Presidenta criminosa

Presidenta criminosa

Mônica acusa Dilma de ter avisado por telefone que ela e João Santana seriam presos: crime grave

José Nêumanne

12 de maio de 2017 | 11h23

Dilma põe o lenço das mães da Praça de Maio ao receber um prêmio na Argentina Foto Notícias Argentinas/HO

A mulher e sócia do marqueteiro João Santana, Mônica Moura, contou aos investigadores da Operação Lava Jato, em sua delação premiada, que a ex-presidente Dilma Rousseff telefonou para  a República Dominicana, onde ela estava com o marido, para avisar que ambos seriam presos. Esta acusação, de altíssima gravidade e teor de explosão nuclear no julgamento da ação do PSDB contra a chapa vencedora da reeleição de 2014, tornou-se pública depois que o relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, homologou a delação premiada do casal. A ligação teria sido feita em 21 de fevereiro do ano passado. O casal foi alvo da 23ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada no dia seguinte. Absurdo total!

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na sexta-feira 12 de maio de 2017, às 7h30m)

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Eldorado 12 de maio de 2017

A mulher e sócia do marqueteiro João Santana, Mônica Moura, contou aos investigadores em sua delação que a ex-presidente Dilma Rousseff telefonou para  a República Dominicana, onde o casal estava, para avisar eles seriam presos. Esta é uma acusação gravíssima, não é?

A revelação, como você acaba de dizer, gravíssima, tornou-se pública ontem depois que o relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, homologou a delação premiada do marqueteiro e da mulher.

A ligação teria sido feita em 21 de fevereiro do ano passado. O casal foi alvo da 23ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada no dia seguinte.

Pelo relato de Mônica, a ex-presidente mantinha com o casal comunicação permanente passando tudo o que lhe era comunicado por seu advogado no impeachment e então ministro da Justiça José Eduardo Martins Cardozo. Ao ser citado, este confessou que, de fato, tinha obrigação funcional de manter sua chefe informada sobre o que se passava em sua área. Não deixa de ter razão. Papelão muito feio fez dona Dilma ao avisar a seus cúmplices sobre decisões importantes da investigação, como a ordem de prisão do casal que estava prestes a ser dada pelo juiz responsável pela Operação Lava Jato, Sérgio Moro. É um episódio vergonhoso na biografia de Dilma, que até hoje repete exaustivamente com seu estilo de alfabetizada recente o refrão de que é uma mulher honesta, mãe e avó e não tem conta no exterior, o que não quer dizer absolutamente nada. Principalmente agora que ela acaba de ser desmascarada em algo que enlameia a História da República.

E o caso faz parte de outra coisa também vergonhosa que é a troca de e-mails secretos também revelado por Mônica na delação, não é?

Pois é. João e Mônica também contaram ao Ministério Público Federal (MPF) sobre a troca de informações com Dilma a respeito do avanço da Operação Lava Jato. Os dois detalharam a criação de um e-mail em comum com a petista no qual eram avisados sobre a investigação. Pelo e-mail fictício, que Mônica criou em Brasília depois de ser chamada com urgência por Dilma, quando estava em Nova York com o marido, o casal recebia avisos do tipo “nosso amigo está muito doente” em rascunhos que não eram enviados. A troca de correspondência, segundo a delação, incluía o maçaneta de Dilma, Giles Azevedo.

O casal de publicitários também contou que os pagamentos via caixa dois se intensificaram nos governos de Dilma Rousseff. Segundo eles, com a participação direta da ex-presidente. João Santana detalhou como Dilma participava das conversas sobre caixa dois. Contou que entre maio e junho de 2014 teve um almoço com Dilma, sem testemunhas, em que a presidente o tranquilizou sobre a dívida da campanha de 2010 e sobre pagamentos de caixa dois. Ele reproduziu na delação o que diz ter ouvido de Dilma:

“Fique tranquilo que tudo será resolvido rapidamente em relação a esta dívida, e o que estamos planejando vai permitir, inclusive, pagarmos uma parte antecipada da campanha deste ano”. Ele contou que, a dois meses da eleição de 2014, os pagamentos só começaram a sair depois da interferência direta de Dilma. Segundo o publicitário, a presidente Dilma Rousseff demonstrou irritação e disse que iria tratar do assunto com Guido Mantega. Após a conversa, os pagamentos começaram a ser feitos, mas jamais no ritmo prometido. A dívida da campanha presidencial de 2010 estava em R$ 10 milhões. O caixa dois foi repassado pelo acusado de intermediar pagamentos de propinas, Zwi Skornicki: US$ 4,5 milhões, ou R$ 9 milhões. Restou ainda uma dívida de R$ 1 milhão que, segundo o casal, nunca foi paga.

