Se contas públicas continuarem deficitárias, Brasil cairá num buraco negro, diz escritor
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Se contas públicas continuarem deficitárias, Brasil cairá num buraco negro, diz escritor

Para Fred Navarro, antipetismo e facada elegeram Bolsonaro, e no futuro ideologia será tão útil quanto telégrafo e gravata borboleta

José Nêumanne

16 de maio de 2019 | 20h41

Fred autografa seu Dicionário do Nordeste, cuja última edição (da Cepe) em 2013, com 716 páginas, conta com mais de 10 mil verbetes. Foto: Acervo pessoal

“No Brasil, o fundo do poço é só uma etapa rumo ao verdadeiro buraco negro que nos espera se não tomarmos juízo e pusermos as contas públicas no azul”, previu o dicionarista pernambucano Fred Navarro, protagonista nesta semana da série Nêumanne Entrevista no blog. Na sua opinião, duas forças elegeram Bolsonaro presidente: “Em primeiro lugar, disparado, o antipetismo, uma força poderosa ainda não dimensionada corretamente à esquerda ou à direita, nem estudada pelos futuros ou atuais doutores da USP, PUC, Unicamp, UFRJ ou UnB. E em segundo, a facada, um marco divisor no processo eleitoral”. Ele também não vê muito futuro no Fla-Flu permanente das ideologias na política nacional. “A ideologia, no futuro, será tão útil quanto o telégrafo e a gravata borboleta. Os governos dos países nórdicos já caminham nessa direção, a social-democracia (centrista) europeia também, as cabeças lúcidas no Canadá, na Austrália e no Japão, também. Obviamente, a estrada é longa para latino-americanos, africanos e boa parte dos países asiáticos, que ainda elegem ou legitimam, ou por bem ou sob pressão, títeres de interesses escusos, bandidos disfarçados de políticos, ladrões de cofres públicos, traficantes dos sonhos e do futuro de seus povos, enfim”.

Fred em seu tempo de militância em Pernambuco em folheto da campanha na qual apoiou Miguel Arraes e Artur Lima. Foto: Reprodução de folheto

A pedido do entrevistador, ele redigiu um texto para apresentá-lo ao leitor do Blog. Ei-lo:

62 anos em 25 linhas

Fred Navarro

Do pacato Recife, em meados dos anos 1950, onde nasci em 1957 no bairro de Campo Grande, até o Itaim-Bibi, onde moro na megalópole paulistana, são 62  anos de idas e vindas, acertos e erros, venturas e desventuras, como costuma acontecer com todos. Política, jornalismo, linguagem e cultura popular, teatro, histórias em quadrinhos, literatura e cinema. Desde a adolescência, nos tempos do velho ginásio, o que me interessou nessas áreas foi a possibilidade do debate permanente, a violação das fronteiras até então permitidas, a busca incessante por novos horizontes.

Aos 22 anos, no final dos cinzentos anos 1970, iniciei a carreira de jornalista como correspondente do jornal Movimento, publicado sob censura severa, mas um dos únicos porta-vozes da imprensa independente ou sem compromissos com o regime militar. A luta pela anistia trouxe de volta a Pernambuco, no começo dos anos 1980, Miguel Arraes, Francisco Julião e Gregório Bezerra, entre outros, e fui designado pelo jornal para entrevistá-los.

Depois, em São Paulo, no final dos anos 1980, trabalhei dois anos na revista IstoÉ, como revisor e redator, e fui colaborador permanente do jornal Voz da Unidade, porta-voz então do clandestino Partido Comunista Brasileiro. Abandonei as redações no início da década de 1990 para me tornar sócio e diretor de duas assessorias de imprensa.

Ao longo dos últimos 20 anos, paralelamente às atividades como jornalista e empresário, publiquei os livros Assim Falava Lampião – 2.500 Palavras e Expressões (1998) e Dicionário do Nordeste (2004). A última edição do segundo (Cepe Editora, 2013, 716 páginas), lançada em 2013, conta com mais de 10 mil verbetes. Em São Paulo, nos anos 1990, foram publicadas as HQs Deixem Diana em Paz e Espelho do Tempo, baseadas em roteiros originais de minha autoria, com desenhos em bico de pena do desenhista e escultor pernambucano Cavani Rosas. Deixem Diana em Paz, em 2013, foi adaptada para o cinema, em animação dirigida pelo jornalista Júlio Cavani, filho do artista.

