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Só Bolsonaro não quer ir para casa

Em sua pregação contra quarentena geral para combater a covid-19, presidente desautoriza ministro da Saúde e defende isolamento vertical, que ninguém testou nem aprova neste nosso planeta

José Nêumanne

30 de março de 2020 | 23h43

A pantamima da partida de xadrez de Bolsonaro e Mandetta inclui as máscaras quando o chefe está com o subordinado e as exclui em seus contatos com o povo. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Uma falsa dicotomia atrapalha – e muito – a desequipada, desestruturada e desgovernada máquina pública brasileira na enorme força que precisa ser feita para enfrentar a pandemia da covid-19, que ameaça transformar-se na maior praga da História da humanidade. De um lado, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, angariou grande simpatia do público e aplausos dos meios de comunicação na cobertura do único fato relevante do noticiário recente, ao defender a adoção de medidas práticas indispensáveis para evitar ao máximo possível a enorme mortandade a ser causada pela velocidade espantosa com que o coronavírus, egresso da China, se reproduz e contagia. Seu chefe, Jair Bolsonaro, apavorado com a possibilidade de perder o favoritismo na corrida eleitoral de daqui a dois anos e sete meses, usa seu poder monárquico para tentar fugir à responsabilidade do desastre econômico que terá atingido o mundo inteiro quando o microrganismo for neutralizado por alguma droga ou pela capacidade de imunização dos infectados que conseguirem sobreviver.

De posse da decisão das medidas preventivas, o deputado do DEM na chefia da pasta encarregada de realizá-las, apoia a quarentena, por ser a principal recomendação da Organização Mundial e Saúde (OMS). E pela comprovação de ser o único meio de reduzir a velocidade do contágio. O Instituto Butantan calculou que a taxa de transmissão do vírus no Estado de São Paulo caiu nos últimos dez dias de um indivíduo infectando seis outras pessoas para um contaminado transmitindo a doença para apenas duas.  Segundo o secretário de Saúde de São Paulo, José Henrique Germann Ferreira, analisando os números de novos casos registrados no Estado comparados com os do País, é possível perceber uma subida menos acentuada da curva. Segundo ele, isso quer dizer que a estratégia de isolamento social contra a covid-19 já mostra resultados positivos.

Mas Jair Messias Bolsonaro diz que é mentira. O Butantan é mais uma instituição que ele desqualifica sem nenhum fato que comprove a desqualificação. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística foram alvos dos disparos do “gabinete do ódio” chefiado pelo dito filho 02, Carlos Bolsonaro. De fato, o instituto pertence à hierarquia do governo do Estado de São Paulo, chefiada por João Doria, principal adversário do presidente em 2022. Mas seus dados foram confirmados por estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, que reúne pesquisadores da Fiocruz, da PUC do Rio e do Instituto D’or de Pesquisa e Ensino. E este chegou à mesma conclusão de que a implementação de medidas de contenção logo após a notificação dos primeiros casos de covid-19 pode levar a um impacto positivo na redução da propagação da pandemia. O estudo comparou curvas de contaminação de diversos países e identificou que na Coreia do Sul, onde as medidas foram aplicadas logo após as primeiras confirmações de contágio, a curva foi achatada. O exemplo oposto é o da Itália, cujas tentativas de conter a velocidade do contágio do coronavírus, sob pressão política, foram inicialmente substituídas por mensagens de pretenso combate ao preconceito, como “abrace um chinês”, da lavra do prefeito de Florença, o esquerdista Dario Nardella. Ou contendo falsas informações de que o novo coronavírus não seria contagioso, com apoio do governador do Lácio, Nicola Zingaretti. A campanha intitulada Milão não fecha foi apoiada pelo prefeito da cidade lombarda, Giuseppe Sala, que, depois dos resultados desastrosos, admitiu que “pode ter errado”. A versão tupiniquim – O Brasil não pode parar – sumiu e ninguém sabe, ninguém fez e ninguém viu.

