Vingança e retaliação
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Vingança e retaliação

Dilma se diz vítima de Temer e Cunha, que se queixa de milhões de inimigos. Ambos mentem.

José Nêumanne

06 de maio de 2016 | 18h29

Dilma diz que Temer é cúmplice de Cunha

Dilma diz que Temer é cúmplice de Cunha

Diário do Nêumanne

Sexta-feira 6 de maio de 2016

Vingança e retaliação

Parece título de romance vitoriano inglês, não é? É, mas não é, não.

Trata-se apenas de uma constatação. Dei entrada no seminário redentorista de Bodocongó, em Campina Grande, quando tinha a idade que tem hoje meu neto mais velho, Pedro: 12 anos. No seminário, tive aulas de Lógica com o padre holandês Bernardo. Ele era um professor brilhante e aprendi a amar a disciplina de Aristóteles e dos tomistas e usá-la como instrumento de exposição de argumentos em prosa jornalística. Embora saiba que será uma cruzada vã, gostaria de fazer uma campanha nacional pela volta dela às escolas, mormente as de grau superior. Falta muita lógica neste país cada dia mais surrealista e neste momento o local de onde foi expulsa de vez é a academia. Encontre um intelectual que não a despreze e maltrate no Brasil e ganhará um lugar ao lado de Santo Agostinho no reino dos céus, incréu. Já que o moribundo desgoverno Dilma quer tanto revolucionar o ensino no País, que tal se a adotasse no currículo nacional? Felizmente, ela não foi abolida em alguns refúgios. Foi de uma lógica lapidar, por exemplo, o relatório de Joaquim Barbosa no Supremo no julgamento do mensalão. O mesmo se pode dizer de quatro episódios recentes: a entrevista de Roberto Jefferson à Rádio Estadão, o relatório de Antonio Anastasia na Comissão Especial do Impeachment do Senado, a delação premiada de Delcídio do Amaral e, mais recentemente, a trama denunciada pela coleguinha Eliane Cantanhêde no Blog do Estadão. E descrita com exatidão por Reinaldo Azevedo no blog dele, abrigado na Abril. Falo (ou melhor, escrevo) da trama que deve ter envolvido Marina Silva e a Rede, a cúpula palaciana, os cinco moicanos da bancada do chororô de que Dilma dispõe na Câmara Alta, o causídico Cardozo insistindo no apelo para anular todos os atos de Cara de Cunha, depois que ele foi suspenso por unanimidade no STF, e a tentativa de Lewandowski e Marco Aurélio de votarem a toque de caixa a ação da Rede, que teria embutido um cágado numa ação que pedia a mesma coisa que estava sob o crivo de Zavascki. Este, por justo motivo, a interrompeu. Interrompeu, mas não pôs fim, temo. Pode ser apenas paranoia, mas bem que todo mundo devia ficar de olho no que os dois ministros escondem no bolso da toga, principalmente o truculento e mui pouco confiável chefão do Poder Protelatório Nacional. A Justiça não dispensa provas. Mas, para quem raciocina e argumenta, uma lógica implacável desta coincidência, que nada tem de mera, não pode ser deixada de lado. É melhor ficarmos todos de olho nessa gente que afronta a verdade e a lógica com a tranquilidade de quem toma um coco na Praia do Pepino.

Na Pátria da Enganação, então, a coisa é de arrepiar. Dona Alucinadilma, por exemplo, quer porque quer nos convencer de que seu impeachment está avançando por obra e graça de seu neoinimago figadal e renal Cara de Cunha. Sou sertanejo e conheço muitos métodos de tocaia. Mas nem minha imaginação de cego de feira livre alcança o universo pseudoparanoico da madama. Imagine só: 132 milhões de brasileiros (66%), 367 deputados federais (69%), 15 (71%), ou seja, dois terços dos 21 senadores da Comissão Especial do Impeachment do Senado, 50 (61%) do total de 81 senadores e a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal a esperam mirando a franja dela à saída do Palácio da Alvorada. Lá onde será mantida reclusa até ser decidida, em 180 dias, sua sorte ou a falta desta. Todos motivados apenas pela fúria fria de um homem só. De fato, motivos não faltam à massa: 4% da queda prevista do PIB, terceira baixa este ano no índice de credibilidade da economia nacional, 11% de taxa de desemprego não são desgraças de pouca monta. Sem falar na inflação que não resiste nem ao quedo PIB. Mas deputados e senadores dela receberam prebendas e aí não se pode culpar o inimigo íntimo de nada. Não se trata de vingança. Talvez estes sejam apenas um bando de mal agradecidos, não é, não?

Quanto ao Cara de Cunha, também não se pode dizer que ele seja um devoto de Santo Tomás de Aquino, embora, pecando tanto, se diga santarrão. Como a arqui-inimiga, ele atribui a suspensão do seu mandato na Câmara, decidida por 11 a 0 na dita, mas nunca comprovada, Suprema Corte, a uma palavra bem próxima de vingança: retaliação. Segundo o Datafolha, 77% dos brasileiros querem que ele seja não apenas suspenso, mas sumariamente cassado. São 154 milhões de brasileiros, é gente que não acaba mais. Duvido que um só deles tenha algum motivo para retaliar qualquer ato incauto dele. E dizer o quê dos 11 ministros do Supremo: o que ele fez a cada um desses senhores de origens e histórias bem diferentes um do outro para que, individualmente, tenham motivos para odiá-lo? Pensando bem, Cara de Cunha tem mágoa concentrada numa pessoa só, Rodrigo Janot, procurador-geral da República. E Dilma  pelo menos divide o ódio contra ele com outro, muito mais dolorido: o quase ex-vice, que se prepara para ser o que ambos nunca pensaram que seria. Ai ai ai!

Mas esta é outra história. E, assim que puder, eu lhe conto.

Cunha e seus milhões de inimigos

Cunha e seus milhões de inimigos

 

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