Sou colaborador da revista Continente, do Recife, e da Revista Bula, de âmbito nacional, além de escrever eventuais artigos para em blogs e sítios da internet dedicados à política e à cultura.

Para Fred, “a liberdade e a democracia são conquistas de uma luta danada, cotidiana, dependem do trabalho incansável, são frutos de uma batalha sem fim.” Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Fred Navarro

Nêumanne – Qual foi o aprendizado que o senhor trouxe para sua vida, hoje, dos anos de resistência ao regime militar como correspondente do jornal alternativo Movimento no Recife, em sua juventude?

Fred – A principal lição foi de que a liberdade e a democracia são conquistas de uma luta danada, cotidiana, dependem do trabalho incansável, são frutos de uma batalha sem fim. A prova está à vista de todos, nos tempos atuais, no Brasil e em diversos países, em que uma aparente normalidade democrática esconde o ovo da serpente do autoritarismo. Os governos petistas também flertaram com a ideia (controle “social” da mídia, conselhos populares e outras sandices). Regime militar, petismo ou bolsonarismo, todos anseiam pela unanimidade do fascismo, mesmo que disfarçado de “erdoganismo”, “bolivarianismo” ou qualquer outro “ismo” disponível. Para evitá-los, só o exercício permanente da crítica, do debate e do confronto das ideias. Em resumo, nas palavras sábias do pernambucano de nascimento e carioca de coração, o grande Nelson Rodrigues, “a liberdade é mais importante do que o pão.”

Fred, na fundação do PT, hoje cita Cazuza: “Meus heróis morreram de overdose/ eh, meus inimigos estão no poder./ Ideologia,/ eu quero uma pra viver”. Foto: Acervo pessoal

N – Que papel teve a imprensa alternativa – O PasquimOpiniãoVersusMovimentoAberturaBrasil, MulherLampião e outros – no enfrentamento da censura e na construção da redemocratização?

F – Mesmo sofrendo uma censura rígida, com edições confiscadas na gráfica e jornalistas e colaboradores presos, nos anos 1970 a imprensa alternativa era a única forma efetiva de furar o bloqueio decretado sobre os meios de comunicação. Ela também abrigou os debates e forjou as ideias e os projetos que depois ganhariam evidência na redemocratização, em 1982, e no processo constituinte, em 1988. O amadorismo, em muitos casos, era compensado pela garra, pela defesa dos ideais sinceros e pelo anseio de o País recuperar as liberdades democráticas. O Pasquim e o jornal Opinião tiveram mais importância para o fim da ditadura do que 90% dos grupelhos de esquerda.

 

Dicionário do Nordeste é um clássico da pesquisa lexicográfica da fala nordestina e foi um livro elaborado com paciência de chinês natural de Recife. Foto: Divulgação

N – Como conseguiu se desintoxicar do PT e da esquerda em geral, depois que a luta comum contra a ditadura deixou de ter sentido e a Realpolitik fez vir à tona as vilezas dos que eram vistos à época da ditadura como heróis e mártires da democracia?

F – Por meio da leitura dos romances de Arthur Koestler (O Zero e o Infinito e outros), dos filmes de Costa-Gavras (A Confissão e outros), das autocríticas feitas por Jorge Semprún e Fernando Claudín (ex-dirigentes do Partido Comunista Espanhol), por um lado. De outro, a prática que presenciei no interior dos partidos que se diziam “diferentes”, puros, incorruptíveis, progressistas (e outros adjetivos que a vida provou serem exercícios de retórica, esvaziados de sentido), mas que só esperavam uma chance histórica para fazerem igual e, em muitos casos, pior (o ataque à Petrobrás, a insanidade cometida em Belo Monte e o “patrocínio” da Odebrecht são parcos exemplos). O magnífico livro Autobiografia de Federico Sánchez, de Jorge Semprún (a propósito, um dos autores do roteiro do citado filme A Confissão), até hoje é um clássico inquestionável na denúncia dos crimes e genocídios cometidos pelo stalinismo em nome do “socialismo real” e da “felicidade do povo”. Deveria ser adotado nas nossas faculdades de letras e filosofia.

