Para ex-Pasquim, Lula preso prova vitalidade da democracia
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Para ex-Pasquim, Lula preso prova vitalidade da democracia

Jornalista diz que postagens em redes sociais são predominantemente lixo, inclusive as dele, esta é a era da estupidez planetária e quem quer credibilidade, por óbvio, não as procura

José Nêumanne

17 de abril de 2019 | 20h43

Edilson trabalha há mais de 40 anos em jornalismo e cinema documental sobre a questão amazônica e a temática indígena. Foto: Acervo pessoal

“Lula preso, apesar do desconforto de parte do STF e do STJ, de diferentes corporações, e Temer na fila da cadeia são provas da vitalidade atual da democracia brasileira. Da independência dos Poderes. Até quando nunca se sabe, num país  onde as experiências democráticas são pontuadas, interrompidas, por golpes de Estado”, pontifica Edilson Martins, jornalista, pioneiro em cobertura de ecologia e especialista em Amazônia na última resposta na edição desta semana da série Nêumanne entrevista. O colunista no lendário Pasquim, mítico jornal dito nanico, pioneiro em alternativa à chamada grande imprensa, é impiedoso com a nova versão daquela aventura editorial ao declarar: “nenhuma revolução, até hoje, foi mais democrática, mais contundente, mais desestabilizadora. Que o digam os jornalões. Elas estão promovendo a sacralização dos idiotas, dos imbecis, elevando à condição de filósofo um contador de lorotas, transformando farsantes em celebridades. O idiota tem à mão um jornal, uma rádio, uma TV, é acessado em todo o planeta. Ele deita e rola. O “efeito manada”, antes provincial, municipal, eventualmente nacional, agora é universal. Estamos vivendo o primado da estupidez planetária. Quem quer credibilidade não vai às redes. Por óbvio.”

Edilson Martins é jornalista, escritor e documentarista. Recebeu o prêmio Vladimir Herzog. Trabalhou como repórter especial no Jornal do Brasil, na revista Manchete e foi um dos colunistas do Pasquim. Criou a primeira coluna de ecologia – meio ambiente – na grande imprensa do País, Páginas Verdes. É autor de oito livros, dois de ficção, Makaloba e Bediai – O Selvagem e o Voo das Borboletas Negras. O livro Nossos Índios Nossos Mortos vendeu 400 mil exemplares, certamente um dos mais vendidos no País tratando da questão indígena. Nasceu no Acre, mas vive no Sul/Sudeste desde os 18 anos. O documentário Chico Mendes – Um Povo da Floresta, que tem sua direção e produção, foi um dos mais exibidos na primeira metade dos anos 1990 em todo o Ocidente. Trabalha há mais de 40 anos com a questão indígena, com a Amazônia e, principalmente, com a questão ambiental.  Prepara mais uma série para a televisão sobre a Amazônia. Foi amigo pessoal de Chico Mendes,  Orlando Villas-Bôas, dom Pedro Casaldáliga, Darcy Ribeiro e Apoena Meirelles.

Hoje Edilson divide seu tempo filmando na Amazônia e editando seus documentários no Rio. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Edilson Martins

Nêumanne – Recentemente, em entrevista a nosso colega Augusto Nunes na Rádio Jovem Pan, Jair Bolsonaro disse que se pudesse faria do filho Carlos ministro, pois foi ele que o levou à vitória no pleito presidencial. Esse é um, digamos, “mito” das redes sociais. Como “rato” do Facebook e congêneres, o senhor concorda com a assertiva do presidente e com o comportamento que ele tem adotado de governar apenas para o que prometeu a seus devotos em posts no Twitter? 

Edilson – Vamos combinar. Jair está presidente. Havia a expectativa de vir a sê-lo. Não aconteceu. Rodrigo Maia, hoje demonizado – até que merece, diante do currículo –  pelos parceiros bolsonaristas e lulistas, inimaginável, disse recentemente que o presidente precisava parar com a  brincadeira de governar. Essa resposta ao Augusto Nunes é parte dessas atividades lúdicas. Certo, sem os filhos, principalmente o Carlos, que parece o mais apegado, as brincadeiras do presidente não teriam  graça. Exceto aquela em que revela não se arrepender de quando criança ter feito xixi na cama. Carluxo ministro? Piada pronta.

Para ver vídeo de Edilson falando sobre o escritor José J. Veiga na Globosat clique aqui

N – Como jornalista veterano, embora não tanto quanto eu, o senhor encontra em sua experiência recente razões plausíveis para o tratamento que os meios de comunicação têm recebido num discurso quase monocórdio das redes sociais, passando de heróis da liberdade da expressão na luta pela democracia a abjetos instrumentos de dominação das classes dirigentes sobre a cidadania provida de computador e senha?

