Tenha dó, Senhor!
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Tenha dó, Senhor!

Impeachment sem crime é golpe, metade da verdade. A outra metade, crime sem impeachment também o é.

José Nêumanne

13 de maio de 2016 | 17h35

Lula e Dilma, abraçados e afundando

Lula e Dilma, abraçados e afundando

Sexta-feira 13 de maio de 2016

Cinco flagrantes destes tempos duros e possivelmente auspiciosos da virada:

1 – Dilma dirige-se ao ostracismo transportando com ela na bagagem agressões ao vernáculo, um embornal que contém muitas mentiras e desafios, que beiram a insanidade, às instituições da boa, velha e vilipendiada democracia burguesa no Brasil. Os gerúndios continuam sem os dês – andano em vez de andando. O uso abusivo, errático e equivocado dos pronomes pessoais oblíquos – pra mim fazer. O emprego errado do gênero – obrigado, em vez de obrigada. Logo ela, que insiste tanto no insuportável presidenta, do qual, afinal e felizmente, começamos a nos ver livres. No arrastado e inevitável processo de seu afastamento, ela também nos brinda com mais do mesmo de sempre desapreço pelo Estado Democrático de Direito. Instituiu o voto popular como instância única do poder republicano. Para ela, o voto é carta branca: cidadão errou na urna, danou-se. O veterano e lúcido senador paraibano José Maranhão, que de Waldir Maranhão só tem o sobrenome, pois é sabido e competente, deu nova roupagem a uma afirmação que este conterrâneo dele tem feito do hábito egocêntrico e estúpido da chefona do governo: em seu discurso de até breve, explicou que se vota em alguém para que este governe, não para que  abuse do poder, como ela já o fez reiteradas vezes. Ter sido sufragada não a autoriza nem nunca a autorizará a tratar o eleitor como se fosse avalista que não se pode arrepender. Outra versão, esta de Antonio Anastasia, relator do impeachment na Comissão Especial do Senado, também é de uma precisão exemplar: “presidencialismo sem impeachment é ditadura”. Completo: essa mania dos petralhas de tratarem a vítima de suas pilantragens como se fossem seus cúmplices é injusta, cruel e desumana. E a lei não autoriza. No crime dela, seus eleitores e até mesmo os que votaram em candidatos por ela derrotados na eleição são objetos, não sujeitos, dos delitos, que são só dela. Seu mantra “impeachment sem crime é golpe”, é a chamada meia verdade, conhecida como meia mentira. Pois certo é que reincidir no crime e escapar ao impeachment também é golpe. E foi tudo o que ela fez. Na última “temerecunhalinária” (apud Catilinárias, de Marco Cícero), ela abusou de sua dificuldade de se exprimir ao insinuar, de forma nada sutil, que golpes sempre produzem cadáveres. Um juiz inclemente teria todo o direito de considerar a afirmação um incentivo à procura de um cadáver conveniente. Algo semelhante ao uso de armas para reagir à sua deposição, como foi prometido em palácio, na sua presença, por seu facínora de aluguel, Vagner Freitas, presidente da Central Única de Trabalhadores (CUT). À saída, ela também acrescentou a seu estilo de gestão aprendido nas Organizações Tabajara (apud Gilmar Mendes) em empreendimentos desgovernados e destrambelhados a promessa de usar métodos legais ou “de luta” para ficar a qualquer custo no lugar ameaçado. É preciso ser muito intolerante para considerar essa afirmação uma ameaça de usar métodos ilícitos, conturbando com suas turbas o País, com o objetivo de atender apenas ao próprio interesse pessoal, partidário ou ideológico? Sendo tão intolerante, como sempre foi, por que ela deveria ser poupada de nossa intolerância? Aliás, madama também é impenitente. Dilma admite de forma condicional que pode ter errado eventualmente: aderindo, até que enfim, ao antiquíssimo “errare humanum est” dos romanos. Mas não admite que insistiu no erro, o que os antigos chamariam de diabólico. E, o mais grave, nunca se desculpou. Há outros barbarismos a serem destacados e execrados em suas falas. Um deles é sua obsessão pela traição. Para ela, o impeachment tem o pecado original (a expressão bíblica é de sua lavra) da traição de Eduardo Cunha, colega de seus correligionários no saque sesquipedal ao patrimônio da viúva? Ora, a senhora não tem vergonha? Mentiu descaradamente na eleição e acha que não traiu o eleitorado, a Nação, o País? Como diria a secretária de Saúde de Petrópolis, que decerto deve ser sua fã, “vá se catar, dona!”. Prometeu pleno emprego e plantou desemprego. E ainda quer ser respeitada e venerada. Sua mãe, que, segundo dizem, a senhora odeia, não lhe ensinou essa lição fundamental, não? A senhora age como esquizofrênica e não demonstra emoção nem numa hora como esta e acha que pode emocionar os outros em sua defesa? Agora tem o destemor de atacar a Câmara (367 votos sim a 136) e o Senado (55 contra 20 não) por terem providenciado uma “farsa” política. E o Supremo Tribunal Federal (com frequentes negativas de 8 a 2 ou até 11 a 0), de autorizar uma farsa “jurídica”. Para quem tem poucos amigos, cuidar, como Dilma cuida, de cada vez mais fazer inimigos é de um apreço pelo risco similar ao de pegar em armas contra a ditadura militar. Aliás, ela bem que poderia ficar com sua turma e nos deixar em paz!