À época do lançamento da primeira edição do Dicionário do Nordeste, Fred foi entrevistado por Jô Soares no programa Onze e Meia, do SBT. Foto: Acervo pessoal

N – Como o senhor vê, a partir da experiência posterior, a grande desilusão da tal da Nova República com a espetacularização da morte de Tancredo Neves e sua substituição por um velho vassalo da ditadura, José Sarney, cujo legado foi documentado por Glauber Rocha no filme Maranhão 66, que se torna cada vez mais atual a cada ano que passa, e depois de cada nova frustração em relação aos ídolos de antanho?

F – Parodiando François de La Rochefoucauld, suspeito que José Sarney tenha sido o preço que o vício cobrou da virtude para que a ditadura não se estendesse por mais um ano ou dois. Era um retrocesso evidente demais para que não fosse percebido como um golpe branco no processo de redemocratização do País. Pagamos até hoje pelo sarneyzismo, pela transferência de renda do Estado para grupos econômicos afilhados através da máquina azeitada dos partidos políticos, uma atualização do mecanismo brilhantemente descrito por Raimundo Faoro no seu clássico Os Donos do Poder, de 1958. Quanto aos ídolos de antanho, talvez seja melhor citar o saudoso Cazuza: “Meus heróis morreram de overdose/ eh, meus inimigos estão no poder./ Ideologia,/ eu quero uma pra viver”.

Para ver entrevista de Fred em 2014, no Todo Seu, programa de Ronnie Von, na TV Gazeta, clique aqui

N – O senhor chorou pela morte dos seus sonhos ao descobrir que Millôr Fernandes estava certo quando previu, sem querer querendo, como diria o Chaves, que não é o Hugo, que a luta da esquerda não era “ideologia, mas investimento” – e, mais do que isso, furto mesmo, com a tragédia da passagem do PT e seus aliados de todos os matizes políticos pela posse do chumbo do Diário Oficial e da chave dos cofres do Tesouro Nacional, da Casa da Moeda e das estatais?

F – Não chorei nem me descabelei, prezado, eu já tinha passado da idade da razão para me surpreender ou decepcionar com as contradições inerentes aos processos históricos. O escritor James Joyce acertou no alvo ao escrever: “A História é um pesadelo do qual tentamos acordar”. A roubalheira oficial no Brasil começou em 1529 com a instalação do primeiro governo-geral, sob a responsabilidade de Tomé de Sousa, que em Portugal era político e também militar, é oportuno lembrar. À exceção de algumas dezenas de casos justificáveis (como o da família do ex-deputado Rubens Paiva, por exemplo, torturado e assassinado pelos esbirros militares em 1971), as indenizações pagas aos que lutaram por seu ideais, e hoje gozam (ou gozaram nas últimas décadas) de saúde e capacidade de trabalho, é um escárnio. Enquanto a sociedade, por intermédio dos Poderes Legislativo e Judiciário, não vedar os canos furados que permitem que o dinheiro público vaze dos palácios em direção aos corruptos, aproveitadores e “máfias” organizadas em torno de seus interesses corporativos e mesquinhos, o Brasil, como tantos países infelizes no mundo, continuará sem ter como investir em infraestrutura, educação, transportes, e bote etc. nisso. Ou seja, não terá como investir no futuro.

Para descrever sua decepção com as gestões do PT (na foto, está com Lula em 1980), Fred cita James Joyce: “A História é um pesadelo do qual tentamos acordar”. Foto: Acervo pessoal

N – O que, a seu ver, elegeu Jair Bolsonaro, que não tinha partido, tempo de TV, não participou de debates, apanhou feito mala velha dos meios de comunicação e, ainda assim, terminou ganhando de tudo e de todos na eleição de outubro de 2018?

