Os ‘parças’ de Tite
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Os ‘parças’ de Tite

O Brasil saiu da Copa porque teve um desempenho abaixo da média em toda a competição e precisa corrigir erros cometidos, pois, se continuar a tapar o sol com a peneira, não será hexa em 2022, no Catar

José Nêumanne

09 Julho 2018 | 13h35

Torcida brasileira recebeu treinador da canarinha, Tite, sem entusiasmo, mas com carinho. Foto: Fábio Motta/Estadão

O trabalho de Tite e sua comissão técnica recuperou a autoestima da seleção e da torcida brasileiras depois dos vexames de 7 a 1 para a Alemanha e 3 a 0 para a Polônia em 2014, mas só isso não apaga certas deficiências óbvias. Em primeiro lugar, porque, apesar dos vexames na semifinal e na disputa do terceiro lugar, o time chegou ao quarto lugar na Copa em casa. Com o moral recuperado, desclassificado nas quartas de final como nos vexames no México, na Itália, na Alemanha e na África do Sul, ficamos dois degraus abaixo, em sexto. Para ganhar de novo a taça na Ásia, como em 2002, o pior caminho é dar mitos aos pombos.

Urge virar pelo avesso a gestão do selecionado para aspirar a algo melhor do que se tem alcançado desde o pentacampeonato no Japão e na Coreia do Sul, superando os projetos bem-sucedidos de Alemanha em 2014 e Inglaterra, França e Bélgica nesta Copa da Rússia. Diz-se que Tite conseguiu manter o vestiário longe das trapalhadas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Com a devida vênia, essa é uma ilusão. O Brasil foi campeão na Suécia, em 1958, sob os auspícios do melhor planejamento da História. Em 1962, o bicampeonato já dependeu da força política da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD) na Fifa. Talvez não tivesse passado da fase de grupos se o pênalti cometido por Nilton Santos contra a Espanha tivesse sido marcado. Nem vencido a final contra a Checoslováquia se não sumisse a súmula do jogo contra o Chile, na semifinal, no qual Garrincha foi expulso, para evitar a suspensão do gênio. O tricampeonato no México foi obtido pelo time que talvez seja o melhor de todos os tempos, o que depois nunca mais se repetiria. A Copa dos Estados Unidos foi ganha nos pênaltis. E a campanha vitoriosa em 2002 passou por um gol legítimo anulado da, vejam só, Bélgica.

Mesmo antes de o futebol ser um dos mais lucrativos negócios do mundo e de a corrupção ter solapado o prestígio e a honra da entidade que organiza os mundiais, há sérias suspeitas de interferências alheias ao campo em vários deles. O juiz que acabou o jogo antes de a bola cabeceada por Zico chegar às redes e os donos da casa golearem o Peru mancham a primeira conquista da Argentina em casa, sob a égide de uma ditadura militar. E a honra da realeza é posta em dúvida por um gol da Inglaterra na final em que os inventores do futebol foram campeões, em 1966.

Na Copa da Rússia, ainda com ecos do noticiário de corrupção na Fifa, a nova administração da entidade trouxe novidades para pôr fim a suspeitas do gênero. A absurda não marcação de um pênalti contra a campeã Alemanha a favor da Suécia não impediu que a derrotada prosseguisse no torneio e a vencedora caísse, mas ficou evidente que mesmo a arbitragem de vídeo falha. Pode até ser coincidência, mas falhou, no mínimo, duas vezes contra o Brasil: no gol suíço no empate e no pênalti em Gabriel Jesus na derrota para a Bélgica. As justificativas da comissão de arbitragem são risíveis. Com três ex-presidentes da CBF protagonizando escândalos e o atual, Antônio Carlos Nunes de Lima, o coronel Nunes, participando de lambanças, como o voto prometido para Estados Unidos, Canadá e México e dado ao Marrocos para sediar o torneio de 2026, convém acender o sinal amarelo. Com um time meia-boca, que não teve nenhuma atuação convincente em cinco disputas, força política sempre faria muita falta.

