Povo quer menos privilégios, menos incompetência e menos roubalheira, diz professor
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Povo quer menos privilégios, menos incompetência e menos roubalheira, diz professor

Para Guilhon, Bolsonaro ganhou porque prometeu acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política

José Nêumanne

13 Dezembro 2018 | 22h27

Professor Guilhon acha que, em 2013, o povo disse estar “por aqui” com a política e os políticos, com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes. Foto: Hélvio Romero/Estadão

Para o especialista em ciências políticas paraense, radicado em São Paulo, José Augusto Guilhon de Albuquerque, o capitão e deputado Jair Bolsonaro ganhou a disputa eleitoral em outubro “porque ‘foi o único que, em vez de dizer ‘vou fazer o mesmo de sempre, só que melhor, mais bonito ou mais radical’, disse que ia acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política”. Na entrevista da semana ao Blog do Nêumanne, o professor titular aposentado da USP analisou em profundidade a cena política nacional, tema de sua especialidade, desde os movimentos de rua há cinco anos até a eleição de dois meses atrás. Ao explicar por que as massas que saíram à rua não se mobilizaram, como era de esperar, em torno do impeachment de Dilma, ele ponderou: “A aprovação das massas foi silenciosa porque já estava rouca de se esgoelar em vão. Note-se que o impeachment só foi encaminhado pelo PSDB quando se tornou evidente que o tapetão não garantiria a posse de Aécio sem uma nova eleição, mas não em resposta aos 80% que rejeitavam Dilma e continuaram rejeitando o seu legítimo herdeiro, Temer, o que mostra o grande consenso popular, e não a divisão radical da sociedade.  A imensa maioria busca a mesma coisa: menos desgoverno, menos politicagem, menos privilégios, menos incompetência, menos roubalheira”.

Nascido em 19 de dezembro de 1940, em Belém do Pará, José Augusto Guilhon de Albuquerque viveu em diferentes cidades dos Estados do Rio, do Espírito Santo, de São Paulo e, no exterior, em Washington D.C. e em Londres. Doutor em Sociologia pela Univesrsité Catholique de Louvain, professor titular aposentado da USP, atualmente pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP, senior research fellow do Wong Center for the Study of Multinational Corporations e diretor da Sobeet, a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica. Fundou e dirigiu o Departamento de Ciência Política da USP, serviu como chefe de gabinete da Reitoria da USP e em todos os níveis de governo, municipal, estadual e federal. Sua área de pesquisa tem foco na política brasileira doméstica e internacional, especialmente as relações Brasil-EUA e Brasil-China. Publicou várias dezenas de artigos acadêmicos e algumas dezenas de livros em diversas línguas. Tem colaborado em todos os jornais de tiragem nacional e nas principais revistas semanais, e atua como convidado em programas nos principais canais de TV e rádio.

Guilhon, guarda-marinha, em cumprimento do serviço militar obrigatório, “sobrevivendo no Corpo dos Fuzileiros Navais” e recebendo a família. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon de Albuquerque

Nêumanne – Qual foi, em sua opinião, o estopim que fez a classe média perder a paciência de vez com o tratamento dispensado pelo Estado brasileiro à sociedade de forma estroina, desleixada e insensível, levando-a a protestar em massivas manifestações de rua em 2013?

José Augusto Guilhon – Qual estopim? No caso caso não acha que seriam inúmeros? Ou gota d’água, porque basta uma? Toda a população estava naquela atitude de “ras le bol“, como diziam os franceses e, pelo visto, continuam dizendo, ou seja, “estamos por aqui” com todo tipo de governos, “por aqui” com a política e os políticos, “por aqui” com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes. Motivo não faltava para derramar a indignação e a revolta generalizadas. Saber por que o aumento das tarifas de transporte simbolizou a revolta ainda é tema para pesquisa, mas saber por que a classe média saiu na frente e por que seu desabafo calou fundo nos restantes 99% do povo suscita algumas hipóteses. A minha é de que, contrariamente às regalias que compartilha com as classes dirigentes – em seguridade, educação superior e atendimento médico, para dar alguns exemplos incontestáveis -, o descaso, o arbítrio, a verdadeira extorsão fiscal a que é submetida a classe média vem compartilhando, cada vez, mais como o povo em geral. Com isso a mensagem das ruas disse em alta voz o que a grande massa da população queria ouvir… e aprovou.

