Pouca gente, muita marra
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Pouca gente, muita marra

Lula ameaça com revolução nas ruas, mas crescimento nas pesquisas não reflete comícios mixos

José Nêumanne

10 de outubro de 2017 | 11h50

Lula insiste no discurso messiânico para públicos fechados e minguados Foto: Joedson Alves/EFE

Um contrato de locação e os eventuais recibos de pagamentos, se não contiverem, como os procuradores desconfiam, graves elementos de falsidade ideológica, podem atestar que haja alguma consistência na defesa de Lula de que realmente a família Lula da Silva pagava aluguel do apartamento vizinho àquele onde moram. Falta, contudo, o registro bancário da transação. Não vivemos mais os tempos do fio de bigode e da assinatura num papel sem identificação. Dona Marisa, que teria feito o negócio, segundo o ex-presidente e seus advogados, morreu. Mas os depósitos que ela teria feito e Glaucos da Silva Marques recebido constariam dos arquivos do Banco Central, que não fechou depois da morte da mulher de Lula.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na terça-feira 10 de outubro de 2017, às 7h30m)

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Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

Eldorado – 10 de outubro de 2017 – Terça-feira

O juiz federal Sérgio Moro mandou a defesa do ex-presidente Lula ‘esclarecer expressamente’ se tem os originais dos recibos do aluguel do apartamento 121, do edifício Hill House, em São Bernardo do Campo (SP). Esses recibos têm, de fato, algum valor?

O imóvel é vizinho ao que mora o petista e um dos pivôs de ação penal na qual Lula é réu por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato. Para os procuradores, a Odebrecht custeou a compra do apartamento, em nome do engenheiro Glaucos da Costamarques, primo do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente. Na mesma ação, Lula responde por também ter supostamente recebido da empreiteira terreno onde seria sediado o Instituto Lula, no valor de R$ 12,5 milhões. A Lava Jato afirma que não houve pagamento de aluguel entre fevereiro de 2011 e pelo menos novembro de 2015, do imóvel vizinho ao do petista, em São Bernardo.  No dia 25 de setembro, a defesa do ex-presidente apresentou documentos que contestam a versão dos procuradores. Os advogados do ex-presidente anexaram um contrato da ex-primeira dama Marisa Letícia com Glaucos da Costamarques, dono do imóvel no cartório, e recibos de pagamento. Dois dos comprovantes apresentam datas que não existem no calendário. Parte dos documentos ainda apresenta os mesmos erros de ortografia. O Ministério Público Federal, no Paraná, entrou com um incidente de falsidade, em 4 de outubro, para apurar a autenticidade dos documentos apresentados pela defesa do ex-presidente e cobra os recibos originais. Os procuradores afirmam que os comprovantes são ‘ideologicamente falsos’ e pediram perícia.

Na decisão, Moro afirma que ‘há dúvida, tratando-se de suposto falso ideológico, quanto à adequação de perícia técnica para a solução da controvérsia’.

É claro que o contrato de locação e os eventuais recibos de pagamentos, se não contiverem, como os procuradores desconfiam, graves elementos de falsidade ideológica, podem atestar que haja alguma consistência na defesa de Lula de que realmente a família Lula da Silva pagava aluguel. Há, entretanto, uma defesa muito mais sólida, que seria a documentação bancária da transação. Não vivemos mais os tempos do fio de bigode e da assinatura num papel sem identificação. Dona Marisa, que teria feito o negócio, segundo o ex-presidente e seus advogados, já morreu. Mas os depósitos que ela teria feito e Glaucos da Silva Marques recebidos ainda constariam dos arquivos do Banco Central, que, ao que me consta, não fechou após a morte da mulher de Lula.

Condenado a 9 anos e 6 meses de prisão em primeira instância, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a desafiar ontem seus acusadores a ver o que acontecerá no País se o impedirem de ser candidato à Presidência em 2018. Há indícios de que ele fale a verdade?

