Um espelho para Temer
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Um espelho para Temer

Para se defender de verdade, Temer precisa deixar de focar em Joesley e se ver no espelho

José Nêumanne

20 de junho de 2017 | 11h44

Temer chega a Moscou, primeira parada de sua viagem para fora do País Foto: Beto Barata/PR

O presidente Michel Temer viajou para Rússia e Noruega passando fora do País uma semana complicada em que o restante de seu mandato, a sorte de Lula e a prisão de Aécio Neves estarão em jogo. Péssima hora para deixar o País, mas ele deve saber o que faz. Assim que ele chegou ao exterior, a Polícia Federal entregou ao STF a primeira parte do inquérito sob sua responsabilidade, apresentando provas de que Temer é suspeito de ter cometido crime de corrupção passiva. E pediu mais cinco dias para investigar outros dois crimes: organização criminosa e obstrução à investigação. Sinceramente não vejo por que os agentes que fizeram a investigação tivessem qualquer motivo para comprometê-lo.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na terça-feira 20 de junho de 2017, às 7h30m)

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Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado 20 de junho de 2017

A Polícia Federal apontou indícios de crime de corrupção passiva cometido pelo presidente Michel Temer e por seu ex-assessor e ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) no inquérito aberto com base na delação do empresário Joesley Batista, do Grupo J&F – controlador da JBS. A PF seria irresponsável a ponto de concluir um relatório desses se tivesse deparado com a inocência do presidente?

De acordo com reportagem de Andreza Matais, Fabio Serapião e Breno Pires do Estado de S.Paulo em Brasília, este é o fato e sinceramente não vejo por que os agentes que fizeram a investigação tivessem qualquer motivo para comprometer Temer sem motivo algum.

Divisão da PF Paulo Lacerda PT, Marcelo Itagiba PMDB, viúvas de Romeu Tuma e outros grupos. Divisão aumenta a transparência da PF

A PF também pediu mais cinco dias de prazo para encerrar a apuração. O inquérito que investiga Temer e Rocha Loures não foi concluído na parte em que são apurados crimes de organização criminosa e obstrução de Justiça. O laudo final da perícia nos áudios gravados por Joesley não foi totalmente finalizado.

Não há por que duvidar do trabalho de investigação da PF. Os investigadores da Polícia Federal responsáveis pelo inquérito relativo ao presidente Michel Temer estão convictos de que as provas contra ele são tão robustas que dificilmente a Câmara dos Deputados deixará de autorizar o Supremo Tribunal Federal (STF) a investigá-lo. Os depoimentos colhidos, as apreensões realizadas e a segunda etapa dos áudios da JBS são os principais elementos.

A Procuradoria-Geral da República deverá denunciar Temer nas próximas semanas. Temer deveria ter ficado no Brasil para se defender melhor. Contar com a indiferença da Câmara diante do material investigado, que ele não conhece, é irresponsabilidade similar a de receber Joesley em casa.

Mas Temer viajou depois de ter entrado com dois processos na Justiça contra Joesley Batista, um por danos morais e outro por difamação, calúnia e injúria. Isso não basta para justificar sua viagem?

Segundo registro da reportagem de Isadora Peron e Breno Pires, da Sucursal de Brasília do Estadão, para a defesa do peemedebista, o executivo agiu por “ódio” para prejudicar Temer e “se salvar dos seus crimes”. Sinceramente, isso chega a ser infantil. De que adiantaria o ódio de Joesley se Temer não fosse suspeito de ter cometido os crimes de que é acusado nas provas levantadas pela PF? O que salvou Joesley da cadeia não foi sua disposição de acusar o presidente, mas as denúncias e as provas que levou para os investigadores de que ele teria cometido três crimes gravíssimos. Desculpa de cego é feira ruim e saco furado.

Temer decidiu processar Joesley após ele dizer, em entrevista à revista Época, que o presidente liderava a “maior organização criminosa do país”. A afirmação talvez seja de fato exagerada, até porque todo mundo já sabe que o chefe da quadrilha é outro. Mas isso não inocenta Temer dos fatos apresentados pelo delatos e investigados pela PF.,

Nos processos, que são praticamente idênticos, a defesa do peemedebista afirma que Joesley “passou a mentir escancaradamente e a acusar outras pessoas para se salvar dos seus crimes” e acusa o empresário de ser “o criminoso notório de maior sucesso na história brasileira”, já que conseguiu um acordo de delação premiada que o permite ficar em liberdade e morar no exterior. Sem citar os governos do PT, o documento afirma que é preciso “rememorar os fatos” de que o Grupo J&F, da qual Joesley é acionista, recebeu o primeiro financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2005, “muito antes” de Temer chegar ao Palácio do Planalto. Tudo isso é verdade, mas também não libera o presidente de se defender dos fatos reais. Ficaram faltando nos depoimentos e na entrevista a narrativa da construção da fortuna. Mas isso daí nada tem a ver com as acusações específicas e factuais contra Temer.

O advogado de Temer também afirma que os empresários ligados à JBS tinham “milhões de razões para terem ódio” de Temer, porque o governo, por meio do BNDES, impediu a transferência de domicílio fiscal do grupo J&F para a Irlanda, em outubro de 2016. “(Isso seria) um excelente negócio para ele, mas péssimo para o contribuinte brasileiro. Por causa dessa decisão, a família Batista teve substanciais perdas acionárias na Bolsa de Valores e continuava ao alcance das autoridades brasileiras.” Temer se defenderia melhor se tivesse dito isso pessoalmente a Joesley. Agora foi a Portugal perdeu o lugar.