E – As redes sociais são dominantemente lixo. Inclusive minhas postagens. Claro, sabendo garimpar,  nenhuma revolução, até hoje, foi mais democrática, mais contundente, mais desestabilizadora. Que o digam os jornalões. Elas estão promovendo a sacralização dos idiotas, dos imbecis, elevando à condição de filósofo um contador de lorotas, transformando farsantes em celebridades. O idiota tem à mão um jornal, uma rádio, uma TV, é acessado em todo o planeta. Ele deita e rola. O “efeito manada”, antes provincial, municipal, eventualmente nacional, agora é universal. Estamos vivendo o primado da estupidez planetária. Quem quer credibilidade não vai às redes. Por óbvio.

No Xingu, em 1972, Edilson caminha na floresta com dois curumins em rara foto feita por seu amigo, o grande sertanista Cláudio Villas Boas.

N – Como profissional experiente de comunicação, a que o senhor atribui o cochilo, usando essa palavra para ser simpático, dos meios de comunicação tradicionais ao deixarem passar em branco os movimentos de rua contra a Justiça no domingo 7 de abril passado – de militantes do Lula Livre contra Polícia Federal, Ministério Público e a primeira instância da Justiça e de seus inimigos da direita no poder apedrejando as últimas instâncias do Poder Judiciário?

E – Não creio que tenha sido cochilo. Razões houve. O meio de campo está embolado, não menos a pequena área. Tem vaca desconhecendo a cria. A gravação da conversa do Joesley Batista com Temer levou o candidato do Lula ao segundo turno. Bolsonaro e parte de seus ministros, por histrionice soberba,  reabilitam as esquerdas, fornecem gás ao eleitor sem ideologia, por sinal, majoritário. Tem empresas de comunicação latindo no quintal pra economizar cachorro. Terreno minado. Mais uma reforma da Previdência nanica – FHC e Lula assim a fizeram -, o País caminhará para o caos. Porteira aberta para mais um experimento heterodoxo. Todo o cuidado é pouco, devem imaginar.

Para ver documentário de Edilson sobre Bolívia clique aqui

N – Profundo conhecedor das crendices mais imaginosas de nossos chamados povos da floresta, o senhor teria condições de nos indicar caminhos para entender essa onda de “retrotopia”, como definiu bem, dia destes, o colega Fernando Gabeira: a abominação de Darwin (adotando o criativismo), Galileu Galilei (a Terra é plana), Louis Pasteur (vacina mata), Danton e Robespierre (nazismo é de esquerda)? A que “estação Finlândia” podemos chegar com as consequências desse festival de superstições que atiçam o mundo e assolam o Brasil? 

E – Há um “efeito manada” irrompendo  no mundo da direita. A direita, assim como a esquerda, sempre foi autoritária. Temos a reeleição de Netanyahu em Israel, a eleição de Trump nos EUA, Conte na Itália, Duterte nas Filipinas, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia, Kurz na Áustria e Bolsonaro, agora, no Brasil. Esses neologismos distinguem seus criadores, mas não explicam o que está acontecendo. Bolsonaro, já foi dito milhares de vezes, é resultado da porralouquice e do deslumbramento dos comissários da esquerda brasileira. Segundo Emílio Odebrecht, Golbery o teria aconselhado a não temer Lula. O líder operário não resistiria aos encantos da burguesia. Claro, a direita mundial hoje é “atormentada” pela paranoia do multilateralismo e do marxismo cultural. A prevalência das “minorias” – gays, lésbicas, movimento negro, índios, feminismo, liberação da maconha, ideologia de gênero – terminou fornecendo sustentação para o discurso de Bolsonaro, por exemplo. No resto do mundo não foi muito diferente. “Retrotopia” e outros neologismos são a torta diária dos intelectuais brasileiros. Eles ficam todos se achando quando emplacam esses achados.

Edilson criou a primeira coluna sobre ecologia na imprensa do Sudeste, Páginas Verdes, título dado por Paulo Francis ou Jaguar Foto: Acervo pessoal

N – Peço-lhe um destaque especial para uma “retrotopia” particular do presidente Jair Bolsonaro: a negação do golpe militar de 1964 e da ditadura vigente nos anos 70 no País. Será que não dá para deixar 64 em 64, como pediu a parlamentar mais votada da História do País, Janaina Paschoal, do PSL, partido do presidente, em seu Twitter? 

E – Certo. Bolsonaro é o presidente da República. Se apoiar, de verdade, as propostas de Paulo Guedes e Sergio Moro, Bolsonaro pode até ganhar oito anos de mandato. Se devolver empregos e reduzir a violência, deve até ficar, independentemente das platitudes, bobagens, imprecisões históricas e lorotas típicas de um militar sem a formação da Escola Superior de Guerra. Mourão pode vir a ser o Golbery desse retorno dos militares. Por isso, não conta o que Bolsonaro diz. Se não der respostas às duas questões mencionadas, vai derreter.

Para ver documentário de Edilson sobre nazistas na Amazônia clique aqui

N – Em qual lutador de sumô no ringue da mal falada honra da Suprema Tolerância Nacional o senhor faz suas apostas: no goiano Jorge Kajuru ou em Gilmar Mendes, cruzado contra os que chama de “capitães do mato”?

