Quem tem pena do ‘padim’ Lula?
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Quem tem pena do ‘padim’ Lula?

Antes queriam nos meter medo com convulsões sociais no País se condenassem e prendessem Lula e agora pretendem soltá-lo insinuando que depressão pode produzir tragédia, e só trouxa acredita

José Nêumanne

10 de dezembro de 2018 | 18h25

Professor Diogo Cavalheiro posa com cerveja Lula libre, rótulo à venda em campanha para libertar petista preso. Foto: Marcelo Sayão/Efe

Há um ano dizia-se que quem ousasse condenar Lula seria responsabilizado pelas convulsões sociais que uma sentença que caísse sobre a cabeça do padim causaria, pois o povo unido, que jamais será vencido, sairia às ruas com tochas na mão e atearia fogo em pneus, automóveis e incautos que neles circulassem. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello comprou esse bilhete falso de loteria e bateu com a cara na parede. Como se sabe, o ai-jesus da esquerda brasileira foi investigado, processado e condenado na 13.ª Vara Criminal de Curitiba a nove anos e meio de cadeia. A defesa, é claro, recorreu à segunda instância e a 8.ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, manteve a condenação e aumentou a pena para 12 anos e um mês. E absolutamente nada de anormal aconteceu. As obedientes ovelhas do rebanho de mortadelas se reuniram às portas da Superintendência da Polícia Federal na capital do Estado de Paraná, mas a guerra tem sido adiada dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Se Sua Excelência o ministro falastrão ganhasse a vida como profeta, coitadinho, estaria mendigando na Esplanada dos Ministérios. E poderiam estar em sua companhia muitos outros pregadores do caos, aqueles que seriam chamados de pescadores de águas turvas nos tempos do regime militar.

Entre estes há gente de boa-fé, que acredita que o profeta de Caetés é, como dizem ele e seus asseclas, um perseguido pela elite dirigente que manda e desmanda nas repartições policiais, nos vários departamentos do Ministério Público e nas varas da Justiça. Os pobres, especialmente os dos grotões dos quais falava Tancredo Neves nos idos do Pacote de Abril, no qual os generais de plantão no palácio inventaram os senadores biônicos, e que àquela época, davam loas ao milagre econômico do professor Delfim, hoje professam a devoção ao prato de comida de cada dia que lhes dá a Bolsa Família. São os 40 e poucos milhões que votaram no corrupto e lavador de dinheiro condenado e preso quando atendeu pelo nome de Fernando Haddad. É a velha distribuição de óculos de quaisquer graus e dentaduras de quaisquer calibres trocadas por votos que têm mais valia, muito mais, do que isso, mas não sabem. Essa massa nunca foi de esquerda e de Lula guarda boas recordações do tempo de seu governo, o que os ianques chamam de recall, votando nele como já sufragaram as marionetes que tentavam, em vão, dar alguma legitimidade ao autoritarismo vigente antanho, mesmo sendo definidos de forma muito pouco elegante pelo marechal Castelo Branco como “vivandeiras de bivaques”.

Enquanto havia a ilusão de que o eleitorado carente superaria em volume as classes médias revoltadas com a roubalheira que o presidiário mais célebre do Brasil comandou do palácio, esvaziando todos os cofres disponíveis da chamada viúva, este recebia visitas frequentes e inúteis. Todos iam beijar sua mão na “cela de estado-maior” reservada pelo juiz federal Sergio Moro, que, ainda assim, Lula faz questão de execrar, na esperança de que na cadeia encontrassem o caminho para uma cadeira no Congresso ou, quem sabe, uma posse de governador estadual. Não foram poucos os que obtiveram essa mercê. Sob as bênçãos do Conselheiro do ABC, estão nos palácios governamentais de Piauí, Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte. Com sua luxuosa ajuda se fizeram também os de Paraíba, Pernambuco e Alagoas, valiosos vassalos no tempo de glória e aliados de oportunidade nesta hora de aperto. O PT elegeu a maior bancada da Câmara, 59 deputados, sete a mais do que os 52 que concorreram pela legenda do PSL, que elegeu o capitão reformado e deputado do baixíssimo clero que o derrotou no pleito presidencial.