“Eles agem todo santo dia para me tirar da disputa. Juntam meia dúzia de juiz e votam. Não me deixam ser candidato e pronto. Se eles acham que, me tirando da disputa, está resolvido o problema deles, façam e vamos ver o que acontece no País. Se acham que não vou ter força para ser cabo eleitoral, testem”, disse o petista em ato em defesa das universidades públicas em Brasília.

O ex-presidente afirmou ainda que está “lascado”, mas que espera um pedido de desculpas do juiz Sérgio Moro. “Não quero nem que o Moro me absolva, só quero que peça desculpas.” Muito aplaudido pela plateia, Lula prosseguiu em sua ofensiva contra a Lava Jato.

Em quase 40 minutos de discurso, ressuscitou o discurso do “nós contra eles”, disse não poder mais aceitar tantas “mentiras” e afirmou não ter medo da operação. Disse ainda que, se o objetivo da Lava Jato é não deixá-lo ser candidato, os investigadores não deveriam deixar “o povo sofrer” por causa disso.

Apesar de condenado no caso do triplex do Guarujá, ser réu em seis ações penais e estar denunciado em outros dois casos, o ex-presidente lidera as pesquisas de intenção de voto.

Acompanhado do ex-prefeito Fernando Haddad, Lula criticou o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), presidenciável em 2018. “Se o Bolsonaro agrada ao mercado, nós do PT temos de desagradar ao mercado.”

É claro que Lula é um cabo eleitoral muito importante, capaz de ajudar algum candidato da esquerda, do PT, ou Ciro Gomes, do PDT. Isso não garante a vitória desse candidato nem a importância dele e de seus parcas petistas no governo a ser eleito em 18  e empossado em19. A não ser que esse candidato fosse ele próprio. As pesquisas são muito comemoradas, mas os dados da DataFolha, por exemplo, não têm sido confirmados nas ruas, que continuam em paz, enquanto Lula discursa e estribucha a cada nova notícia negativa no campo penal. Eu aconselho a leitura do artigo de última página da Veja, da lavra de José Roberto Guzzo, que é cristalino e lúcido a esse respeito.

Os dois policiais militares que atenderam à ocorrência envolvendo Laís Andrade Fonseca, de 30 anos, em Teófilo Otoni (MG), foram autuados por homicídio culposo pela corporação. Por que esse caso aparentemente isolado está tendo tanto destaque e chocado tanto?

A mulher foi assassinada dentro da viatura pelo ex-maridoquando era levada ao lado dele para a delegacia.

De acordo com o 19º Batalhão da Polícia Militar, os PMs que os acompanhavam descumpriram norma interna da corporação ao não revistarem novamente o suspeito antes que ele entrasse e na viatura.

No caminho para a delegacia, os policiais pararam na casa do homem para que ele pegasse seus documentos.

Os policiais foram denunciados à Justiça Militar e retirados das ruas. Passarão também por tratamento psicológico e poderão responder em liberdade. O caso também é apurado pela Polícia Civil. Na tarde do sábado, Laís Fonseca acionou a PM após encontrar uma câmera escondida dentro de sua casa filmando e transmitindo imagens em tempo real dela e do filho de 8 anos.

Ao ser procurado, o ex-marido Valdeir Ribeiro de Jesus, de 34 anos, confessou ter instalado o equipamento por ciúme. Ele teria convencido a mulher a não registrar a queixa e ela concordou, mas, como havia filmagens de criança, os envolvidos foram levados à delegacia.

Esse caso é um reflexo relevante da incompetência, do desleixo e do descaso do Estado brasileiro principalmente no interior deste País imenso e ao lidar com gente pobre. Chega a ser exemplar e muito doloroso, além do caso específico da dor da família da moça, especialmente seu filho de oito anos. É um exemplo cabal de como o Estado brasileiro é bocal, cruel, incompetente e canalha com aqueles que mais precisam dele. Um vexame!

O presidente Michel Temer (PMDB) determinou ao Ministério da Educação (MEC) a liberação de recursos para a reconstrução da creche Gente Inocente de Janaúba, no interior de Minas Gerais, que foi palco de um incêndio criminoso na quinta-feira, 5, que provocou a morte de nove crianças e dois adultos. O que motivou essa decisão?