2 – Depois do discurso da sra. Vana Linhares, Estela ou seja mais lá o que for ou possa ter sido, veio o de Michel Temer, que a substitui no encargo de governar um país até agora sem governo. Minha primeira sensação ao ouvi-lo foi de alívio. Enfim, habemus um presidente que, felizmente, não precisa se afirmar como macho alfa “presidento”, que pronuncia os dês dos gerúndios e promete respeito não por espírito cristão, mas por obrigação institucional, et pour cause, prenunciando a restauração, na república do baixo calão, de uma relação civilizada entre governante e cidadão, não súdito. Mas, sobretudo, por sinalizar que, depois de anos de máquina pública à matroca, apareceu alguém para dar algum rumo nesta hora difícil a uma sociedade amargurada, sem esperança nem confiança, sem crédito nem perspectivas. O contraste dos dois pronunciamentos ressalta a necessidade de ele ficar e ela sumir no lixo da História, a que esteve sempre destinada, mas do qual foi retirada por seu padrinho Lula, aliás, o primeiro traído por ela, vítima do próprio erro descomunal de a ter ungido e consagrado por dois longos mandatos à frente.

3 – Confesso que o contraste da elegância de um com o descontrole da outra foi posto em confronto com o choque de ver um magote de machos em torno do Temer em todos os momentos em que ele foi fotografado ontem. Por que nenhum assessor lhe lembrou que, ao assumir o exercício da Presidência, o vice não se fez acompanhar nem da bela e recatada mulher para receber o enviado do Senado? Pior ainda foi não se ter lembrado de incluir mulher e negro na primeira equipe, por mais que o vice em exercício da Presidência tenha sido forçado a negociar composição por apoio parlamentar. Um Ministério todo branco e masculino é um engano que ele não devia ter acrescido aos enormes desafios que terá de encarar e resolver. A escolha prioritária de parlamentares não entrou nas diatribes da esquerda caduca porque esta perdeu a capacidade de cogitar, logo ser, faz tempo. Poderia haver algo que caracterizasse mais um golpe parlamentar do que essa evidência? A escolha de Itamar Franco depois do primeiro impeachment de Collor poderá levar-nos a torcer para que este Ministério de colegas de ofício dê o mesmo resultado do original: afinal, considero o Plano Real, principal obra do vice mineiro nascido em mar baiano, a maior revolução social de nossa História.