N – Por que, a seu ver, mesmo tendo respondido de forma absolutamente alienada e inconvincente, propondo um programa absurdo de cinco falsos pactos, o principal alvo de tal ataque, a presidente à época, Dilma Rousseff, do PT, ao lado de seu companheiro de chapa,  Michel Temer, do então PMDB, ainda venceu a eleição, embora por margem reduzida, contra o adversário Aécio Neves, do PSDB?

G – Dois processos que ocorreram simultaneamente, e em parte se reforçaram, parecem ter dado origem tanto à autofagia do governo Dilma quanto à sua reeleição, apesar disso. E também ao suicídio da coalizão de centro-direita que fora bem-sucedida na era do Plano Real e levou ao desastroso desfecho das últimas eleições: o sucesso de um aventureiro, calçado numa campanha populista de direita, que alardeia profunda admiração por ideias de exercício do poder popular por via de corporações e democracia direta, com grande desconfiança com relação aos canais institucionais de representação.

Refiro-me à absoluta recusa da classe política – governo Dilma incluído – de olhar para as ruas e ouvir sua mensagem. Essa omissão dolosa, e não apenas culposa – uma vez que a primeira obrigação da classe política é representar no poder os interesses e demandas do povo soberano -, pode ser simbolizada pelo fato de que, diante das primeira reações de desconforto por sua presença nas ruas, os partidos e os detentores de mandato popular fugiram quase todos da rua.

Na revista Interesse Nacional, que avaliava os resultados das eleições de 2014, publiquei um artigo intitulado O recado (mudo) das unas, que concluí com o seguinte alerta: “Restam três caminhos até 2018. O primeiro consistiria em vislumbrar, no decorrer dos próximos quatro anos, lideranças que encarnem a ‘nova política’ – cujo conteúdo ainda terá que ser construído – e acenem com compromissos críveis de uma gestão honesta e de ações decisivas para retomar o crescimento e estender, à imensa maioria, o bem-estar geral. Esse teria que ser o caminho das oposições, pois a viabilidade de vir do PT é totalmente incompatível com o petismo realmente existente. Outro caminho seria governo e oposições voltarem ao business as always, e apostarem na omissão das elites e no conservadorismo popular para deixar como está, como diria Getúlio, e ver como é que fica. Mas este caminho se cruza com o terceiro, um caminho retomado pela memória do levante de junho de 2013, agravada com as novas ofensas que os governantes não tardarão a causar. Seria o caldo de cultura para uma ‘revolução’ em busca de suas lideranças”.

Para ver participação de Guilhon no WW Painel em 30/11/18 clique aqui

N – A frustração provocada no eleitorado pela preguiça do senador mineiro Aécio Neves – que obteve 50 milhões de votos e passou a representar a esperança de pelo menos metade da população brasileira, depois da derrota sumiu de cena, ausentando-se das sessões em plenário da chamada Câmara Alta e conduzindo uma oposição evidentemente de fancaria ­- pode, de acordo com seu ponto de vista, ter desmotivado a volta dos manifestantes de 2013 às ruas, apesar do desmazelo, da incompetência e da comprovada corrupção da gestão petista na primeira metade do segundo governo de Dilma?

G – A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral: nunca os candidatos tucanos puderam contar com o apoio das suas principais lideranças ao candidato de turno, formando-se uma coalizão de veto entre São Paulo, Minas, Bahia e Ceará, e parte das lideranças regionais e das bancadas federais faziam alianças tácitas com Lula ou Dilma. Coroando esse papel desagregador da oposição, prevaleceu, desde a eclosão do escândalo do mensalão, a estratégia autodestrutiva de preservar o adversário para que ele sangre até o fim do mandato.

