Para Joaci, Bolsonaro já será mais popular que Lula em 2020
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Para Joaci, Bolsonaro já será mais popular que Lula em 2020

Relator do Código do Consumidor acha que ação moralizadora da Lava Jato e choque de liberalismo produzirão impacto moral e material que porá fim à crise

José Nêumanne

11 de abril de 2019 | 19h36

 

Para Joaci, “a sólida aliança que se formou entre a corrupção e a incompetência levou à lona nossas maiores empresas públicas.” Foto: Acervo pessoal

O político, empresário e intelectual baiano Joaci de Góes prevê que, “como o Bolsa Família deixa de ser do PT e passa a ser do novo governo, Jair Bolsonaro pouco a pouco vai substituindo o Lula na adoração popular, como se verá nas eleições municipais do próximo ano”. Protagonista da série Nêumanne Entrevista desta semana no Blog do Nêumanne, o presidente da Academia de Letras da Bahia diz também que “o patológico patrimonialismo que se adonou dos recursos oficiais, num nível sem precedentes na História do mundo, responde pela grave crise em que estamos fundamente imersos. Dessa crise sairemos pela ação moralizadora conjunta da Lava Jato com o choque de liberalismo redentor que começamos a experimentar”. E completa: “A percepção de que cadeia é coisa para os três pês – pretos, pobres e putas – levou ao assalto ao erário brasileiro em dimensões estratosféricas. Mais grave ainda foi a sólida aliança que se formou entre a corrupção e a incompetência, levando à lona nossas maiores empresas públicas. O lado positivo desse monumental freio de arrumação é a generalizada compreensão de que a tarefa de produzir cabe ao setor privado, ficando o Estado (…) com o papel de grande agência reguladora da vida em sociedade, assegurando aos mais carentes um piso de renda que lhes assegure o exercício de uma cidadania digna”.

Joaci, com o filho Alex, que herdou a veia artística do pai, sendo compositor e cantor. Foto: Acervo pessoal

Joaci Fonseca de Góes é bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1963, fundou e dirigiu o grupo econômico Góes-Cohabita, dirigiu o jornal Tribuna da Bahia, de que foi proprietário, de 1970 a 1997, quando, o doou aos colaboradores, depois de financeiramente saneado, episódio entre raro e inédito na história da imprensa brasileira. Entre suas realizações, está a Faculdades do Descobrimento (Facdesco), instalada nos municípios de Cabrália e Porto Seguro, que dirigiu até que foi invadida e teve destruídos os seus livros pelos índios, diante da omissão da Funai. Eleito para a Constituinte de 1988, foi autor do artigo 165, parágrafos 5.° e 7.°, combinados com o artigo 35 das Disposições Transitórias, que obriga o Orçamento da União a obedecer a critérios demográficos na aplicação dos recursos regionais. As lideranças nordestinas, mas deixaram que o dispositivo constitucional, considerado por Rômulo Almeida a maior conquista do Nordeste em todos os tempos, virasse letra morta. Foi o relator do Código de Defesa do Consumidor, diploma legal que, sancionado em setembro de 1990, entrou em vigor em março de 1991.
Conferencista, orador e articulista, Joaci publicou os seguintes ensaios: A Inveja Nossa de Cada Dia, Como lidar com Ela; Anatomia do Ódio; A Força da Vocação para o Desenvolvimento das Pessoas e dos Povos; (As) 51 Personalidades (mais) Marcantes do Brasil; As Sete Pragas do Brasil Moderno; Como Governar um Estado O Caso da Bahia. Assina uma coluna semanal no jornal Tribuna da Bahia, é comentarista da Rádio Metrópole e consultor educacional das Obras Sociais Irmã Dulce. Ocupa a cadeira n.º 7 da Academia de Letras da Bahia, que tem como patrono José da Silva Lisboa, visconde de Cairu, e como fundador o gramático Ernesto Carneiro Ribeiro, que teve entre seus alunos Castro Alves, Rui Barbosa e Euclides da Cunha. Casado com Lídice Ferraz de Góes, tem dois filhos: Joaci Góes Filho, empresário, e Alex, cantor e compositor e dois netos.

Joaci autografa seu livro Como Governar um Estado – O Caso da Bahia, editado pela Topbooks. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Joaci

Nêumanne – Seu livro Como Governar um Estado – O Caso da Bahia, editado pela Topbooks, deveria ser adotado como uma espécie de vade mecum para qualquer gestor estadual no Brasil. Das lições que o senhor dá nele, quais são, a seu ver, as mais urgentes a serem adotadas no Brasil de hoje?

