Somos todos culpados pelo incêndio do museu, acusa historiadora
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Somos todos culpados pelo incêndio do museu, acusa historiadora

Autora de 41 livros sobre História do Brasil, Mary Del Priore pergunta: “o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que nunca pisaram num museu?”

José Nêumanne

06 Setembro 2018 | 22h44

Autora do sucesso de crítica e vendas História da Gente Brasileira entende que solução da crise brasileira passa pela melhora radical da educação. Foto: Acervo pessoal

Emocionada com o trágico incêndio que devorou a coleção insubstituível do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, domingo, no Rio, a historiadora Mary Del Priore, disparou: “a pergunta devia ser: o que fazemos com a nossa indiferença?” Em sua opinião, “ao buscar “culpados” pelo incêndio, raramente pensamos que os culpados somos nós, o povo. Qual a parede que não está pichada? Qual o busto ou placa de bronze que não foi derretido? Quantos casarões coloniais não viraram estacionamento? Quantos pais levam filhos aos museus, em vez de levá-los ao shopping? E pior, quantos se incomodam com que isso aconteça? Passamos com absoluta insensibilidade diante das perdas de nosso patrimônio. Afinal, ele é ‘público’. A preocupação com o bem público não faz parte da mentalidade da grande maioria.” E não perdoou a chamada elite na série Nêumanne entrevista: “Nossos ‘ricos’ preferem um apartamento em Miami ou uma quinta em Portugal a ajudar o País. Quanto às autoridades públicas, com raras exceções, o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?”

Mary del Priore é autora de 51 livros sobre História do Brasil, ganhadora de mais de 20 prêmios literários nacionais e internacionais, entre os quais, três Jabutis. Pós-doutorada pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris,  lecionou nos Departamentos de História da FFLCH-USP e da PUC-RJ  e atualmente ministra aulas na pós-graduação da Universidade Salgado de Oliveira. Colabora com periódicos científicos e não científicos nacionais e internacionais, anima o programa Rio de Histórias, da Rádio CBN-RJ, é consultora de cineastas como Daniela Thomas, Beto Amaral e Estevão Ciavatta, sócia do IHGB, do IHGRJ, PEN Clube do Brasil e membro da Academia Carioca de Letras, entre outras academias internacionais, como a Real Academia de Espanha.

Emocionada com o trágico incêndio que devorou a coleção insubstituível do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, domingo, no Rio, a historiadora Mary Del Priore, disparou: “A pergunta devia ser: o que fazemos com a nossa indiferença?”. Em sua opinião, “ao buscar ‘culpados’ pelo incêndio, raramente pensamos que os culpados somos nós, o povo. Qual a parede que não está pichada? Qual o busto ou placa de bronze que não foi derretido? Quantos casarões coloniais não viraram estacionamento? Quantos pais levam filhos aos museus, em vez de levá-los ao shopping? E pior, quantos se incomodam com que isso aconteça? Passamos com absoluta insensibilidade diante das perdas de nosso patrimônio. Afinal, ele é ‘público’. A preocupação com o bem público não faz parte da mentalidade da grande maioria”. E não perdoou a chamada elite, na série Nêumanne Entrevista: “Nossos ‘ricos’ preferem um apartamento em Miami ou uma quinta em Portugal a ajudar o País. Quanto às autoridades públicas, com raras exceções, o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?”.

Mary Del Priore ladeada por seus amigos Luís Fernando Veríssimo, colunista, à sua direita e, à esquerda, Zuenir Ventura, acadêmico. Foto: Acervo pessoalA seguir Nêumanne entrevista Mary Del Priore:

Nêumanne – Como frequentadora habitual do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, como pesquisadora e historiadora, qual foi seu sentimento após ter tomado conhecimento da tragédia terrível do incêndio que destruiu completamente aquela instituição pública de importância capital para a memória e a cultura brasileiras?