A gratidão mobiliza menos do que a necessidade e diz quem ainda visita o faraó, nestes tempos das vacas magras dos sonhos de José do Egito que Sua ex-Excelência amarga em temporada de solidão, na fria capital dos pinhais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou registro à candidatura, que teve de adotar o nome do boneco no lugar do posto reservado ao ventríloquo. Um solitário voto – do relator da Lava Jato, Edson Fachin – evitou o massacre por unanimidade que poderia ter reduzido sua empáfia a zero, número de votos contra três no TRF-4 e contra cinco na turma que julgou seus recursos no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Nem a fidelidade dos cinco morcegões do STF que mantêm a adesão à profecia negada pela realidade – Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello – serviu-lhe de conforto.

Em troca da antes desprezada prisão domiciliar, por cuja defesa o ex-presidente do STF Sepúlveda Pertence perdeu a hegemonia na equipe de defensores, agora o valentão de botequim que ameaçava os adversários com o fogo de seu ódio virou esmoler do próprio direito de ir e vir. Sem visitante com quem trocar um dedo de prosa nem serviçais que gritam as horas do lado de fora do prédio em troca de um sanduíche de mortadela e um refrigerante, ele tenta lubrificar com as próprias lágrimas a gazua retórica que acredita que poderá libertá-lo da porta sem grades da repartição pública que o abriga. Glesi Hoffmann e Fernando Haddad, dois inimigos mortais na luta pela carniça do PT, viraram agora os pregadores do trololó do chororô do chefão humilhado pelo prolongamento da pena a cumprir. Não há mais por que temer a encarnação do João Ferrador, o metalúrgico enfezado que ameaçava os patrões da indústria metalúrgica com seu mau humor inegociável, que nem assusta mais adolescentes em bailes de debutantes. Sem meter medo, tenta encurtar a pena causando dó.

Não pense o leitor incauto que essa lorota de depressão é inócua. Não é mesmo. Deve haver até ministros do STF que não foram por ele agraciados com a indicação do trono que se disponham à prática da grata comiseração. Nem precisa ter o animus liberandi de Gilmar Mendes ou a gratidão de ex-empregadinho do presidente da Corte, Dias Toffoli. Só Nosso Senhor pode imaginar quantas almas misericordiosas se escondem debaixo daquela fantasia macabra de Batman de luto. Os semeadores de misericórdia sabem muito bem como a alma de um marajá da cúpula do Judiciário está disposta a perdoar e interromper uma pena. Quando não por outro motivo, no mínimo para mostrar o devido lugar de um juiz de primeira instância que desafie seu reino de “capinhas”, pagos para evitar o esforço muscular dos braços de seus patrões empertigados, ao empurrarem para acomodação confortável assentos devidos para os próprios traseiros.

A coluna Radar da revista Veja excitou a curiosidade dos portais fiéis ao lulismo noticiando que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, teria confidenciado a amigos sua intenção de evitar o excesso de visitas na PF do Paraná, providenciando para Lula aposentos mais tranquilos numa unidade do Exército. Não consta que, entre os poderes que assumirá após a posse de 1.º de janeiro próximo o capitão reformado e deputado federal em fim de mandato, haja uma espécie de extensão do juizado de penas especiais para ex-presidentes. Não há lei que preveja isso nem as regalias de que o presidiário mais notório do País goza no lugar que hoje ocupa. Assim sendo, não há por que ele continue lá nem vá para casa ou para um quartel. O justo e legal seria encontrar cela adequada para ele, ainda que seja incomum, num presídio comum, sem que haja a necessidade de a maior autoridade da República cuidar disso. Afinal, este tem a corrupção criminosa endêmica a combater e uma crise econômica, financeira, ética e social gigantesca a enfrentar. A moradia do condenado de Curitiba deve ser assunto exclusivo de varas de execução penal e carcereiros.

Quanto aos sinais de depressão que seus serviçais que ainda o visitam nele detectam, não são anormais. Quem o conhece bem sabe que, como Getúlio Vargas era um suicida vocacional, Lula é um depressivo crônico, que costuma enfrentar suas crises com um líquido engarrafado que não se encontra em farmácias nem para cujo consumo se exige prescrição médica. Não seria o caso de ministrar esse tratamento habitual, pois não consta que o consumo de espíritos seja corriqueiro em estabelecimentos penais. De qualquer maneira, quem conhece os hábitos do preso, seus carcereiros e os hábitos corriqueiros do Brasil, não achará estranho se alguém descobrir que ele está recorrendo a água que passarinho não bebe.

*Jornalista, poeta e escritor

 

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