Tal estratégia consiste em colocar-se no lugar do adversário, para avaliar sua principal ameaça, não para levá-lo à derrota, preservando os interesses da sociedade, mas dando-lhe corda para continuar agravando o sofrimento do povo e a estabilidade da Nação. Isso explica como foi possível que as ruas voltassem a se manifestar em 2014, justo no ano das eleições, com a mesma omissão dolosa da Dilma e de toda a classe política, sobretudo da pretensa oposição, que conjugou à teoria do sangramento até o fim a esperança de eleger Aécio no tapetão do TSE.

Guilhon fazendo o discurso de formatura na Faculdade Nacional de Filosofia, na então Universidade do Brasil, “briga dura para ser eleito.” Foto: Acervo pessoal

N – O que o senhor acha que motivou a grande mobilização partidária para aprovar o impeachment da presidente petista e a sucessiva posse de seu vice do então PMDB, sem que houvesse entusiasmo igual ao de 2013, mas, pelo menos com aprovação da chamada maioria, então, silenciosa?

G – A aprovação das massas foi silenciosa porque já estava rouca de se esgoelar em vão. Note-se que o impeachment só foi encaminhado pelo PSDB quando se tornou evidente que o tapetão não garantiria a posse de Aécio sem uma nova eleição, mas não em resposta aos 80% que rejeitavam Dilma e continuaram rejeitando o seu legítimo herdeiro, Temer, o que mostra o grande consenso popular, e não a divisão radical da sociedade.  A imensa maioria busca a mesma coisa: menos desgoverno, menos politicagem, menos privilégios, menos incompetência, menos roubalheira.

Guilhon “Rumo ao Havre e ao doutorado Na Université Catholique de Louvain, em Leuven, Bélgica, em 1965”. Foto: Arquivo Pessoal

N – O senhor atribui a enorme impopularidade do presidente Michel Temer à revelação de sua conversa muito pouco republicana na garagem do Palácio do Jaburu com o marchante goiano, que virou titã da produção e comercialização da proteína mundial da noite para o dia, Joesley Batista, e à consequente compra de apoio na Câmara dos Deputados para impedir a abertura de inquérito criminal contra o chefe do Executivo?

G – Creio que se trata de três mecanismos causais, não necessariamente independentes, que contribuem para isso: entre os 80% da base de sustentação do governo Dilma, a maioria tinha interesse em chantagear a Presidência, enfraquecer o novo presidente impedindo o sucesso de seu programa de liberalização da economia e austeridade do gasto público. Os tucanos se superaram, formulando uma nova política para o novo governo, fornecendo alguns de seus melhores quadros para dele participarem e votando contra todos os seus próprios projetos.

Temer tentou empenhar-se em medidas impopulares, sem apoio programático em sua própria base e sem dar resposta à indignação popular, quando poderia combinar até duas hipóteses, mas não todas as três. Por cima, escolheu a pior combinação, virou de costas para a indignação popular e adotou medidas impopulares.

Joesley Batista foi a gota d’água provocada pela revolta das corporações privilegiadas contra a ameaça de perda de suas prerrogativas e prebendas, que Temer jamais teria a coragem de efetuar. Se não fosse Joesley, as corporações investigativas e judiciárias teriam fabricado outra opção, com a generosa contribuição do próprio Temer.

N – No começo de 2018, havia certa esperança no ar de uma eleição presidencial que permitisse ao eleitor encontrar um jeito de dar um drible da vaca nos chefões partidários e escolher alguém para a sucessão do breve Temer. Esse movimento sub-reptício foi contra a reeleição dos praticantes da velha política, que, em resposta, recusaram a possibilidade de candidaturas avulsas e outras fórmulas institucionais para o povo assumir, de fato, o poder que dele emana de acordo com a Constituição. Mas os chefões das organizações partidárias obstruíram todas essas saídas. O senhor diria que subestimaram a astúcia do povo, imaginando que cumpririam sua tarefa de manter o status quo,impedindo candidaturas rebeldes dentro de suas condições de luta pela impunidade e manutenção do foro privilegiado?

