O terror é apenas o horror

O terror é apenas o horror

Como não tem razão, lógica nem objetivo, terror não deve ter perdão

José Nêumanne

15 de julho de 2016 | 11h37

 

Nice, o horror, horror, horror...

Nice, o horror, horror, horror…

Sexta-feira, 15 de julho de 2016 – 11h30m

Em 1890, o marinheiro polonês naturalizado britânico Jósef Konrad subiu o Rio Congo e testemunhou uma carnificina na qual metade da população local sucumbiu. Tornado o escritor cuja obra sempre justifica uma releitura prazerosa segundo outro gênio, Jorge Luís Borges, Joseph Conrad registrou seu testemunho no romance No Coração das Trevas. E deu eco ao ódio ao colonialismo. Do romance o cineasta Francis Ford Coppola extraiu o enredo de Apocalypse Now, ecoando o nojo ao imperialismo invasor. Antes disso, finda a Segunda Guerra Mundial, em Paris, dois gênios da literatura francesa, ambos ganhadores do Prêmio Nobel da Literatura, injustamente nunca concedido ao autor de Lord Jim, transformaram numa rixa uma boa amizade mantida nas mesas do café Deux Magots, em Saint-Germain-des-Près. O caolho Sartre defendia o terrorismo como arma na luta da Argélia contra o colonialismo francês. O argelino Camus cunhou a máxima de que ele não perdoaria um terrorista cuja bomba matasse aleatoriamente sua mãe numa estação de metrô argelina. E assim o terrorismo – amor ou ódio? – , dilema crucial do século 20, invadiu e dilacera o século 21.

Sartre, o pai do existencialismo, tornou-se um dos maiores ídolos do marxismo-leninismo. Mas em seu enterro gigantesco também foi sepultada a reputação de um intelectual brilhante que tinha tudo para imortalizar-se como o filósofo de O Ser e o Nada. Mas só permaneceu vivo como o escritor de As Palavras. Edição recente de textos esparsos do galã Camus mostra como o amigo que virou rival de Sartre não é mais apenas o genial romancista de O Estrangeiro, como era conhecido antes, pois quem tem razão nesta questão capital é ele, e não o outro: não há razão nenhuma na execução aleatória de civis inocentes e alheios às questões que levam um terrorista suicida a acionar fuzis, granadas ou explosivos.

O atentado contra a redação do Charlie Hebdo, a sequência de chacinas de 13 de novembro em casas noturnas da capital francesa e o caminhão que atropelou, esmagou e matou 84 pessoas na comemoração do aniversário da queda da Bastilha, em 14 de julho de 2016, expõem mais do que nunca a completa razão ética de Camus. O colonialismo não foi derrotado nas execuções aleatórias da Casbah, em Argel. O imperialismo não sucumbiu sob os escombros das Torres Gêmeas em Nova York. O terrorismo não tem causa, contém apenas ódio, preconceito, irracionalidade e uma brutalidade do qual o único animal capaz é o soi-disant racional. Um leão na floresta não promove chacinas como a do aeroporto de Istambul.

“O inferno são os outros”, definiu Sartre na peça Huis Clos (Entre Quatro Paredes), na boca do protagonista Garcin, a essência do pavor como arma. É uma ironia que Sartre não tenha entendido o próprio conceito e que Camus não tenha conseguido como o rival resumir tudo o que pensava sobre o assunto numa síntese absoluta e perfeita como esta.

O atentado de 14 de julho em Nice, à margem do “mare nostrum”, o Mediterrâneo, em cujo azul deslumbrante circularam as antigas civilizações grega e romana, ilustra à perfeição essa sentença. Não representa a vingança dos sarracenos contra os cruzados e os israelitas na luta milenar pela Terra Sagrada de Jerusalém nem o protesto contra o bloqueio à Faixa de Gaza por Israel. Alá deve estar mais chocado com a ação assassina de seus soldados da jihad do que toda a cristandade. Maomé pode até ter tornado mais difíceis de aturar seus períodos de jejum, pois não entende como em seu nome ainda se derrama tanto sangue inocente. Marx, o jornalista que bradava contra a censura na Gazeta Renana, também não concebeu nem conceberia tanta crueldade. Não há fé nem ideal que justifiquem o ataque à liberdade dos outros de pensarem como quiserem e de rezarem para a entidade em que acreditarem. Não há motivo, cálculo nem lógica.