O chefe do Executivo brasileiro embarcou nessa canoa furada, desperdiçando a oportunidade rara de aprender com a prévia experiência estrangeira. Com base em mensagens antigas na internet, inspirou-se no seu grande ídolo internacional, o presidente dos EUA, Donald Trump. Deste Bolsonaro imitou a comparação da pandemia com uma “gripezinha”. Só que o dito conhecimento de inglês do filho 03, Eduardo, levou o clã e seus fanáticos seguidores a não acompanharem nas redes sociais a evolução da opinião do chefe do governo americano. Em poucos dias Trump abandonou a postura antiquarentena, em defesa da manutenção do emprego, e tornou-se fervoroso adepto do isolamento social. Disso decorreu o erro cometido pelo gueto bolsonarista na internet ao tentar desacreditar registro que fiz no canal de YouTube de que Trump informou que recorreria ao isolamento total com tal entusiasmo que seu adversário, o democrata de esquerda Andrew Cuomo, prefeito de Nova York, o chamou de antiamericano. A ironia da história é que, atrasado, nosso presidente monoglota aderiu ao inimigo do amigo por receber informações distorcidas do filho que pretendia nomear nosso embaixador em Washington.

Desse erro resultou a decisão desastrosa do pai dos néscios de desafiar o próprio ministro da área, Mandetta, indo passear nas ruas de Brasília no domingo 29 de março. E como havia feito antes, na manifestação a favor de seu governo e contra seus adversários no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Congresso Nacional, teve contato físico com desconhecidos, a pretexto de “ouvir o povo”. Tal atitude instaurou uma situação anômala na História da República, em que o chefe do governo passou a opor-se à política oficial, que, em teoria, nunca havia abandonado. Numa desesperada tentativa de evitar que se lhe atribuísse a recessão, que produzirá inevitavelmente um aumento exponencial do desemprego, ele se agarrou ao lema que seu ídolo ianque havia jogado no lixo, em nome de premissas falsas adotadas de forma cínica e oportunista. Ele, que nunca manifestara nenhuma empatia pelos mais de 11 milhões de desocupados na economia, tornou-se de repente o defensor da teoria esdrúxula e nada cristã de que manter o emprego é mais importante do que se manter vivo.

Os fatos, contudo, não corroboram a tentativa desesperada de se isolar no mundo e no próprio Ministério. Na semana passada, na base do improviso, como de hábito, abriu uma entrevista coletiva dada pelos presidentes do Banco Central, Roberto Campos Neto, do BNDES, Gustavo Montezano, e da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, para anunciar a esmola de R$ 40 bilhões para informais, desempregados e trabalhadores de baixa renda. Como 64% das medidas anunciadas anteriormente, estas também ainda não saíram do papel. No caso, nem sequer a equipe econômica as formulou. Um vexame!

Segundo o Observatório de Política Fiscal, ligado ao Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, o pacote em que o PR quer embasar sua tentativa de atuar como pai dos pobres aponta gastos equivalentes a pouco mais de 2% do produto interno bruto (PIB), troco de padaria, esmola de porta de igreja. E a Casa dos Representantes (Câmara dos Deputados americana) aprovou na sexta-feira 27 um pacote de ajuda de US$ 2,2 trilhões, 5,3% do PIB do país – o maior de sua História – para ajudar indivíduos e empresas a lidarem com a crise econômica provocada pela pandemia e fornecer aos hospitais com necessidade urgente de suprimentos médicos. Mais humilhante ainda para o Brasil é a previsão de que essa ajuda chegará a 11,7%, quase seis vezes mais que a nossa.

Na Europa a comparação com o Brasil é mais humilhante. No Reino Unido, o total de medidas chega a 17% do PIB. Na Espanha, país muito atingido pelo vírus, o programa já anunciado pelo governo soma os mesmos 17% do PIB, média europeia. O instituto da FGV acrescentou que Alemanha e França “vão em caminhos muito similares”, com suportes equivalentes a 12% e 13,1% do PIB, respectivamente.

Ocioso informar que, com a adesão de quem antes se opunha ao isolamento social total, caso do britânico Boris Johnson e do mexicano López Obrador, Bolsonaro ficou sozinho na defesa do indefensável, nunca testado em lugar nenhum: o isolamento exclusivo para idosos e vulneráveis. Nem neste Brasil dos dois governos que se opõem, o da tentativa de salvar vidas e o da narrativa de salvar empregos, o presidente da República tem plateia para aplaudir suas pérolas retóricas, como “terão mortes, paciência”, ou “todos morremos, pô”. O presidente do STF, Dias Toffoli, seu amigão do peito, e o interino do Senado, Antônio Anastasia, manifestaram-se contra sua guerra a Mandetta. E seu “posto Ipiranga” particular, o ministro de Economia, Paulo Guedes, cunhou uma sentença para competir com as dele: “Eu, como economista, preferia a retomada. Eu, como cidadão, quero ficar em casa”. Pelo visto, no mundo ou no Brasil só Bolsonaro não quer. Vai lá saber por quê!

*Jornalista, poeta

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