Mary Del Priore – Tenho um sentimento de profundo pesar, mesmo de luto, pois é uma perda que afetará as gerações futuras. Felizes os que conheceram o acervo do museu, puderam ali realizar pesquisas ou teses ou se encantaram em simplesmente percorrer os mesmos salões que percorreram a família de monarcas portugueses e, depois, os imperadores brasileiros. Lugar de memória de nossa História, o Museu Nacional não contava apenas a grande História, por ter sido palco da assinatura da independência ou espaço onde republicanos se reuniram para elaborar a Constituição de 1891, mas também da pequena história. Ali dom Pedro II tomava sua canja de galinha todas as noites, a imperatriz Leopoldina deu à luz nove filhos e faleceu em profunda solidão, dom João VI recebia seus súditos para o beija-mão ou dom Pedro I cruzava os jardins para encontrar a marquesa de Santos. Para além da belíssima coleção de história natural, que impressionava as crianças com múmias e dinossauros, foi-se uma parte da História do Império brasileiro. Para apagar novos incêndios só muita, muita educação!

N – Recentemente foi feita uma vaquinha para reabrir a sala dos dinossauros no museu da Quinta da Boa Vista. Além de ser uma vergonha inominável, o que dizer do desempenho de nossas autoridades, preocupadas apenas em dilapidar o patrimônio público e que foram incapazes de salvá-lo depois de dado esse sinal?

M – A “vaquinha” não é problema, nem vergonha. Em museus europeus, notadamente nos ingleses, é comum o frequentador participar da aquisição de nova obra ou do restauro de partes do museu, com doações. Podem ser mínimas. Abre-se uma lista e deposita-se, com maior ou menor generosidade, uma quantia que servirá ao bem comum. Em outros países, EUA, França ou Holanda, os grandes mecenas se encarregam de colaborar com as instituições de cultura. Uma política fiscal impulsiona os donativos e alimenta a promoção social. Entre nós, raro o museu que não tenha uma sociedade de amigos. Sua eficiência, porém, varia de uma instituição para outra. No Brasil, nomes como Angela Gutierrez, Milu Villela, Paula e Sílvio Frota, Carlos Lessa através do BNDES e Roberto Marinho através da fundação que leva seu nome deram exemplo de civilidade impecável, restaurando o patrimônio ou dando acesso a suas coleções ao grande público. São casos raros e raramente copiados. Nossos “ricos” preferem um apartamento em Miami ou uma quinta em Portugal a ajudar o País. Quanto às autoridades públicas, com raras exceções, o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?

Para ouvir entrevista da historiadora a Jô Soares clique aqui

N – O que a envergonha mais: ter um criminoso condenado por crimes comuns como corrupção passiva e lavagem de dinheiro protagonizando as atenções em torno da disputa pela Presidência da República e um acusado por delitos como incentivo ao estupro e racismo com possibilidades reais de chegar ao topo do poder federal, ou não ver nenhum dos candidatos à eleição de outubro manifestar uma palavra de repúdio ao completo menoscabo do valioso patrimônio público acumulado em séculos?

M – Os eleitores dos candidatos descritos acima não estão preocupados com cultura, e sim com saúde, segurança e emprego. Ambos os candidatos são uma das caras do Brasil. Ao buscar “culpados” pelo incêndio, raramente pensamos que os culpados somos nós, o povo. Qual a parede que não está pichada? Qual o busto ou placa de bronze que não foi derretido? Quantos casarões coloniais não viraram estacionamento? Quantos pais levam filhos aos museus, em vez de levá-los ao shopping? E pior, quantos se incomodam com que isso aconteça? Passamos com absoluta insensibilidade diante das perdas de nosso patrimônio. Afinal, ele é “público”. A preocupação com o bem público não faz parte da mentalidade da grande maioria. E só corrigiremos isso com educação, com professores de História apaixonados pelo que fazem, com séries de TV que não transformem nossos personagens históricos em caricaturas, com obras acessíveis ao grande público. Não adianta ter museus impecáveis com salas vazias. Para que os brasileiros tenham interesse em respeitar o patrimônio histórico é preciso fazê-los entender que seu passado é parte do presente. Que a memória é parte de sua identidade. E que jamais saberemos quem somos se não soubermos quem fomos.

