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Weintraub fugiu com ajuda do chefe

Ex-ministro da Educação escapou da quarentena imposta pelos EUA a passageiros embarcados no Brasil usando passaporte diplomático por cargo do qual já tinha sido exonerado

José Nêumanne

22 de junho de 2020 | 18h01

Weintraub foi à PF entregar depoimento escrito negando racismo e, à saída, foi recebido calorosamente por meia dúzia de admiradores da militância bolsonarista. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Quando Abraham Weintraub embarcou no avião de carreira que o levaria para Miami, na Flórida, com escala em Santiago do Chile, não era mais o bolsonarista de nome e sobrenome estrangeiros que o presidente da República, Jair Bolsonaro, havia escolhido para o lugar de Vélez Rodríguez, que fracassara no Ministério da Educação. Mas um extremista da direita com militância fiel a serviço de seus projetos políticos lunáticos. Pronto até para assumir a liderança em eventual disputa para ocupar o posto do chefe do governo, caso qualquer circunstância tire o “mito” do comando das milícias virtuais. Por enquanto, não há perspectiva nenhuma de que essa substituição seja necessária, mas uma vista d’olhos sobre o panorama na República não será realista se considerar impossível o afastamento do mais poderoso chefão. Nenhum dos mais de 30 processos  guardados na mesa de Rodrigo Maia na presidência da Câmara está na iminência de ser usado. Mas não faltam ações contra a chapa Bolsonaro-Mourão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) contra arroubos autogolpistas dele; E previsíveis abalos que podem surgir da evolução do inquérito do Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro sobre a suspeita gestão financeira do ex-subtenente da Polícia Militar (PM) do Rio Fabrício Queiroz no gabinete do então deputado na Assembleia Legislativa fluminense Flávio, o 01 de Bolsonaro.

As circunstâncias que produziram a súbita e espetacular vitória do capitão reformado do Exército na eleição presidencial de 2018 também provocaram a emergência de novos milionários de votos nas disputas por vagas no Congresso na mesma ocasião. Não há, contudo, nenhum parlamentar do Partido Social Liberal (PSL), legenda pela qual ele se elegeu, que tenha reunido cacife suficiente para ocupar o lugar, incluindo na lista seus herdeiros biológicos, Flávio, Eduardo e Carlos, rematados presepeiros da política, dos costumes e das redes sociais, e que mais contribuem para a ruína do pai do que para sua eventual sucessão.

Weintraub saiu do anonimato absoluto para o almejado lugar de delfim do mais bem-sucedido representante da minoria ruidosa da nostalgia dos tempos de fausto econômico da ditadura militar por causa de sua completa comunhão em pensamentos, palavras e obras com essa militância. Mais que Bolsonaro, que não frequenta nem os cursos do horoscopista na Virgínia, tamanho é seu desprezo pela mínima instrução, ele emergiu das hostes que nos “cursos” do mestre-sala das redes sociais, aprendendo rudimentos da grosseria pré-iluminista que o fizeram surfar nos mares de criacionismo, do terraplanismo, do culto à ignorância explícito e da letal negação da ciência.

Mais do que o chefe do bando, cuja ignorância não lhe permite sequer confundir Kafka com kafta e cuja preguiça evita que cometa erros crassos de grafia, como imprecionante em vez de impressionante, pois atribui a outros semialfabetizados a redação de seus posts no Twitter, Weintraub consagrou-se como burro-símbolo da incultura tupiniquim. Nada mais apropriado, portanto, do que lhe confiar o comando do Ministério da Educação para executar a missão explícita de deseducar as futuras gerações e prepará-las para contrair o neofascismo inculto e mal comportado. Se conseguiu no prazo o que o instinto de sobrevivência do comandante da nau lhe permitiu, isso só saberemos ao longo do tempo em que continuar durando a entrega de nossa Pátria ao bando de anjos da morte e agentes do mal que tratam vacina como origem de doença e pelejam para destruir o legado civilizatório de Galileu, Newton, Fleming e Shakespeare.

Bolsonaro, com sua vocação para vingança e ódio, e no culto à desordem sob suas ordens absurdas, sentiu o calor da fogueira nos fundilhos quando viu Weintraub nos braços de meia dúzia de gatos-pingados que o alçaram aos próprios ombros, raros, mas parrudos, à saída da Polícia Federal (PF) após o depoimento exigido pelo STF, cujos 11 membros ele chamou de “vagabundos”. Merecedor ou não do insulto, elogio, se comparado com o baixíssimo calão reinante no bolsonarismo, o time de togados deu-lhe o caminho de saída para a glória fora do governo ao negar o habeas corpus que pediu. E era plausível, de vez que sem armas nem fogos de artifício à mão, ele não usou mais do que a palavra, a que lhe dá direito o preceito inviolável da liberdade de expressão. Certo é que o STF não o proibiu de sair do País nem mandou recolher seu passaporte diplomático, o que foi comparado pelo desembargador Wálter Maierovitch com um “chapéu”, o mais desmoralizante drible do futebol.

