para fazer a inflação ao consumidor convergir para a meta estabelecida, teria como sair por aí detonando taxas de juros e inflação. Afinal, há um sistema institucionalizado em operação. Ou não?

Enfim, tem para quase  todos os gostos na bolsa de apostas e nas plantações de nomes para presidir o Banco Central. Banqueiros, como o presidente em fim de mandato, Henrique Meirelles, técnicos de carreira do BC e economistas-chefes de bancos privados. Entre vantagens e desvantagens de cada um, nada que faça valer a pena perder o sono.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.