N – Será enganosa a impressão que o cidadão comum e leigo em História tem de que as elites dirigentes no Império e nos anos anteriores da República tinham mais pudor e vergonha na cara do que os atuais políticos que foram definidos por Raimundo Faoro como “donos do poder”?

M – Outra época, outros perfis, mas nenhum deles hegemônico. Também no Império a elite política tinha bases econômicas muito diversas. Seus representantes saíam da Guarda Nacional, da Câmara dos vereadores ou eram indivíduos ricos de uma localidade. Muitos padres e juízes integravam os escalões políticos. O que contava eram os laços locais, regionais e as relações com o Estado.  Não por acaso, Getúlio Vargas tentou criar, com Luís Simões Lopes, uma escola nacional de Administração, nos moldes da ENA francesa, para evitar o que vemos hoje no Congresso: semianalfabetos, sem nenhuma formação que lhes permita contribuir para o bem comum. Max Weber dizia que existiam políticos que viviam para a política e os que viviam da política. Parece que só temos os do segundo grupo. Hoje, a democracia representativa está fragilizada por vários motivos. Fronteiras porosas entre as divisões sociais, surgimento de uma classe média sem interesse em política, fragmentação das divisões esquerda e direita e divisões políticas que simplesmente desaparecem nas agendas, cada vez mais iguais, permitem a ascensão de oportunistas e incompetentes. E diante da instabilidade fazemos do passado um cenário nostálgico e ideal. Não foi bem assim.

Foto publicada na orelha do livro de Mary Del Priore Matar para não morrer sobre trágico triângulo amoroso de Euclides da Cunha e Anna e Dilermando de Assis. Foto: Divulgação

N – Como profunda conhecedora da História do Brasil, a senhora é capaz de identificar em algum momento dela uma situação tão desoladora como esta em que nos encontramos agora, como resultado da crise ética, econômica, financeira e institucional, para a qual não parece haver saída possível?

M – O Brasil conheceu, regionalmente, crises terríveis que esquecemos. Para ficar em alguns exemplos, as elites políticas provocaram a Revolta Federalista, com cerca de 30 mil mortos e a degola institucionalizada; na Bahia, em 1910, a “campanha civilista” de Rui Barbosa e Hermes da Fonseca  provocou o canhoneio da cidade, com luta campal e centenas de corpos chegando às praias de Rio Vermelho e Porto da Barra; sem contar São Paulo, em 1930, com luta armada entre irmãos, bombardeio da capital e do interior e milhares de mortos. Mas hoje a situação é nova e não pode ser comparada a nenhuma anterior. O Brasil mudou, mas o mundo também. A globalização e a digitalização são fenômenos recentes cujos efeitos em nosso país ainda não podemos medir. Crises? Todas têm seu fim. Resta saber se a atual trará melhoramentos estruturais que nos permitam concretamente progredir.

N – Que lições da História do Brasil poderemos compulsar para nos indicarem os caminhos de saída e de superação desse ambiente de desespero provocado pelo desemprego, pela falta de perspectivas denotada pela total ausência de espírito público e civismo até em momentos cruciais como as eleições gerais, incluída a presidencial, marcadas para outubro?

M De fato, as instituições brasileiras, a Constituição e as organizações político-administrativas contribuíram, e muito, para provocar tal situação. Todos sabemos que o Brasil não pode mais suportar o custo de uma organização altamente ineficiente e corrupta. Reformar o sistema político é obrigatório, ou não teremos verdadeiras mudanças.