A parte quitada pode ser comprovada, segundo Mônica Moura, com extratos dos pagamentos, em parcelas, feitos por Zwi Skornicki. Houve pagamentos da campanha em dinheiro vivo também: R$ 5 milhões entregues em espécie pela Odebrecht em São Paulo, por pessoas que Mônica Moura disse acreditar que eram doleiros. Mônica contou que se tratava de um esquema profissional: ela passava um endereço, recebia uma palavra senha e recebia o dinheiro no local indicado de um desconhecido. O modelo se repetiu na campanha de reeleição de Dilma, em 2014. Mas o valor do caixa dois foi maior: R$ 35 milhões. E Dilma tratou de pagamentos ilegais até mesmo dentro do Palácio da Alvorada, segundo Mônica Moura. A publicitária contou que abordou o assunto em conversas particulares entre ela e Dilma, nos intervalos de gravações de pronunciamentos oficiais que João Santana dirigia no Palácio da Alvorada. Em anexo de delação premiada, o marqueteiro João Santana informou ao Ministério Público Federal que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ex-presidente Dilma Rousseff tinham ciência de pagamentos oficiais e de caixa 2 feitos como contraprestação aos serviços prestados em campanhas eleitorais. De acordo com ele, falou diversas vezes com Lula e Dilma quando necessitava fazer cobranças. “Nestas oportunidades, tanto Lula como Dilma se comprometeram a resolver o impasse e, de fato, os pagamentos voltavam a ocorrer. Tanto os pagamentos oficiais, quanto os recebimentos de valores através de caixa 2”, informa o marqueteiro no seu anexo de delação premiada.

João Santana também envolveu Lula, que, depois de tudo o que foi revelado, ainda se diz o homem mais honesto do Brasil?

Sim. No depoimento aos investigadores, Santana fala da relação da Odebrecht no pagamento das dívidas de campanha e diz que Dilma e Lula sabiam que a conta seria paga com recursos de caixa dois da empreiteira baiana. Ele narra ainda que o então ministro da Fazenda, Antônio Palocci, dizia que decisões definitivas sobre pagamentos dependiam da “palavra final do chefe”, em referência a Lula. Em dois momentos da campanha à reeleição de Lula, Santana diz ter ameaçado interromper os trabalhos em razão de inadimplência. Depois disso, o petista pressionou Palocci que “colocou a empresa Odebrecht no circuito”, segundo o anexo da delação.

Parte inferior do formulário

Na delação, Santana foi questionado por procuradores quais questões que, segundo Palocci, dependeriam do “respaldo do chefe”. O marqueteiro disse que eram questões referentes aos valores totais de seus honorários nas campanhas. João Santana diz, em seu relato, que soube por sua esposa que Palocci tinha “poder quase absoluto” sobre o fundo de caixa dois do PT manuseado pela Odebrecht. A empreiteira baiana revelou na delação premiada de seus executivos que havia uma conta corrente destinada aos governos do PT e abastecida pelo Setor de Operações Estruturadas, conhecido como departamento da propina da empresa.

O marqueteiro confirma a existência da conta corrente. Segundo o marqueteiro, Palocci o questionou “você tem conta no exterior?”. Após uma resposta afirmativa, o então ministro da Fazenda disse que depósitos seriam feitos fora do País pela Odebrecht “para segurança de todos” e que a empresa tinha “o respaldo do chefe”.
Conforme os delatores, a campanha de 2006 marcaria o início de um relacionamento com o PT que se arrastaria até 2014, com a reeleição da então presidente Dilma Rousseff. Em seus anexos de delação, Mônica Moura contou que acertou com Palocci, em 2006, os valores de caixa 1 e caixa 2 para a campanha de reeleição de Lula. Na ocasião, o petista teria informado a ela que parte do dinheiro por fora seria desembolsado em espécie e parte pela Odebrecht. Ele a teria orientado a procurar Pedro Novis, então presidente do grupo.