Joaci – Sem qualquer dúvida, a mais importante lição é que o acesso generalizado a educação de alta qualidade é o caminho mais seguro para a felicidade e prosperidade dos povos. Em seguida, elaborar, valorizando, os recursos naturais e culturais disponíveis.

Para ouvir a primeira parte da entrevista de Joaci à Rádio e TV Câmara de Salvador clique aqui

N – Por falar no “caso da Bahia”, como o senhor explica o fato de seu Estado natal ter passado dos domínios de Juracy Magalhães para Antônio Carlos Magalhães e deste para o controle total de corações e mentes pelo PT do petroleiro carioca Jaques Wagner e seu anspeçada Rui Costa?

J – A maioria crescente do eleitorado baiano é composta de gente pobre e inculta; muito exposta, por isso, ao paternalismo político de quem está no poder para submetê-la a custo muito baixo. A partir de agora, como o Bolsa Família deixa de ser do PT e passa a ser do novo governo, Jair Bolsonaro pouco a pouco vai substituindo o Lula na adoração popular, como se verá nas eleições municipais do próximo ano.

Para ouvir segunda parte da entrevista de Joaci à Rádio e TV Câmara de Salvador clique aqui

N – O senhor ainda nutre alguma esperança de que se chegue a uma solução que salve nossa Federação ou, com sua experiência na política, o senhor prevê o abandono da autonomia estadual e a inevitável marcha para a centralização do Estado brasileiro?

J- A descentralização de recursos e de iniciativas anunciada pelo atual governo leva-me a crer no exercício crescente da autonomia das unidades federadas, como mecanismo inteligente de nosso avanço moral e econômico.

Joaci com a mulher, Lídice. Foto: Acervo pessoal

N – O que aconteceu na governança federal para cairmos na crise generalizada que vivemos mais agudamente de 2013 para cá, depois das enormes esperanças produzidas pelo Plano Real, que extinguiu a inflação galopante, estabilizou a moeda e dotou o País de instrumentos legais para pôr fim à irresponsabilidade fiscal?

J – O patológico patrimonialismo que se adonou dos recursos oficiais, num nível sem precedentes na História do mundo, responde pela grave crise em que estamos fundamente imersos. Dessa crise sairemos pela ação moralizadora conjunta da Lava Jato com o choque de liberalismo redentor que começamos a experimentar. Produzir é tarefa do setor privado. Ao Estado, arrecadador de impostos, cabe desempenhar o papel de grande agência reguladora, atuando para reduzir desigualdades.

Para ouvir entrevista de Joaci a Mário Kertész, da Rádio Metrópole, clique aqui

N – Houve uma vontade política firme ou apenas o acomodamento espertalhão à Realpolitik para tornar a Lei de Responsabilidade Fiscal uma tábua de pirulitos prestes a se transformar em letra morta em gestões danosas que se sucederam umas às outras, deixando o cidadão na mão?

J – A percepção de que cadeia é coisa para os três pês – pretos, pobres e putas – levou ao assalto ao erário brasileiro em dimensões estratosféricas. Mais grave ainda foi a sólida aliança que se formou entre a corrupção e a incompetência, levando à lona nossas maiores empresas públicas. O lado positivo desse monumental freio de arrumação é a generalizada compreensão de que a tarefa de produzir cabe ao setor privado, ficando o Estado, como dissemos, com o papel de grande agência reguladora da vida em sociedade, assegurando aos mais carentes um piso de renda que lhes assegure o exercício de uma cidadania digna.

Joaci dá entrevista à TV Aratu por ocasião do lançamento do livro Como Governar um Estado – O Caso da Bahia. Foto: Mauro Coelho/Lab

N – O que, a seu ver, permitiu que a roubalheira desenfreada dos cofres públicos durante os três mandatos e meio do PT, com cumplicidade de MDB, PP, PTB, PR e outros aliados, e até com a anuência do PSDB, que fingia fazer oposição e participava da farra, passando por cima de instrumentos de fiscalização, que simplesmente taparam os olhos para a bandalheira?

N – As estruturas de poder foram de tal modo dominadas por sofisticadas quadrilhas que os políticos honestos passaram a ser vistos como entrave à prosperidade dos assaltos. Em parceria passiva, a grande mídia não via o que todos intuíam e muitos sabiam, confirmando o que disse o jornalista Apparício Torelly, o Barão de Itararé, ao recusar o pedido para que falasse num banquete: “A imprensa quando come não fala”.