Para ouvir entrevista de Mary a Pedro Herz em Sala de Visita no Arte 1 na TV clique aqui

N – Até que ponto o descaso dos responsáveis pela gestão do Estado brasileiro pode ser responsabilizado por uma tragédia irreparável e das dimensões dessa da noite de domingo?

M – Penso que os leitores estão informados de que o Estado brasileiro está claudicante. Que os representantes, no poder graças à democracia e ao voto, têm como objetivo básico seu único e exclusivo enriquecimento. Resultado? Não há dinheiro para o bem público. Os privilégios no serviço público, que é, aliás, péssimo, são escandalosos. A administração dos recursos públicos orçamentários, desastrosa. As pressões para a manutenção de privilégios fiscais e previdenciários, criminosas. A cultura “sangra”, como disse alguém? Sim. E vai sangrar até reformas previdenciária e fiscal serem aprovada, até termos caixa para alimentar as inúmeras necessidades dos vários ministérios. Até voltarmos a crescer. E crescer valorizando a educação, que é base de tudo, para todos.

N – O que explica a indiferença de nossos homens públicos e da sociedade em geral em relação à situação lamentável em que se encontra, por exemplo, o Museu da Independência, da USP, no Ipiranga, em São Paulo, e outras instituições da importância do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, etc.? Como deter esses crimes de lesa-memória e lesa-cultura, que estão aí à vista de todos, e nada se faz para acabar com o despautério?

M – Disse bem: à vista de todos. E o que faz a sociedade? Lê jornais, assiste na TV. E… segue em frente. Temos uma sociedade com parcelas mínimas sensíveis aos crimes de lesa-memória. A começar pelos políticos, que não fazem valer a Lei de Arquivos para os municípios, ou seja, a preservação da história da política municipal, pois ali os pesquisadores do futuro só encontrarão furos. “Aonde foi o dinheiro que estava aqui? O gato comeu!” Por que a ANPUH não se manifesta em torno da valorização e divulgação de tais instituições ou se cala no debate sobre biografias? Por que as universidades não dialogam nacionalmente com a escola pública para melhorar o ensino e mudar a camisa de força do vestibular de História? E a comunidade, o que faz pela preservação de sua cena histórica, a igreja, a praça e o coreto, os sobrados? Creio que o único momento em que vozes se levantaram contra o crime de lesa-memória foi nas décadas de 30 e 40: Gilberto Freyre e José Mariano capitanearam um movimento de valorização da arquitetura colonial e imperial, contra a devastação de bairros históricos e o crescimento de muros e paliteiros em todas as capitais. E Maria do Carmo Nabuco e o casal Ana Maria e John Parsons, que salvaram Tiradentes, nos anos 60.  A pergunta devia ser: o que fazemos com a nossa indiferença? Podemos imaginar que as desigualdades sociais permitem que as classes desfavorecidas não se identifiquem com a dita “alta cultura”, cultivando sua memória de outro jeito. O que poderia significar para um morador do Morro do Alemão o Museu Nacional, casa dos imperadores brasileiros? Nada, se ele não conhecer a História do Brasil.

Rio de Janeiro, onde Mary nasceu e cenário da tragédia da Quinta da Boa Vista no domingo 2 de setembro de 2018, é tema de várias de suas pesquisas históricas. Foto: Acervo pessoal

N – Até que ponto o descaso dos responsáveis pela gestão do Estado brasileiro pode ser responsabilizado por uma tragédia irreparável e das dimensões dessa da noite de domingo?

M – Penso que os leitores estão informados de que o Estado brasileiro está claudicante. Que os representantes, no poder graças à democracia e ao voto, têm como objetivo básico seu único e exclusivo enriquecimento. Resultado? Não há dinheiro para o bem público. Os privilégios no serviço público, que é, aliás, péssimo, são escandalosos. A administração dos recursos públicos orçamentários, desastrosa. As pressões para a manutenção de privilégios fiscais e previdenciários, criminosas. A cultura “sangra”, como disse alguém? Sim. E vai sangrar até reformas previdenciária e fiscal serem aprovada, até termos caixa para alimentar as inúmeras necessidades dos vários ministérios. Até voltarmos a crescer. E crescer valorizando a educação, que é base de tudo, para todos.

