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Segunda sem tédio

Moe Cardozo, Larry Dino e Curly Maranhão, três patetas atuais, tentaram dar o golpe da anulação. Mas não deu.

José Nêumanne

10 de maio de 2016 | 17h20

Dilma, avisada do ato de Maranhão

Dilma, avisada do ato de Maranhão

Segunda-feira 9 de maio de 2016

Se há algo a comemorar nesta segunda-feira 9 foi que nela nenhum brasileiro morreu de tédio. Pois não faltaram emoções a viver ou até parar morrer, pois muitas eram capazes de promover infartos e AVCs.

Desde cedo. Pois logo pela manhã o Brasil ficou sabendo que o presidente interino da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão (PP-MA), decidiu aceitar um pedido do advogado-geral da União, José Eduardo Martins Cardozo, para anular a votação no plenário da Câmara da admissibilidade de abertura do processo de impeachment da presidente da República pelo Senado Federal.

Não houve quem não se surpreendesse no Brasil. A não ser os artífices da lambança. O primeiro deles é a beneficiária, Dilma Rousseff. Depois, seu autor, mandante e operador, o citado Zé Cardozo, que, na prática, é “adevogado” genial da madama chefona. Além deles , ainda há o próprio chefe da Câmara Baixa em exercício desde que o Supremo Tribunal Federal afastou do exercício do comando da Mesa e do mandato de deputado o titular, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). E não nos esqueçamos do sempre presente espírito de santo de orelha do executante, Flávio Dino, governador do Maranhão, o Estado natal de Waldir, e, ao que parece, também o mais recente sequestrador do cérebro do executante.

A surpresa trouxe, de saída, pelo menos duas constatações básicas, que pareciam passar desapercebidas no Brasil, mas agora emergiram. A primeira delas é que a colega Eliane Cantanhêde, colunista do Estadão, deu realmente um furaço na semana passada ao trazer a lume uma articulação dos ministros Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski, este presidente do STF, para usarem um pedido da Rede, de Marina Silva, para interromper o processo de impeachment dentro do processo de afastamento de Cunha. Abortado o golpe judiciário com a intervenção rápida e rasteira de Teori Zavascki, relator de tudo quanto é relativo ao julgamento na última instância das investigações da Operação Lava Jato, imediatamente os principais articuladores do golpe partiram pra cima de Maranhão, pau-mandado de Cunha, mas aliado há mais tempo de Dino. A segunda é de que este comunista é devoto da democracia e pode ser um quadro talentoso e decente de nossa política tão malvista e carente de bons profissionais do ramo. No caso, ele provou não passar de um amador de quinta.

Inspirado por garrafas de excelente vinho num jantar com seu colega  Sílvio Costa e o causídico Zé Cardozo, Maranhão faltou a um encontro que tinha marcado com Michel Temer. E, a bordo de um jato da Força Aérea Brasileira (FAB), ouviu, voltando de São Luís para Brasília, um apaixonado ataque à legalidade do processo na Câmara feito pelo governador, que lhe prometeu a secretaria de Ciência e Tecnologia de seu Estado natal e uma vaga para disputar o Senado em 2018 em troca de seu valioso e tresloucado gesto. A lambança era evidente: como um presidente, ainda por cima interino, podia tirar da gaveta um pedido extemporâneo para anular uma votação com comparecimento maciço (apenas duas ausências) e diferença no resultado final de 367 votos (dois terços mais 25), recordista em disputas na Casa? Não importa. Não faltaram juristas que defenderam a possibilidade de ele ter o direito de fazê-lo, conforme informações confiáveis, com base em documento do próprio punho do advogado particular da “presidenta”.

Depois da comemoração em palácio, o assunto morreu na decisão do presidente do Senado. Renan Calheiros (PMDB-AL) não conheceu o recebimento do ofício. Em seguida, Calheiros travou uma briga folclórica contra a bancada do chororô no plenário da Câmara Alta e marcou a votação da abertura do processo para quarta-feira 12, como tinha sido previsto.

Ex-reitor da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e eleito para a primeira vice-presidência da Câmara com 83,3% dos votos de seus pares, Waldir Maranhão foi tratado como um palhaço sem picadeiro. O ministro do Supremo Gilmar Mendes chamou a lambança toda de Operação Tabajara. O presidente Calheiros disse que ele estava brincando de democracia. E embora tenha defendido num pronunciamento de três minutos a obra de Cardozão, que ele assinou, como sendo de obediente à ordem constitucional vigente, Maranhão, à noite, numa nota lacônica e sem motivos, recuou da decisão e deixou tudo como dantes na Câmara de Abrantes. Esteja sendo injustiçado ou não, Maranhão não é ilegítimo no posto e tem currículo à altura dele, embora seja incomum na política quem se orgulhe de diplomas não conquistados e ocupe cargos para os quais nunca foi qualificado.

Certo é que muita gente perdeu dinheiro com sua irresponsabilidade. E, tendo Dilma e seus asseclas sido derrotados e, certamente, também obrigados a partir para outro coup de main, que pode estar por vir, com a ajuda de Massaranduba, tudo indica que o único beneficiário terminou sendo o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, conduzido coercitivamente pela Polícia Federal (PF) nesta segunda sem tédio para esclarecer eventuais delitos na gestão fazendária e que teve menos destaque no noticiário só por causa do imbróglio que mais uma vez Brasília importou dos Lençóis Maranhenses.