Torto feito faca
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Torto feito faca

“Eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês” (A Palo Seco, Belchior)

José Nêumanne

01 de maio de 2017 | 17h31

 

Belchior e Fagner, parceiros que se distanciaram

Dizem que a vida imita a arte. No caso de Belchior, a constatação foi sempre um vaticínio. Basta um conhecimento mínimo de sua obra musical para que o exegeta encontre algum verso que tenha sido transformado em ação durante, logo ou após ter sido concebido e musicado. Como na fábula do ovo e da galinha, fica difícil saber se, como poeta e conhecedor profundo da poesia, ele tinha noção dos próprios dons proféticos e, portanto, compor seria prever. Os céticos, contudo, dirão que ele escrevia os versos e, depois, os confirmava com atos. Qualquer dessas hipóteses pode ser correta.

Mas faço um desafio a quem duvidar de seus dotes proféticos. Como teria sido possível que na tarde de sábado 29 de abril de 2017, em plena flor de seus 70 anos, ele pudesse ter usado uma lâmina de barbear ou a ponta de uma tesourinha para cortar a própria aorta? Pois a causa de sua morte precoce e surpreendente foi uma dissecção da aorta, rasgo da parede da principal artéria do corpo humano, o que causa sempre grande perda de sangue? E não foi ele que escreveu a canção A Palo Seco, em que fez uma profecia pelo avesso: “Eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”?

Quando ouvi esse verso pela primeira vez na voz do autor, reproduzido num velho gravador de cassete usado naqueles anos 70 na cozinha de meu apartamento na Rua Caio Prado, ele jamais poderia fazer-me imaginar que seria uma profecia da própria morte. Ocorreu-me antes de tudo uma grande familiaridade, exposta no título, pela afeição que ambos devotávamos a João Cabral de Melo Neto, embora o pernambucano não fosse afeito a imagens inexatas como essa da faca torta. Além disso, a expressão no fundo soava similar a “feito vaca”, comum na Campina Grande de minha adolescência para definir algo depreciativo em relação a um desafeto ou a um amigo que não agisse de forma correta.

Seja como for, o verso traduzia a força de sua rebeldia e de um enfrentamento com a vida rotineira que o sucesso como cantor popular não arrefeceu em seu temperamento. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes era o cantor de maior nome na música popular brasileira, como ele brincava, fez sucesso de forma inesperada, compôs alguns clássicos do cancioneiro popular nativo, mas morreu inconformado com o que produzia aquele sucesso e o que ele mesmo gostaria de produzir.

Os amigos e alguns inimigos íntimos o chamavam de Bel à época em que vivia na obra da casa do engenheiro Simon e de sua mulher, Irede Cardoso, minha colega na redação da Folha de S.Paulo, onde também escrevia o produtor musical que inventou Elis Regina e tinha sido um disc-jóquei de muito sucesso no rádio um decênio antes: Walter Silva, produtor, criador e apresentador do Pick-Up do Pica-Pau, referência a seu enorme apêndice nasal. Com Manassés, o grande guitarrista e violeiro cearense, que hoje acompanha Fagner, a turma hospedada por Irede produzia saraus e canjas musicais que depois se tornaram produtos fonográficos de grande apelo comercial. Fagner ensaiou em jam sessions com Amelinha, Telma e Terezinha de Jesus seus primórdios de intérprete flamenco, reproduzidos depois em Traduzir-se. Há um CD de uma noite dessas que chegou pelas mãos de um fã improvável ao acervo do parceiro de Belchior na inesquecível Mucuripe e na infelizmente pouco lembrada Na Hora do Almoço.

No gravador de cassetes Belchior gravou duas canções que havia levado a Elis Regina, que o conhecera na condição de parceiro de Fagner, que havia morado na casa dela e de Ronaldo Bôscoli no Rio e afinara a amizade sob as bênçãos do Pica-Pau, que a Pimentinha tratava como pai. Quando ouvi pela primeira vez Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, percebi de cara a força de desabafo inquieto das duas letras, mas não entendi o que o instinto animal da pequena gaúcha havia encontrado de original nas melodias. Belchior sempre foi um poeta fino e cortante e um músico de poucos acordes e harmonia limitada. Elis as transformou em clássicos hinos de uma geração insatisfeita. Coisas de Elis, ora, direis.

Pois, então. O próprio Belchior gravou as duas no mesmo LP, Alucinação, produzido pelo aclamado Mazzola. A primeira das dez faixas, contudo, não foi nenhuma das duas tornadas hits pela maior cantora brasileira de todos os tempos. E uma das dez faixas é a canção em cujos versos encontrei o título desta modestíssima homenagem e também a profecia em que ele pagou pela própria praga, cometendo talvez o único suicídio indesejado da História do gênero humano. Segundo o delegado Luciano Menezes, responsável pela investigação desse desfecho inesperado, Belchior, o que nunca sossegou, morreu sereno, durante o sono e ouvindo música clássica. Algum desavisado pode até pensar que a cena da hora da morte não combina com os momentos da vida irrequieta. Li panegíricos incompletos e balanços muito bem feitos sobre a vida e a obra do menestrel de Sobral. Poucos atentaram para esse detalhe.

Para fazer jus à homenagem ao autor da ópera O Guarani em seu nome, Bel cultivava, sim, música clássica. Frequentei uma casa em Santo Amaro onde ele guardava gravações de Bruno Walter e Karajan regendo Beethoven e Mozart. Mas o que mais chamava a atenção era sua biblioteca de poesia. Talvez fosse a mais completa e a mais seleta que conheci. Citou Poe e Rimbaud num verso e contou a Sônia Bridi, repórter do Fantástico, que estava traduzindo Divina Comédia, de Dante Alighieri, texto sobre o qual debatemos longas horas. Quando eu tinha a editora A Girafa, ele me propôs organizar uma antologia de poesia brasileira manuscrita por ele. O menino rebelde do seminário e da faculdade de Medicina era calígrafo e tinha uma das mais belas letras manuscritas que já vi. Era também pintor. Se aquele anjo torto feito faca que apareceu para Drummond lhe perguntasse o que ele gostaria de ser, talvez tivesse dito Velásquez, não Bob Dylan, que ambos venerávamos.

Não, meninos, Belchior não usou um estilete para cortar a própria aorta. Talvez tenha sido uma peça pregada por aquele parceiro de Drummond, que ele venerou a ponto de gastar uma fortuna na produção de um álbum no qual registrou suas versões musicais do poeta de Itabira com os poemas por ele manuscritos em edição de luxo. E de Ismael Nery, artista plástico surrealista e dadaísta que mereceu o privilégio de ter quadros pendurados ao lado dos do próprio dono daquela casa sem mulher nem filhos que o eremita de Sobral povoava com arte e raiva. Esse parceiro atende pelo nome muito popular de Deus.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 1.ª de maio de 2017)

 

Para ouvir A Palo seco com Belchior clique aqui

 

 

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