F– Em primeiro lugar, disparado, o antipetismo, uma força poderosa ainda não dimensionada corretamente à esquerda ou à direita, nem estudada pelos futuros ou atuais doutores da USP, PUC, Unicamp, UFRJ ou UnB. E em segundo, a facada, um marco divisor no processo eleitoral. O atentado criou a falsa imagem de um “herói” castigado severamente pelo “sistema”, que não o queria “de jeito nenhum” na Presidência. Ouvi essa versão, com variações de sotaque, em São Paulo, Santa Catarina e Pernambuco, entre representantes de classes sociais distintas. Infelizmente, Marina Silva e Geraldo Alckmin estavam carimbados demais como representantes da “velha política”. Bolsonaro, useiro e vezeiro dessa mesma velharia política, membro legítimo há 27 anos do “fundão” do Congresso Nacional, onde são feitos os negócios disfarçados de política, foi esperto e levantou mais alto a bandeira do antipetismo. A facada levou-o direto da cama do hospital Albert Einstein, em São Paulo, à cadeira presidencial do Palácio do Planalto, em Brasília. Debater com Fernando Haddad no segundo turno seria ingenuidade. O ex-capitão tem centenas de defeitos, mas não esse.

Em lançamento no Recife com Lectícia e José Paulo Cavalcanti, jurista pernambucano que fez parte do grupo de notáveis que preparou projeto da Constituição a convite de Tancredo . Foto: Acervo pessoal

N – Como o senhor reage à produção quase a cada minuto de um novo Festival de Besteira que Assola o País (Febeapá), de Sérgio Porto, o impagável Stanislaw Ponte Preta, em plena era bolsonarista? Será que nesta era haveria interesse, tempo e espaço para as antigas “certinhas do Lalau”?

F – As redes sociais, ao contrário do que afirma o que já se tornou um clichê, não deram voz aos imbecis. Elas apenas amplificaram o coro dos descontentes, deram asas às serpentes que não têm o que fazer, ares de Sansão a quem pesa 52 kg e autoridade de Ph.D. a quem sabe das coisas pela revista Superinteressante. Os idiotas são numerosos e imbatíveis. O futuro será deles, com ou sem bots, com ou sem manipulação de posts e tuítes, com ou sem fake news. São os bárbaros modernos. Vencerão pela insistência e pelo cansaço dos opositores. E as “certinhas do Lalau”? Com aqueles biquínis do tempo da vovó? Com aqueles bustiês de dois palmos de comprimento? Aqueles vestidos tomara-que-caia que estavam longe de cair? Talvez hoje estivessem na internet, num site especializado em modelos vintage e old fashion. Continuariam a fazer sucesso, desconfio.

Capa de Assim Falava Lampião – 2.500 Palavras e Expressões, obra de 1998, em que Fred estreou como pesquisador da fala autêntica do homem nordestino. Foto:Reprodução

N – O senhor ainda não imaginou que, depois de seu magistral Dicionário do Nordeste, poderia, quem sabe, enfrentar a tarefa ciclópica de dicionarizar para registrar e denunciar o abastardamento da língua portuguesa, que sobrevive a duras penas aos castigos que lhe têm sido impostos por Lula e Dilma, além de seus asseclas, e agora Bolsonaro, os três filhos do capitão e a malta indignada e analfabeta das milícias virtuais?

F – Vindo de um nordestino, paraibano e uiraunense, o elogio ao Dicionário do Nordeste é uma honra. O livro contém 10 mil palavras e expressões nativas da região, ou faladas intensivamente nela, com citações mostrando o uso cotidiano. É o resultado de um trabalho solitário e extenuante, mas compensador, que durou quase uma década, prezado Nêumanne. Quanto à sugestão de coletar, analisar e selecionar os registros de avacalhamento da língua portuguesa praticada no Brasil nas últimas décadas, penso que seria uma espécie de 13.º trabalho imposto tardiamente ao pobre Hércules. Nem ele, com a sua força mitológica, seria capaz de rastrear o número de bobagens tuitadas e pronunciadas recentemente por aqueles que, teoricamente, deveriam cuidar da língua culta e também da lógica elementar.