G – Subestimaram, sim, mas também sobrestimaram a capacidade dos aventureiros para enfrentar o segundo maior desafio da política, a campanha eleitoral, atrás apenas do desafio de conter a cobiça dos grandes sem ofender demasiado o povo. O establishment perdeu tempo demais com a tentativa de travestir magnatas e saltimbancos em candidatos, e todos deram chabu. Quando veio a hora de apelar para a virtude dos candidatos já dados por inviáveis, mas em plena campanha, já foi tarde.

Para ver balanço de 2016 por Guilhon com Gamberini no Jornal da Gazeta clique aqui

N – Em que momento e circunstâncias, segundo sua visão, o deputado federal e capitão Jair Bolsonaro, do baixíssimo clero da Câmara, conseguiu com seu partideco de direita, menos de R$ 2 milhões para gastar na campanha, 400 vezes menos do que Dilma e Temer empregaram em 2014, sem participar de debates nos meios de comunicação nem da campanha após ser esfaqueado, com apenas oito segundos no horário obrigatório dos partidos no rádio e na televisão, conquistar as mentes e os corações dos cidadãos brasileiros cansados dos desgovernos do PT, seus aliados e seus adversários da velha política?

G – A prova de que Bolsonaro não conquistou corações e mentes do povo brasileiro é que foi eleito por uns 30% da população, e menos de 40% do eleitorado, tendo a soma dos ausentes, votos em branco e nulos em segundo lugar e Haddad em último.

Guilhon, comendador da Ordem de Rio Branco, é pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP. Foto: Acervo pessoal

N – Qual foi o motivo de esse mesmo Bolsonaro haver se livrado de sua pecha de admirador de torturador e pretenso candidato a um golpe militar ter convencido brasileiros desiludidos com a falácia e a desfaçatez do neopopulismo de rapina do PT, mas também nada propensos a abraçarem uma causa autoritária e militarista para alcançar a marca espetacular de quase 58 milhões de votos, esmagando o adversário Lula, representado na eleição por Fernando Haddad?

G – É que ele foi o único que, em vez de dizer “vou fazer o mesmo de sempre, só que melhor, mais bonito ou mais radical”, disse que ia acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política.

N – Que feridas dolorosas produzirão cicatrizes marcantes na alma da democracia brasileira com esta bipolarização radical e violenta com que a disputa entre o capitão e o ladrão maculou a disputa eleitoral, dificultando o processo de amadurecimento e crescimento de nossa democracia num pleito, apesar dos pesares, pacífico, ordeiro e, sobretudo, muito legítimo?

G – A população não me parece radicalmente polarizada, as campanhas é que se empenharam em deixá-las sem opção, e as evidências são de que, entre os 80% que rejeitaram Dilma e os 80% que rejeitaram Temer, a grande maioria compartilhou ambas as rejeições. Se e quando ficar evidente que a missão assumida por Bolsonaro é inviável sem mudanças radicais em seu modus operandi, a revolta vai voltar a se manifestar.

N – O senhor acredita que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, terá condições, talento e disposição para enfrentar a tarefa ingente de reduzir o desemprego, debelar a crise econômica, financeira, política e ética e reconstruir o Brasil do desastre dos últimos anos, apesar da chantagem e da sabotagem de seus adversários, principalmente do PT, e não apenas dele, mas também da vetusta máfia política encastelada desde sempre no poder e, enfim, cumprir suas promessas para atender às ambiciosas expectativas de seus eleitores fiéis e fanáticos e também da massa de antipetistas sem os quais ele não teria vencido?

G – Nenhuma das acima citadas. Uma nota: nos maiores eleitorados brasileiros, como São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul, o antipetismo não explica nada.

Guilhon acha que “a contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral”. Foto Hélvio Romero/Estadão