Joaci com a mulher Lídice e os netos Maria Eduarda e Daniel, filhos de Joaci Filho. Foto: Acervo pessoal

N – De repente, diante de uma crise avassaladora, com um número assustador de desempregados e o mínimo de saídas, cada vez mais estreitas, o senhor, que teve coragem, talento e picardia de se opor a Antônio Carlos Magalhães, o Toninho Malvadeza, em sua Bahia, considera justo jogar toda a culpa e tentar apenar o que se convencionou chamar de “velha política” e passar a depender da pouca prática dos pontífices da “nova política”?

J – A experiência histórica comprova que nada melhor para acobertar o assalto ao erário do que práticas populistas, de caráter assistencialista, em países com elevados percentuais de analfabetos, como é o caso do Brasil, onde a patuleia ignara aplaude e venera os que a mantêm prisioneira do atraso e do sofrimento. Ai dos países que confiam o seu destino a pretensos salvadores! Vigilância e cobrança permanentes são a palavra de ordem das nações maduras e prósperas!

Joaci à mesa da solenidade de comemoração dos 25 anos da Constituição, da qual é autor do dispositivo que obriga Orçamento da União a seguir critérios demográficos na aplicação dos recursos regionais. Foto: Acervo pessoal

N – Como presidente da Academia de Letras da Bahia, fundada no ano da Revolução Bolchevique, 1917, o que o senhor teria a dizer ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, que protagoniza um vídeo circulando nas redes sociais pregando o fechamento dos cursos de Filosofia no Nordeste, a serem substituídos pelo mais apropriado ensino exclusivo da agronomia?

J – No Brasil, como em qualquer parte do mundo, o conteúdo do ensino universitário deve respeitar ponderável percentual de matérias eletivas. À exceção da Língua Portuguesa e dos fundamentos da Matemática, todas as matérias que não fizerem parte do substrato da profissão escolhida devem ter caráter eletivo. Não cabe, porém, ao Estado excluir qualquer disciplina do currículo universitário.

Joaci com a nora Gabriela, a esposa Lídice, Joaci Filho e os netos Maria Eduarda e Daniel. Foto: Acervo pessoal

N – Com a autoridade de constituinte e relator do Código de Defesa do Consumidor, ou seja, um capitão de longo curso, como diria seu amigo Jorge Amado, qual foi sua sensação ao assistir ao deputado federal Zeca Dirceu, do PT do Paraná, usar um funk machista e de baixíssimo calão, referindo-se à liberalidade sexual das “chuchucas”, de um tal Bonde do Tigrão, para desqualificar a reforma da Previdência, que o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, foi defender na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, cujas reuniões o senhor frequentou dando notável contribuição de sua sabença, como se diz lá em Valença?

N – O comportamento do jovem parlamentar foi, a todos os títulos, lamentável, contribuindo, ainda mais, para o desprestígio crescente das ultrapassadas esquerdas brasileiras, que se pautam por um diapasão inexistente na Europa desde o colapso do Império Soviético, como tão bem registrou Norberto Bobbio no seu clássico Direita x Esquerda. Se o ministro Paulo Guedes não fosse um homem educado, teria colocado em lugar da mãe e da avó do deputado uma adjetivação impronunciável na presença de senhoras e de crianças.

Joaci à mesa da solenidade de comemoração dos 25 anos da Constituição, da qual é autor do dispositivo que obriga Orçamento da União a seguir critérios demográficos na aplicação dos recursos regionais. Foto: Acervo pessoal

N – Em que nível está o medidor de confiança do autor de Inveja Nossa de Cada Dia na possibilidade de o Brasil sair da crise, que já enfrenta há muito tempo, sem que haja, pelo menos em médio prazo, perspectivas de sair dela?

J – Desde sempre, empenho-me em não confundir o que vejo com o que desejo. Estou muito confiante em que o Brasil dará, com o atual governo, um salto de qualidade moral e material. Aristóteles já advertia para o risco de misturarmos forma com conteúdo. Não podemos desclassificar um cirurgião de elevada performance porque palita os dentes ou arrota à mesa. Do ponto de vista substantivo, as medidas até agora adotadas pelo governo confirmam o acerto do meu otimismo.

Joaci na posse na Academia de Letras da Bahia, fundada em 1917 e da qual é presidente. Foto: Mauro Coelho

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