A informação foi divulgada pela Secretaria de Imprensa do Planalto, que não deu detalhes do quanto a pasta terá que alocar. O Planalto informou ainda que o Ministério da Saúde “enviará equipamentos ao Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (em Belo Horizonte), referência no tratamento de queimados, que recebeu feridos no incêndio

“A homenagem é concedida a pessoas que deram exemplos de dedicação e serviço ao País e à sociedade brasileira”, escreveu em nota a Secom. “Este é o caso da professora Heley Batista, que sacrificou sua própria vida para salvar a vida de seus alunos, em um gesto de coragem e de heroísmo que emocionou a todos.”

Até agora ninguém havia chamado a atenção para a culpa da prefeitura de Janaúba, que mantinha a creche em estado de pobreza extrema e sem equipamentos de segurança, obrigando seus funcionários ao sacrifício pessoal da própria vida. Temer fez muito bem em tomar essas atitudes que mostram que pelo menos ele não é completamente indiferente à sorte do País real, embora no momento se dedique apenas a salvar a própria pele.

O italiano Cesare Battisti disse ontem que pode sair do Brasil a hora que quiser. “Eu posso sair desse país quando e como quero”, declarou, em entrevista exclusiva à TV Tribuna, da Globo. E ele pode mesmo?

Na quarta-feira, 4, ele foi preso em flagrante por tentativa de evasão de divisas e lavagem de dinheiro quando atravessava a fronteira do Mato Grosso do Sul com a Bolívia. Levava em uma pochete US$ 6 mil e 1.300 euros em dinheiro vivo. Na quinta, 5, o juiz federal Odilon Oliveira, da 3.ª Vara Federal de Campo Grande,decretou sua prisão preventiva – sem prazo para terminar – diante da suspeita de que fosse fugir do País, com receio de uma nova ofensiva do governo da Itália para que o Brasil promova sua extradição. Na Itália, Battisti está condenado à prisão perpétua por terrorismo e acusação de quatro assassinatos nos anos 1970.

Ele está refugiado no Brasil desde 2004. Em dezembro de 2010, no último dia de seu mandato, o então presidente Lula baixou decreto negando a Roma a transferência do italiano.

Na sexta-feira, à noite, o desembargador José Marcos Lunardelli, do Tribunal Regionjal Federal da 3.ª Região (TRF3) deu liminar em habeas corpus para Battisti. No sábado, 7, ele estava de volta a Cananéia.

“Não é verdade o que se fala, que eu não tinha o direito de sair do País”, disse Battisti à TV Tribuna. “Porque eu não tenho refúgio político. Eu sou um imigrante, com visto permanente no País. Eu posso sair desse país quando e como quero. Eu não tenho nenhuma restrição.”
Battisti negou taxativamente que tivesse a intenção de fugir do país. “Ia estar fugindo de quê? O país onde estou protegido é aqui.”

À Polícia Federal ele disse, em interrogatório, que planejava ir à Bolívia para pescar e comprar roupas de couro. Negou intenções políticas ou que fosse pedir refúgio no país vizinho. Disse, ainda, que não conhece o presidente boliviano.

“Evo Morales? Eu não conheço esse nome, eu não conheço ninguém na Bolívia. E por que eu ia fugir? Estou protegido. O decreto do Lula não pode ser revogado. Depois de cinco anos acabou o prazo, não pode ser revogado.”

Se é verdade o que Battisti falou, e não há por que duvidar dele, está na hora de o Supremo Tribunal Federal e o presidente Michel Temer tomarem providências a respeito de sua permanência no Brasil. Ele não é um ativista, como insistem em rotulá-lo revistas, jornais e emissoras de rádio e televisão, mas um condenado por um crime cruel e sem motivação aparente nenhuma. Além disso, a Itália é um país sério, democrático, cuja Justiça não cometeria de imputar a um cidadão italiano uma pena tão pesada por um crime obviamente brutal. A benesse que Lula lhe deu é inaceitável e mostra bem a ignorância e o caráter de nosso ex-presidente.

SONORA – O meu país – Zé Ramalho e Orlando Tejo

https://www.letras.mus.br/ze-ramalho/400344/

 

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