O picolé voltou…
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O picolé voltou…

Após vitória esmagadora, Doria imagina ser padrinho de seu padrinho para presidente. Será?

José Nêumanne

03 de outubro de 2016 | 16h34

Na festa da vitória, Doria lança Alckmin 18

Na festa da vitória, Doria lança Alckmin 2018

Sem a ajuda de Geraldo Alckmin, João Doria Jr. não seria candidato a prefeito pelo PSDB neste pleito paulistano de 2016. Certo! Logo, o governador do Estado de São Paulo passou a ser, desde 2 de outubro, o mais forte presidenciável do maior partido do bloco congressual da oposição durante os últimos três e meio desgovernos petistas. Errado!

Como diria Jack, o Estripador, vamos por partes. De fato, em meia dúzia de caciques tucanos paulistas só o detentor do controle da máquina partidária fazia fé na candidatura do jornalista milionário que pretendia desalojar Fernando Haddad, do PT, do palácio Matarazzo no Viaduto do Chá. O favorito do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, do ministro das Relações Exteriores, José Serra, do líder do governo Temer no Senado, Aloysio Nunes Ferreira, do ex-governador paulista Alberto Goldman e do senador José Aníbal era o vereador Andrea Matarazzo. Este disputou e perdeu a indicação. Inconformado, deixou o partido e filiou-se ao PSD de Gilberto Kassab, que fora vice de Serra e em cuja gestão o pretendente foi secretário, assim como o fora antes, na gestão do ministro e ex-governador. Depois, forçado a desistir por um acordo entre o presidente Michel Temer, que finge que não se intromete em política, mas sempre o faz, Matarazzo virou vice de Marta Suplicy, do PMDB. Ou seja, sem a ajuda do anestesista que é chamado pelos adversários de “picolé de chuchu” por sua evidente falta de charme, Doria não seria candidato. E aí se encerra a participação do governador no pleito.

Como diversos outros padrinhos aparentemente poderosos, mas sem prestígio, Alckmin foi mantido à margem na campanha vitoriosa. Não faltavam motivos para tanto. Na última pesquisa do Datafolha sobre o item “quem dá e quem tira votos de quem”, o índice de rejeição do governador (51%) não ficava muito longe do atribuído a Lula (73%) e a Temer (65%). Em dezembro do ano passado, o titular da gestão estadual também foi reprovado sem dó: 30% de ruim ou péssimo ante 28% de bom ou ótimo e 40% de regular. Um deserto, se comparado ao oásis dos 69% de aprovação quando deixou o governo do Estado para enfrentar Lula, em 2006.

Mesmo com essa aprovação enorme em casa, 2006 não traz as melhores lembranças ao político de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba do Sul. Sua vitória na convenção nacional dos tucanos parecia oferecer-lhe de mão beijada quatro anos de Palácio do Planalto pela frente. Pois o então presidente Lula tentava a reeleição em período muito adverso, bombardeado por denúncias de corrupção no célebre caso do mensalão. Dizem que o raposão político baiano Antônio Carlos Magalhães se rebelou contra os aliados que tentaram articular o impeachment do peão na presidência e vaticinou: “Vamos sangrar o porco até a eleição e ganhar dele nas urnas”. Não foi bem assim. Navegando em mares de bonança econômica, o ex-dirigente sindical derrotou o adversário duas vezes: teve mais votos no primeiro turno e, no segundo, de forma surpreendente, o outro conseguiu menos votos do que obtivera no primeiro. Com isso, foi desmentida a afirmação do único tucano que ocupou a Presidência, Fernando Henrique, que, em entrevista à Playboy, definiu Serra como melhor presidente e Alckmin como melhor candidato. Nem uma coisa nem outra: o chanceler evitou a reeleição da bem avaliada petista Marta, do PT, para a Prefeitura de São Paulo, em 2008, depois do feito negativo do correligionário, dois anos antes.

Matarazzo afundou na crise de identidade da ex-prefeita, que terminou sendo lembrada como uma das três candidatas do PT na eleição municipal, assim como Haddad e Erundina. E à exceção de Serra e Goldman, os outros figurões do tucanato voltaram ao ninho, de forma meio envergonhada, mas registrada em imagem, som e testemunho. Só que a ausência de Alckmin na campanha de “João Trabalhador” não lhe fez falta. O marinheiro de primeira viagem subiu rapidamente nas pesquisas, ganhou em 56 dos 58 distritos eleitorais da maior cidade do País e humilhou o prefeito, que não conseguiu superá-lo nem nestes, vencidos por Marta, sempre do PT.

Na festa da vitória, o filho do deputado homônimo reconheceu, com humildade inesperada, que venceu facilmente porque conseguiu encarnar como nenhum outro pretendente a bola da vez: o anti-PT. De fato, surfou numa onda que invadiu praias e sertão de norte a sul do Brasil. Foi também ajudado pela campanha mais competente da disputa e pela cretinice da esquerda, que o combateu com “Fora Temer”, que não disputava nada, e com “o impeachment sem crime é golpe”, slogan desmentido pela evidência de que não faltam crimes a imputar a Lula, Dilma, PT, aliados e equipes. A troca do sobrenome pelo prenome ajudou a identificar o empresário bem-sucedido com o povão e um jingle genial ajudou a colar essa imagem numa campanha em que faltaram santinhos e foram proibidas doações empresariais.

João ganhou a eleição e agora vai ter de governar muito bem para ficar na política e não cair nas malhas da polícia e da Justiça. Só assim fará carreira. Mas a História não registra conexões recentes entre conquistas municipais e ascensão estadual ou federal. Em 1953, Jânio Quadros foi eleito prefeito de São Paulo, governador em 1955 e presidente da República em 1960. Em 1961, renunciou e a fonte secou. Em 1985, o mesmo Jânio seria o primeiro prefeito de capital eleito desde 1966, resultante de sua renúncia (cinco anos antes), mas nunca mais foi nada mais importante. Depois dele, Luiza Erundina, em 1988, Paulo Maluf, em 1992, Celso Pitta, em 1996, e Marta Suplicy, em 2000, não galgaram a escada do poder político nem foram responsáveis pela eleição de nenhum governador ou presidente, José Serra, em 2004, inaugurou a maldição do mandato executivo interrompido: saiu da Prefeitura em 2006, após ter perdido para Lula na eleição presidencial de 2002, para conquistar o governo estadual. Perdeu a eleição municipal para Haddad e só voltou a fazer festa na vitória sobre Suplicy para o Senado, em 2014. Gilberto Kassab, em 2008, e Fernando Haddad, em 2012, não foram exceções a essa regra.

João, o azarão, surpreendeu ao alcançar a liderança e ao vencer no primeiro turno, fazendo História. Se Geraldinho de Pindamonhangaba alcançar a Presidência a partir da vitória dele, vai ser um feito que se pode associar a uma eventual administração bem-sucedida depois da pior da História. E João Trabalhador, então, será liberado para voos mais elevados.

Ao contrário do adversário que esmagou nas urnas. Com 16,7% dos votos válidos, o professor Haddad voltará ao ostracismo, de braços dados com Dilma Rousseff. Para ambos, a aposentadoria, que ela obteve furando fila, pode ser um prêmio imerecido, se se considerar que muitos de seus antigos chefes e companheiros estão presos, usando tornozeleiras ou gozando a clemência do Supremo Tribunal Federal (STF), que nunca lhes tem faltado.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 3 de outubro de 2016)