Sem ordem de captura no computador do embarque da PF no aeroporto de Guarulhos, ele voou para Miami, sonho de consumo dos militantes do “ignorantismo” absoluto da dita “ala ideológica” do governo, a maior ofensa semântica a qualquer ideologia que preze a definição, por mais violenta e totalitária que seja. O discurso e a ação dos nazistoides, aliás, não autorizam o uso da expressão para definir supremacia do preconceito sobre empatia e desprezo à vida, manifestado na ausência da máscara, que se tornou uma espécie de desafio à higiene e à vida durante a pandemia, que já contaminou 1 milhão e fez mais de 50 mil vítimas de morte de uma população sem defesa ante táticas de extermínio dos gabinetes do ódio e da adoração onanista de armas e munições. Nos ombros de um bando inferior em número aos 17 racistas que imitaram a Ku KIux Klan levando trevas na ponta de suas tochas à sede do poder republicano, sob a chefia de Sara Giromini, Weintraub viveu seu momento de glória, similar ao incrível emprego ao qual Bolsonaro o destinou no Banco Mundial, em Washington, ao custo de R$ 115 mil mensais, pagos por nós.

A exoneração “a pedido” de Weintraub do MEC exigiu um enorme constrangimento do mercurial presidente da República. Evidentemente constrangido, posto no lugar de coadjuvante sob o protagonismo do subordinado, Bolsonaro participou de uma live, forma de comunicação favorita da extrema direita negacionista nacional, em que até um “abracinho” de despedida foi dado em mais uma provocação às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), não obedecidas pelo Brasil — além de Nicarágua, Turcomenistão e Bielo-Rússia. Ali, o mestre de cerimônias referiu-se a seus 18 anos de Banco Votorantim (BV). Em entrevista coletiva, seu desafeto Rodrigo Maia lembrou ironicamente que o BV havia quebrado. “Digo apenas que o Banco Votorantim NUNCA quebrou e que existe até hoje. A afirmação dele é uma MENTIRA. Tive a honra de trabalhar lá. Comecei como liquidante (boy) e cheguei a diretor estatutário. Fui economista chefe, ranqueado várias vezes no Top5”, escreveu Weintraub a um seguidor que se referira ao fato. De fato, a instituição financeira ainda existe, só que desde 2009 está incorporada pelo Banco do Brasil num pacote público federal de socorro a bancos em má situação financeira. Votorantim, como se sabe, sempre foi uma marca poderosa, mas no setor industrial.

O detalhe sórdido da exoneração de Weintraub, contudo, passa longe da discussão inócua sobre a débil saúde da instituição financeira em que fez carreira. A articulação traduz a expressão criada pelo colega Octavio Guedes, da GloboNews, pois é típica peça da “estética de milícia”, reinante em Rio das Pedras, cujo chefão miliciano era o também capitão, só que da PM-RJ, Adriano Magalhães da Nóbrega, executado na Bahia por policiais baianos e fluminenses. No prédio conhecido como “Máscara Negra”, no centro de Brasília, foi recebido pelo diretor-geral da PF, Rolando Alexandre de Souza, e depois entregou o depoimento por escrito, para não responder a perguntas. À saída, foi recebido por meia dúzia de admiradores que o carregaram nos ombros e isso decretou sua despedida do MEC.

Weintraub embarcou na noite da sexta 19. A demissão só seria publicada no Diário Oficial na edição extra de sábado 20, ao meio-dia, quando já tinha passado pelos trâmites de migração no aeroporto. Segundo o advogado constitucionalista Marcellus Ferreira Pinto, em entrevista ao UOL, ele pode ser considerado ilegal pela lei americana e acabar deportado dos Estados Unidos se tiver utilizado o passaporte diplomático de ministro. “Para o direito brasileiro ele é ministro até sábado, quando [o pedido] é publicado no DO (Diário Oficial). Para o direito americano, não. Se pediu exoneração na quinta-feira, já não é ministro desde então” explicou.

Resta-nos pagar para ver, com a vênia de São Tomé.

  • Jornalista, poeta e escritor

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