Em segundo lugar, convém ser mais realista quando se exagera na avaliação do trabalho da comissão técnica, em especial de seu chefe. Não há técnico brasileiro melhor do que Tite no momento e talvez ainda não seja hora de contratar um estrangeiro de ponta, dos muitos que atuam na Primeira Liga Inglesa, por exemplo. Mas fato é que o treinador da seleção canarinho não é infalível, como consagra a crônica esportiva entusiasmada com a recuperação dos bons desempenhos do time depois do vexame dos dois últimos jogos da Copa em casa e do absurdo da passagem de Dunga pelo banco. O desempenho das eliminatórias na América do Sul foi espetacular, mas o Brasil passou um tempão sem perder sequer uma partida em eliminatórias. E isso enfrentando campeões tradicionalíssimos, como Argentina e Uruguai. O argumento agora se desvaloriza ainda mais diante das atuações ridículas dos representantes do continente americano na Rússia: Panamá, Peru e Costa Rica deram vexame na fase de grupos. Colômbia e Argentina caíram nas oitavas. E Uruguai e Brasil, nas quartas. Uma Copa depois de a Argentina ter sido vice no Brasil, só há times europeus nas duas semifinais. Ora, direis, mas o Brasil ganhou quase todos os amistosos. Verdade: derrotou os reservas da Alemanha, cujos titulares caíram na primeira fase, e perdeu da Argentina, derrotada nas oitavas de final. Não seria, então, muita farofa pra pouco pirão?

Nos quatro jogos iniciais, o time de Tite eliminou as medíocres seleções de Suíça, Costa Rica, Sérvia e México, uma com empate, duas na hora da morte, amém, e a quarta contra  uma equipe fraquinha e um esquema suicida de um técnico maluquinho. O brasileiro passa a impressão de que é estudioso e imparcial, mas deixou a desejar nas quartas de final. Qualquer cego de feira teria percebido o abalado estado psicológico de Fernandinho após ter marcado o primeiro gol belga com um toque de braço. Depois do lance que resultou no segundo gol, em que o mesmo jogador, que se cansou de passar bolas para a lateral ou para adversários, praticamente saiu da frente de Lukaku, permitindo-lhe lançar o craque De Bruyne, que marcou um golaço, mantê-lo em campo foi um feito de que nem Dunga seria capaz. Mas Tite manteve, o time perdeu e, depois do jogo, explicou que Fernandinho é elogiado por Pep Guardiola e “joga muito”. Nenhum dos dois argumentos justifica a permanência do volante em campo. Tite é ótimo, mas não é infalível, certo? Ninguém o é, a não ser certo argentino, mas deixa isso pra lá. Mais importante é lembrar que a Bélgica repetiu contra o Brasil a mesma jogada do segundo gol contra o Japão: de um escanteio do adversário surgiu um contra-ataque veloz, que terminou nas redes de Kawashima e de Alisson. Técnico e time não terão visto o teipe do gol belga?

Em suas entrevistas o treinador justificou os treinos físicos pesados para atender a suas exigências de excelência. OK. Só que, além de Neymar e Dani Alves, que nem foi à Rússia, terem sido entregues pelo Paris Saint-Germain sem condição de jogo, Renato Augusto e Douglas Costa também se machucaram e Danilo viu o jogo em Kazan de muletas. Além disso, Tite nunca convenceu o mais leigo torcedor de sua preferência por Fred, que voltou de Sochi sem ter uma lesão curada, não levando Arthur, e preferido Taison ao melhor jogador em ação no Brasil no momento, Luan. Fica a impressão de que Fred e Taison devem ser “parças” de Tite, como Paulinho, mantido no time apesar das péssimas atuações seguidas.

Por falar em “parça”, e Neymar, hein? O candidato brasileiro a craque da Copa jogou o torneio com o pé direito fraturado, sem ritmo de jogo e blindado, e não apenas pelos amigos que o acompanham em procissão, como se fosse um vaso de porcelana. Foi considerado o “cara do jogo” contra o México, que não lhe opôs resistência, e não furou a barreira dos fortes e altos flamengos, restando-lhe apenas passar pela zona mista sem dar uma palavra aos torcedores que o veneram. Saiu da competição depois de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, despachados de volta para casa nas oitavas de final. E resta à torcida, que o venera, fazer romaria para Aparecida pedindo a Deus que lhe dê maturidade. Aos 26 anos, bom pai de um filho, ainda é chamado de “menino” pelo coordenador técnico da seleção, Edu Gaspar, e pelo colega jogador que comenta na Globo, Caio Ribeiro. Para contribuir nesse rito de passagem para a idade adulta, o ex-volante do Corinthians poderia mostrar-lhe dois vídeos de lances da Copa: o de suas jogadas contra a Bélgica e o outro dos lances de Luka Modric, da Croácia, contra a Rússia. Num ele tentava revogar a lei da Física que determina que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. No outro o volante do Real Madrid corria pelo campo inteiro, driblando quando necessário e quase sempre tocando para fazer a bola rodar e a própria equipe evoluir. Não será fácil o croata ganhar a taça tendo de superar Kane e, depois, Mbappé ou De Bruyne. Mas nosso craque mimado bem que poderia levar a lição para os próximos desafios do time brasileiro até a Copa do Catar. E, quem sabe, ajudar a conquistar o hexa.

  • Jornalista, poeta e escritor