“O presidente Lula sabia do valor total da campanha – tanto o que seria pago oficialmente e o que seria pago por fora -, porque Palocci relatou a Mônica Moura diversas vezes, durante a negociação, na fase de discussão sobre valores, que ‘tinha que falar com o Lula, porque o valor era alto, e ele não tinha como autorizar sozinho’”, diz trecho de anexo da delação da empresária, entregue por sua defesa à Lava Jato. “Depois, na última reunião de fechamento, (Palocci) voltou dizendo que ‘o valor da campanha (total) tinha sido autorizado pelo Presidente’”, acrescenta o documento.

Mônica Moura disse que os serviços de comunicação prestados para Lula custaram 10 milhões de reais, sendo que 10 milhões teriam sido pagos de forma não oficial. Metade desde valor teria sido entregue em espécie a ela própria por um assessor de Palocci, em várias ocasiões, nos anos de 2006 e 2007. O dinheiro, segundo ela, era acondicionado em caixas de sapato e roupas, e repassado numa casa de chá do Shopping Iguatemi, em São Paulo. A outra metade teria sido depositada pela Odebrecht na conta Shellbil, de João Santana, no exterior.

Por falar em Lula, ainda há alguma história que você gostaria de contar do depoimento dele em Curitiba?

Sim. Ontem conversei com o advogado paranaense René Ariel Dotti, contratado pela Petrobrás para ajudar a acusação, e ele me contou que teve uma discussão áspera com o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins. Este interrompeu asperamente o juiz Sérgio Moro reclamando de pergunta que ele fez a Lula sobre o mensalão, julgado no Supremo Tribunal Federal. Dotti interveio para dizer que se o defensor quisesse, poderia recorrer contra o juiz, mas não interrompê-lo da forma como fazia, pois a pergunta de Moro, segundo ele, era pertinente, pois o juiz precisa traçar o perfil a partir de convicção sobre a moral dele para fixar a pena. Quando Zanin tentou retrucar, Moro o proibiu de falar, mantendo a palavra com Dotti, que tem um currículo de serviço prestado à democracia defendendo presos políticos no regime militar. Sinto-me representado por Dotti no processo.

Por falar em Petrobrás, ontem o Estadão deu a excelente notícia de que a estatal teve lucro de 4 bilhões e 449 milhões de reais no primeiro trimestre deste ano e reverteu o prejuízo de R$ 1 bilhão e 246 bilhões no mesmo período do ano passado. Isso mostra que a empresa segue por um bom caminho?

Não tenha dúvida.  O presidente da estatal, Pedro Parente, afirmou estar satisfeito com esses resultados. Um dia antes, o Estadão também noticiou que a empresa incluiu a polêmica refinaria de Pasadena, no Texas, entre os ativos que vai vender para atingir a meta de US$ 21 bilhões de investimentos até o fim do ano que vem. Estopim da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, Pasadena custou 1 bilhãos e 200 milhões de reais à Petrobrás, pagos à Astra Oil, que, meses antes, havia adquirido a refinaria a 42,5 milhões de dólares. Pelas contas do TCU, a estatal perdeu US$ 792 de dólares milhões ao fechar o negócio. Dificilmente a empresa vai reverter esse prejuízo com a venda. Para o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, a Petrobrás tem autonomia para vender Pasadena e não deve se prender ao fato de a refinaria ser alvo de investigação por corrupção.

Por que a Petrobras não entra na Justiça para anular a compra de Pasadena pedindo ressarcimento pelo prejuízo de US$ 792 milhões causados a Petrobrás por essa aquisição? Vender a Pasadena é arcar com o prejuízo. A Petrobras tem dever de ofício de obter reparações e processar o cartel de empreiteiras. O negócio danoso para a estatal e, em conseqüência, para o cidadão e contribuinte brasileiro precisa ser investigado a fundo e, já que não tem como recuperar nem parte ínfima dos prejuízos, a Petrobrás precisa participar ativamente dessas investigações, exigindo reparações na Justiça e punição aos responsáveis por esses danos.

Os episódios aqui narrados lembram-me um verso genial de Carlos Imperial em Nem vem que não tem, sucesso de Wilson Simonal. Nem vem de escada que o incêndio é no porão. Vamos ouvi-lo, almirante Nelson?

SONORA Nem vem que não tem Wilson Simonal

https://www.youtube.com/watch?v=z_qknpPA5JA

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