Histórias em quadrinhos Deixem Diana em Paz e Espelho do Tempo foram baseadas em roteiros de Fred, com desenhos em bico de pena do desenhista e escultor pernambucano Cavani Rosas. Reprodução

N– O fenômeno Bolsonaro teria chance de existir se não houvesse antes dele a tragédia Lula-Dilma-Temer, ou é, como julgam alguns analistas, uma mera paródia da direita tosca e populista de Trump, Erdogan, Putin, Duterte, Morawiecki (que piada pronta, hein?), Orbán et caterva? O senhor acredita que aquela era já está extinta e sepultada, ou ela periga voltar caso a direita frenética não consiga entregar pelo menos uma parte do que prometeu nos palanques e nos tuítes da vida?

F – A esquerda castrista/bolivariana, assim como a direita fascistoide no poder na Hungria e na Turquia, por exemplo, estão condenadas a ser atropeladas pela famosa roda da História que adoram mencionar. O problema da esquerda é que ela, quando lê Marx & Engels, algo cada vez mais raro, pensa que está lendo Rousseau & Paulo Coelho. Foge das lições de realidade dadas pela dupla comunista e vislumbra um mundo quase idílico, com todos se dando as mãos, a fraternidade no ar e as geladeiras repletas. O problema é que, ao chegarem ao poder, essas ideias geraram gulags, khmers vermelhos, fome e submissão. Os problemas da direita são fáceis de resumir: a estupidez crônica, a intolerância permanente e a arrogância ancorada na força, que se combinam para evitar o debate e menosprezar os mecanismos democráticos. O futuro, baseado em algoritmos e na inteligência artificial, vai pulverizar essas formas anacrônicas (leia-se corrompidas) de se relacionar com o dinheiro público e os anseios nacionais. A ideologia, no futuro, será tão útil quanto o telégrafo e a gravata borboleta. Os governos dos países nórdicos já caminham nessa direção, a social-democracia (centrista) europeia também, as cabeças lúcidas no Canadá, na Austrália e no Japão, também. Obviamente, a estrada é longa para latino-americanos, africanos e boa parte dos países asiáticos, que ainda elegem ou legitimam, ou por bem ou sob pressão, títeres de interesses escusos, bandidos disfarçados de políticos, ladrões de cofres públicos, traficantes dos sonhos e do futuro de seus povos, enfim.

“Idiotas são numerosos e imbatíveis. O futuro será deles, com ou sem fake news. São bárbaros modernos”, diz Fred. Foto: Acervo pessoal

N – Paulo Guedes, o posto Ipiranga do Bolsonaro, disse: “A realidade é que estamos no fundo do poço”. Olhando o panorama de cima da ponte, o senhor quando anda pelas ruas de São Paulo e vê tantos desempregados dormindo nas calçadas, acredita que só a reforma da Previdência conseguirá içar-nos do fundo do poço?

F – No Brasil, o fundo do poço é só uma etapa rumo ao verdadeiro buraco negro que nos espera se não tomarmos juízo e pusermos as contas públicas no azul. Não há como dividir renda, uma necessidade histórica num país com tantas desigualdades e injustiças, sem crescimento econômico. Temos até hoje funcionado na base da tal conta do pipoqueiro: milho foi tanto, manteiga tanto, sal tanto, carrocinha tanto, luz tanto, faz a soma, divide pelo número de saquinhos e pronto, bota o preço na tabuleta, pendura na carrocinha e sai vendendo. Não funciona, ele não previu o gasto com roupas, meias e sapatos, o desgaste da carrocinha, a manutenção dos pneus, a inflação da semana, a chuva que impediu a saída para vender, a aposentadoria na velhice, nada disso entrou no preço da pipoca. Ele está condenado a ser pipoqueiro até morrer. Mal comparando, é o caso do Brasil. Obviamente, a Previdência é um dos problemas estruturais do País, mas está a léguas tiranas de ser o único. Para encerrar, caro José Nêumanne, recorro novamente a Nelson Rodrigues: “Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos.”

Fred (em lançamento em São Paulo, onde mora) ataca censura de direita ou de esquerda com frase do pernambucano Nelson Rodrigues: ““a liberdade é mais importante do que o pão.” Foto: Acervo pessoal

 

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