4 – Por falar em História, a deusa Clio continua com as unhas afiadas para nos arranhar e coçar. Collor, garboso, alto, apolíneo, fez, talvez, o melhor discurso da sessão de anteontem e ontem. Isso mostrou que porte, talento e oratória não melhoram a natureza de um calhorda que atirou essa e outras oportunidades no lixo que fez de sua biografia. Segundo meu amigo advogado, José Paulo Cavalcanti Filho, o pior foi o de Edison Lobão. Não assisti a todos, mas confio em Zé Paulim. E isso confirma a péssima qualidade do covil em que não conseguiu se esconder a matilha de Lula e Dilma.

5 – Por falar em quadrilha, a presença de Romero Jucá no ministério é uma grave temeridade de Temer e um sério risco para o Brasil. Se o juiz Sergio Moro aparecer de repente na vida do novo ministro do Planejamento, ele pode jogar aos porcos a pérola de sorte que o Brasil teve na escolha de Henrique Meirelles para a Fazenda com Previdência a. A substituição de Armando Monteiro Neto, um dos poucos indícios de qualidade no desastre Dilma, por Marcos Pereira, ex-traficante que virou pastor do bispo Macedo, é outra aposta que contém mais certeza da fortuna incerta do que temor do risco provável. Leonardo Picciani, por todos os deméritos pessoais e familiares, é a maior evidência de que a péssima qualidade do futebol jogado no Brasil é ainda pior do que o craque Paulo César Caju descreve em seus textos. Com a agravante de o novo ministro dos Esportes prenunciar um magistral malogro olímpico.

6 – Grandes jornais americanos, ingleses e franceses têm escrito barbaridades imperdoáveis sobre nosso doloroso momento histórico. O respeitável The New York Times deu uma de comentarista de arbitragem do Brasileirão, que começa amanhã, ao configurar o afastamento, punição aplicada a Dilma, como desproporcional ao delito de que ela é acusada. E mais: foi tomada por julgadores com mais contas a pagar na Justiça do que o que ela deve. Tola empáfia! Já que não respeitam o País, que consideram fora de seu universo imperaiista e colonialista, os coleguinhas estrangeiros deveriam respeitar seus leitores, que pagam seus salários. Se avaliam como relevante o noticiário policial, político e judicial brasileiro, poderiam escalar correspondentes menos medíocres e publicar editoriais de profissionais que pelo menos tivessem lido nossa Constituição. A mesma desculpa não serve para o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, que tem publicado posts francamente mentirosos ou desinformados e agora resolveu dizer que o presidente que assumiu, Michel Temer, o fez de forma anômala, pois não teve votos. Se tivesse consultado alguém capaz de lhe dar informação exata, ele poderia ter sido informado que (1) o vice teve exatamente a mesma votação da candidata a presidente – e tanto isso é verdade que a dupla é ré no Tribunal Superior Eleitoral em conjunto, e não isoladamente; e (2) Dilma só chegou ao segundo turno nas duas eleições que disputou porque recebeu votos do PMDB. Ao se tornar um vassalo petista, o ex-presidente do STF põe a reputação exageradamente qualificada como heroica em risco. Falando baboseiras sem fim ao tratar do momento, o ministro se esquece de que, no passado, se aposentou precocemente e poderia ter participado, como parece pretender agora, do debate político atual. Mais moral ele teria se tivesse ficado no STF para encarar as ameaças. Conheço muito cidadão gente que não tem a reputação heroica dele e fez isso. Ele perdeu a oportunosa ensancha e agora faz qualquer coisa para compensar o engano. Tendo fugido da liça, teoricamente por se sentir ameaçado, perdeu autoridade para opinar sobre assuntos que seus ex-colegas e sucessores na Suprema Corte têm convalidado em sucessivas votações por ampla maioria – uma vez, pelo menos, por unanimidade. Pelo visto, ele não parece ser o professor adequado para dar aulas sobre nossa Constituição aos gringuinhos apressados e seus miquinhos amestrados.

Como disse Temer, desculpe a delonga. E que Deus seja grande e misericordioso com nossa sorte de desvalidos.