O advogado sustenta ainda que Temer “é homem honrado, com vida pública irretocável, respeitado no meio político” e que, “durante toda a vida pública, nunca, jamais, sofreu qualquer condenação judicial, ou mesmo foi acusado formalmente de ter obtido qualquer vantagem indevida”.

Isso não está em discussão. Não está sendo investigado seu passado, porque a Constituição não permite que isso ocorra com presidentes. Temer está sendo julgado pelo que fez na presidência.

Além dos processos, Temer resolveu ameaçar o novo oponente um vídeo distribuído ontem.

SONORA_TEMER

A pergunta que não quer calar: por que isso não vale para ele mesmo?

Em carta redigida da cadeia onde está preso em Curitiba, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, citou um encontro entre ele, Joesley e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no ano passado, para desmentir o empresário da JBS. Os advogados dos Batista já mudaram um pouco a versão das duas reuniões solitárias. Isso muda alguma coisa a situação de do Cara de Cunha e do mordomo de filme de terror?

O dono do frigorífico disse ter encontrado Lula em apenas duas ocasiões: uma em 2006 e outra em 2013. Agora soltou nota dizendo que não foi bem assim. “Ele (Joesley Batista) fala que só encontrou o ex-presidente Lula por duas vezes em 2006 e em 2013. Mentira! Ele apenas se esqueceu que promoveu um encontro que durou horas no dia 26 de março de 2016, Sábado de Aleluia na sua residência, entre eu, ele e Lula, a pedido de Lula, para discutir o processo de impeachment (de Dilma Rousseff)”, diz a carta. Cunha afirmou que, no encontro, pôde “constatar a relação entre eles e os constantes encontros que mantinham”. Segundo o ex-presidente da Câmara, sua versão pode ser comprovada com o testemunho dos agentes de segurança da Casa, que o acompanharam, além da locação de veículos em São Paulo. Isso em nada altera o caminhão de provas levantadas contra Cunha nem o que a PF investigou sobre Temer, mas começa a esclarecer o lado oculto da delação de Joesley: a fabulosa história de sua fortuna.

“É estranho que mesmo atacando o governo, ele ainda seja o maior beneficiário de medidas do governo, tal como a MP do Refis, em que ele, como maior devedor da Previdência do País, vai poder pagar os bilhões que deve em 15 anos, com descontos e ainda usando créditos podres”, disse Cunha.

Na véspera da apreciação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), do pedido de prisão do senador Aécio Neves (PSDB), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse que o partido tem que aguardar a decisão da Justiça com “confiança e serenidade” e que pode sair da base do governo de Michel Temer a qualquer momento.

SONORA_ALCKMIN

Na verdade, o PSDB está defendendo o próprio emprego de seus dirigentes. Nada a ver com o desemprego de 14 milhões de brasileiros.

Aécio decepção e PSDB afunda junto com o PT. Não vai ser com lero-lero que Alckmin vai livrar Aécio, que aliás é o que não quer, pois o senador mineiro é seu concorrente na escolha da chapa presidencial. Assim como o PT, seu antípoda eleitoral e cúmplice na corrupção, o PSDB precisa ser refundado para sobreviver.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, criticou nesta segunda-feira, 19, o que chamou de “abusos” em investigações. A quem ele serve com esse discurso permanente a favor da impunidade?

Em Pernambuco, Gilmar fez duras críticas a juízes e procuradores e chegou a ser aplaudido pela plateia em alguns momentos. Vamos ouvi-lo?

SONORA_GILMAR

Defendendo a reforma política em seu discurso, Gilmar disse que não se faz democracia sem política e sem políticos. “Quem quiser fazer política, que vá aos partidos políticos e faça política lá. Não na promotoria, não nos tribunais”, disse Gilmar, que ouviu aplausos em seguida.

O ministro criticou, ainda, a possibilidade de um governo gerido por juízes e promotores. “Deus nos livre disto. Os autoritarismos que vemos por aí já revelam que nós teríamos não um governo, mas uma ditadura de promotores ou de juízes”, disse o ministro, que voltou a ser aplaudido. “Não pensem que nós juízes ou promotores seríamos melhores gestores.”

Seguindo a crítica, Gilmar falou de benefícios pagos a juízes e promotores, como o auxílio moradia, e disse que “ninguém (do Judiciário) cumpre teto (salarial), só o Supremo”. E emendou a frase perguntando: “Vocês vão confiar a essa gente que viola o princípio de legalidade a ideia de gerir o País? Não dá”.

Temer e Aécio. Embora sem citar diretamente o senador Aécio Neves (PSDB) nem o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, Gilmar criticou a decisão por meio de liminar para o afastamento de um parlamentar. “Se está a banalizar. Dá-se uma liminar para suspender um senador do mandato. Onde está isso na Constituição? Não está, mas a gente inventa.”

Gilmar também criticou, sem citar diretamente Joesley Batista, a ação em que o empresário da JBS gravou o presidente no Palácio do Jaburu. “Nós não podemos despencar para um modelo de estado policial. Investigações feitas na calada da noite, arranjos, ações controladas, que tem como alvo muitas vezes qualquer autoridade ou o próprio presidente… é preciso discutir isso.”

Duas mancadas de Gilmar: pessoal Eike e TSE

SONORA Luiz Gonzaga Forró de Mané Vito