N – O que explica a indiferença de nossos homens públicos e da sociedade em geral em relação à situação lamentável em que se encontra, por exemplo, o Museu da Independência, da USP, no Ipiranga, em São Paulo, e outras instituições da importância do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, etc.? Como deter esses crimes de lesa-memória e lesa-cultura, que estão aí à vista de todos, e nada se faz para acabar com o despautério?

M – Disse bem: à vista de todos. E o que faz a sociedade? Lê jornais, assiste na TV. E… segue em frente. Temos uma sociedade com parcelas mínimas sensíveis aos crimes de lesa-memória. A começar pelos políticos, que não fazem valer a Lei de Arquivos para os municípios, ou seja, a preservação da história da política municipal, pois ali os pesquisadores do futuro só encontrarão furos. “Aonde foi o dinheiro que estava aqui? O gato comeu!” Por que a ANPUH não se manifesta em torno da valorização e divulgação de tais instituições ou se cala no debate sobre biografias? Por que as universidades não dialogam nacionalmente com a escola pública para melhorar o ensino e mudar a camisa de força do vestibular de História? E a comunidade, o que faz pela preservação de sua cena histórica, a igreja, a praça e o coreto, os sobrados? Creio que o único momento em que vozes se levantaram contra o crime de lesa-memória foi nas décadas de 30 e 40: Gilberto Freyre e José Mariano capitanearam um movimento de valorização da arquitetura colonial e imperial, contra a devastação de bairros históricos e o crescimento de muros e paliteiros em todas as capitais. E Maria do Carmo Nabuco e o casal Ana Maria e John Parsons, que salvaram Tiradentes, nos anos 60.  A pergunta devia ser: o que fazemos com a nossa indiferença? Podemos imaginar que as desigualdades sociais permitem que as classes desfavorecidas não se identifiquem com a dita “alta cultura”, cultivando sua memória de outro jeito. O que poderia significar para um morador do Morro do Alemão o Museu Nacional, casa dos imperadores brasileiros? Nada, se ele não conhecer a História do Brasil.

Para ouvir entrevista de Mary a Pedro Herz em Sala de Visita no canal Arte 1 na TV clique aqui

N – Até que ponto o descaso dos responsáveis pela gestão do Estado brasileiro pode ser responsabilizado por uma tragédia irreparável e das dimensões dessa da noite de domingo?

M – Penso que os leitores estão informados de que o Estado brasileiro está claudicante. Que os representantes, no poder graças à democracia e ao voto, têm como objetivo básico seu único e exclusivo enriquecimento. Resultado? Não há dinheiro para o bem público. Os privilégios no serviço público, que é, aliás, péssimo, são escandalosos. A administração dos recursos públicos orçamentários, desastrosa. As pressões para a manutenção de privilégios fiscais e previdenciários, criminosas. A cultura “sangra”, como disse alguém? Sim. E vai sangrar até reformas previdenciária e fiscal serem aprovada, até termos caixa para alimentar as inúmeras necessidades dos vários ministérios. Até voltarmos a crescer. E crescer valorizando a educação, que é base de tudo, para todos.

 N – Como profunda conhecedora da História do Brasil, a senhora é capaz de identificar em algum momento dela uma situação tão desoladora como esta em que nos encontramos agora, como resultado da crise ética, econômica, financeira e institucional, para a qual não parece haver saída possível?