A polícia francesa procura por algo inócuo para dizer ao bobalhão do Hollande se o atentado foi planejado ou sequer autorizado pelo Estado Islâmico. Esta é uma manifestação da tonteria generalizada, compartilhada pelos turcos, que gastam bilhões para garantir a segurança em seu território e não conseguem evitar atentados no aeroporto em que homenageiam o grande estadista Ataturk. Ou da burrice irresponsável dos responsáveis pela segurança do Rio de Janeiro durante a Olimpíada, para a qual virão os principais alvos do ódio do “novo califado”, todos representados pela elite de seus ídolos esportivos: EUA, Reino Unido, Alemanha, França, etc.

Antes de Nice por aqui se esbanjava autoconfiança. Hoje, a 21 dias da abertura, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, informou que o plano de segurança para a Olimpíada será revisado. Se der certo, será a consagração mundial do improviso e do jeitinho brasileiros. Se não der, não haverá lágrimas suficientes para chorarem a tragédia. O general acaba de descobrir o Brasil de bicicleta, como se dizia em Campina Grande na minha adolescência. Até esta semana o militar estava passando férias em Júpiter, para recepcionar a nave Juno?

Se o 14 de Julho do sanguinário Robespierre e do corrupto Danton foi violentado por um caminhoneiro lunático, não importa mais o mínimo se este foi treinado pelo Estado Islâmico ou se apenas inspirou-se no ódio que move todos os psicopatas que se recusam a conviver com as diferenças e, por isso, liquidam os indiferentes. O Brasil não é inimigo do Islã. E nossa presidente afastada, no auge de escassez de sua parca inteligência, chegou a propor na Nova York das Torres Gêmeas negociações com o califado da intolerância e da infinita capacidade de se superar em crueldade.

O que importa é que os imbecis continuam acreditando nas mesmas sandices escritas não por Maomé, mas por Sartre. Os franceses desconfiam que um terrorista brasileiro pretende atacar a delegação francesa no Rio. Quem deu bola? O militar citado acima teve o desplante de dizer que não tinha sido informado ainda pelos franceses. Assim, descobriu-se que a Abin não segue os suspeitos nem pelos jornais, como o SNI era acusado de fazer na ditadura militar. Todo mundo acredita que a irrelevância de nosso país na geopolítica global nos torna imunes à fúria terrorista. Falta-nos a consciência que Camus tinha de que a desumanidade do extermínio do outro, seja quem for, desde que não seja o próprio combatente da pátria, de Deus ou do ideal socialista, nunca tem justificativa e logo não pode ser perdoada.

O único motivo do atentado de Nice é disseminar o medo. Não adiantam as lamúrias de Hollande, a tristeza de Merkel, o estupor de miss May, a diplomática solidariedade de Obama nem a patética ignorância de madama Rousseff. O pavor está semeado. Que o medo seja, então, nossa única arma. A única capaz de mostrar que ninguém é invulnerável – nem os esquimós no Alaska nem os visitantes da bela El Calafate, na Patagônia argentina. Os peles-vermelhas das reservas americanas, os caçadores mongóis e os monges do Tibete são todos alvos eventuais da crueldade do terrorismo. Enquanto todos estes, inclusive nós, nestes tristes trópicos, não tivermos essa consciência, continuaremos sem ter nenhuma chance de defesa contra o homofóbico de Orlando, os irmãos que infernizaram a maratona de Boston para ganhar a pior das notoriedades ou os separatistas de origem russa da Ucrânia que se dão ao luxo de abater aviões comerciais em pleno voo. Ninguém está seguro em lugar nenhum deste planeta. E o inimigo não é só o terrorista em potencial, mas todo e qualquer babaca que ainda prega a tolerância com o terror por motivos ideológicos, políticos ou religiosos. Não pense a vítima que eles são inocentes só porque estão desarmados. Eles têm algo pior do que a bomba de hidrogênio: eles têm a crença de que ninguém além deles salvará o que restar do gênero humano e do planeta Terra

O terror é apenas e tão somente, aprendamos todos, por favor, o que exprime a fala de Mc Duff na cena 3 do segundo ato de Macbeth, de Shakespeare, usada por Conrad como epígrafe em No Coração das Trevas: o horror, horror, horror…

 

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