E – Até um bêbado, na sarjeta de uma rua qualquer dos Jardins, na capital paulista, que invoque sua ira conta Gilmar ganha os aplausos da população. Kajuru não é um primor de equilíbrio, nunca foi, mas nessa refrega com Gilmar ele vira herói cultural. O ministro nos dá a impressão, tantas são suas idas e vindas, de que perdeu o norte. Desequilibrou. Já por duas vezes foi escorraçado, no plenário da Suprema Corte do País, e continuou lépido e fagueiro, como se nada tivesse acontecido. É um fenômeno.

N – Nesta era da covardia e do deixa pra lá, que esperança podemos nutrir depois do show de lucidez dado pela deputada federal pedetista paulista Tabata Amaral ao “derreter”, como você muito bem descreveu em post no Facebook, a “anta de tênis”, como seus colegas do Pasquim na época dos verões do amor definiam os idiotas, Vélez Sarsfield, ou melhor, Rodríguez, e ainda ter o topete de votar a favor da reforma da Previdência, mesmo se dizendo “progressista” (et pour cause)? 

E – Tabata Amaral significou para o País, desencantado com as  trapalhadas do novo governo – direitos humanos, educação e relações externas e tantas outras decepções –, o mesmo que nos deu a Copa do Mundo de 58. Devolveu esperanças, mostrou a existência de vozes vindas da periferia, animou o espírito do povo, reduziu nossa consciência de nação vira-latas. Morreu, passemos aos elogios, já nos disse Machado. O Pasquim é uma bela memória. Mas  Millôr e Paulo Francis foram, sim, suas duas grandes cabeças, sem querer diminuir ninguém da patota restante.

Com 400 mil exemplares vendidos, livro Nossos Índios Nossos Mortos, de Edilson, é best-seller absoluto sobre índios no Brasil. Foto: Reprodução

N – O que o autor de Nossos Índios, Nossos Mortos, bestseller do indigenismo no Brasil, acha da atual política da Funai e como, na condição de um dos melhores amigos pessoais de Chico Mendes, o senhor acompanha a trajetória de Marina Silva na política e o desempenho do ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, que chegou a confessar que nem sequer sabia quem era o líder sindical dos seringueiros do Acre?

E – Bolsonaro não tem a menor percepção do que significam esses povos em nossa formação. Ele agora quer passar um “linhão” na reserva Waimiri-Atroari sem sequer ouvir seus povos. Jamais será perdoado pela História. Esses índios representam a mais bela resistência, em toda a América do Sul e América Central, contra os crimes da dita civilização. Resistiram por mais de cem anos. No começo do século passado viviam a menos de 50 km de Manaus. Hoje estão a 400 km, empurrados pela penetração criminosa do homem branco. E não menos pela ação da PM do Amazonas, e mais recentemente, no governo Médici, do Exército. Vivem, 21 povos, num profundo respeito pelo meio ambiente, recusam a integração, e graças a eles os estragos produzidos pela hidrelétrica de Balbina, no Amazônas, foram reparados. Nossos Índios, Nossos Mortos, um dos meus oito livros, vendeu mais de 350 mil exemplares. Faz uma pequena narrativa da tragédia vivida por essas populações. Chico Mendes foi meu amigo e seu último depoimento foi a mim. Graças ao que dele registrei o mundo pôde conhecer um pouco de sua luta. Marina, a ética Marina, parece que ficou para trás.  Esse Ricardo Salles é mais uma das brincadeiras de Bolsonaro.

Edilson fez amigos na selva: Chico Mendes, Darcy Ribeiro, os irmãos Villas Boas e Apoena Meirelles. Foto: Acervo pessoal

N – Por que, a seu ver, artistas independentes, talentosas e bem-sucedidas como Nana Caymmi e Regina Duarte resolveram enfrentar seus colegas, quebrando com isso aquela condição de “unanimidade nacional” que o gênio da raça e seu colega de redação no Pasquim Millôr Fernandes atribuiu a Chico Buarque de Hollanda, sem falar no mano Caetano e na guerrilheira do axé e cuia Daniela Mercury? 

E – Não fazem parte do “efeito manada”, assim me parece. Nana é brilhante. Regina, prudente. Não é o forte dessa turma.

Para ver entrevista de Edilson na TV Cultura do Amazonas, clique no play da imagem abaixo.

B – Faça-me um favor: pergunte ao morubixaba mais sábio em atividade na Amazônia o que se deve fazer com o dr. Michel Temer, que pediu especial vênia ao juiz Marcelo Bretas, após este ter dado guarida a acusação do Ministério Público Federal sobre a possibilidade de ele ter lançado mão de R$ 96 mil só para despesas pessoais, as missangas de madame?

E – Lula preso, apesar do desconforto de parte do STF e do STJ, de diferentes corporações, e Temer na fila da cadeia são provas da vitalidade atual da democracia brasileira. Da independência dos Poderes. Até quando nunca se sabe, num país  onde as experiências democráticas são pontuadas, interrompidas, por golpes de Estado.

Entre a floresta e o asfalto, Edilson debocha : “Tem empresas de comunicação latindo no quintal pra economizar cachorro”. Foto: Acervo pessoal.

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