M – O Brasil conheceu, regionalmente, crises terríveis que esquecemos. Para ficar em alguns exemplos, as elites políticas provocaram a Revolta Federalista, com cerca de 30 mil mortos e a degola institucionalizada; na Bahia, em 1910, a “campanha civilista” de Rui Barbosa e Hermes da Fonseca  provocou o canhoneio da cidade, com luta campal e centenas de corpos chegando às praias de Rio Vermelho e Porto da Barra; sem contar São Paulo, em 1930, com luta armada entre irmãos, bombardeio da capital e do interior e milhares de mortos. Mas hoje a situação é nova e não pode ser comparada a nenhuma anterior. O Brasil mudou, mas o mundo também. A globalização e a digitalização são fenômenos recentes cujos efeitos em nosso país ainda não podemos medir. Crises? Todas têm seu fim. Resta saber se a atual trará melhoramentos estruturais que nos permitam concretamente progredir.

N – Que lições da História do Brasil poderemos compulsar para nos indicarem os caminhos de saída e de superação desse ambiente de desespero provocado pelo desemprego, pela falta de perspectivas denotada pela total ausência de espírito público e civismo até em momentos cruciais como as eleições gerais, incluída a presidencial, marcadas para outubro?

M – De fato, as instituições brasileiras, a Constituição e as organizações político-administrativas contribuíram, e muito, para provocar tal situação. Todos sabemos que o Brasil não pode mais suportar o custo de uma organização altamente ineficiente e corrupta. Reformar o sistema político é obrigatório, ou não teremos verdadeiras mudanças.

Rio de Janeiro, onde Mary nasceu e cenário da tragédia da Quinta da Boa Vista no domingo 2 de setembro de 2018, é tema de várias de suas pesquisas históricas. Foto: Acervo pessoal

 N – O mensalão e a Operação Lava Jato deram à Nação a esperança de que, pelo menos, a devassa da corrupção ilimitada dos últimos anos pudesse identificar, punir e prender os responsáveis por essa poucavergonha, mas a reação organizada dos partidos e políticos põe essa perspectiva sob sério risco. Ainda crê que seja possível desatarmos ou deceparmos o nó górdio desse impasse? Como sairmos dessa encalacrada se não avançarmos no combate à impunidade, iniciado no último decênio?

M – Mensalão e Lava Jato são operações que merecem todo o respeito e apoio da sociedade, como, aliás, vêm recebendo. Sou grande admiradora de Sergio Moro. Mas elas apontaram uma judicialização crescente. Economias saudáveis não podem depender da decisão de juízes, que por mais sábios que sejam são inexperientes em inúmeros aspectos do que devem julgar. A deriva jurídica fornece um álibi segundo o qual o País se regeneraria por meios judiciais, sem atacar nem resolver as causas da corrupção. E mais: da ineficiência nacional. A economia do País estaria preparada para tal judicialização? O exemplo da Itália demonstra que as dificuldades de limpar um sistema corrupto dependem muito mais da adesão popular a certas regras do que da exemplaridade das condenações.

 N – A senhora ainda tem alguma esperança de que, mesmo que leve muito tempo e exija muita paciência, o Brasil terá capacidade para se reerguer do estado atual de descalabro da administração pública e dessa mistura de indignação e indiferença da maioria silenciosa?

M – Sim. Penso que o Brasil tem 220 milhões de habitantes e é dotado de um tecido econômico capaz de fabricar de aviões a carros, de recursos naturais que vão de petróleo a commodities, e com a presença, até agora, de grandes empresas estrangeiras. O Brasil não tem problemas econômicos. Tem problemas políticos. E de políticos que não se empenham em resolver os problemas básicos de saúde, educação e segurança. De políticos que pouco fazem para resolver o problema de desigualdade pela criação de empregos, e não distribuição de bolsas. Mas com os vagabundos que elegemos como políticos as soluções não virão em curto prazo. Está na hora de assumirmos a possibilidade de votar como cidadãos conscientes. Se todos os brasileiros soubessem como a conquista do voto democrático foi difícil e sofrida, dariam mais valor ao gesto e… à História!

Mary Del Priore pergunta sem subterfúgios: “o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?”. Foto: Acervo pessoal