O Nobel-síntese
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O Nobel-síntese

Dylan ganhou o Nobel da cultura americana em nome de Joyce, Pound, Borges e Kerouac, que nunca o receberam

José Nêumanne

17 de outubro de 2016 | 18h44

Dylan, retrato do artista quando folk

Dylan, retrato do artista quando folk

O Prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan não foi propriamente uma novidade. Allen Ginsberg, o maior dos poetas beatnics, já o reivindicava havia um bom tempo. Portanto, quando a secretária executiva da Academia Sueca, Sara Denius, anunciou o menestrel americano como vencedor do galardão em 2016, tanto eram esperados o anúncio quanto a justificativa para ele. O motivo, como expressou a posição oficial dos premiadores, foi “ter criado novas expressões poéticas na grande tradição da canção americana”. Canção? E o que diabo tem que ver canção com literatura? Ora, direis, a letra! Será letra de música uma modalidade da poesia literária ou da música popular? Zé Rodrix, cultor do gênero e apaixonado por poesia, defendia a tradicional mescla de melodia, harmonia e palavra como a mais perfeita, por ser a mais sintética, das artes. Mas por ele não seria adotada como filha, não por ser bastarda, como imaginam os críticos, mas, ao contrário por ser a expressão mais curta, portanto, a menos imperfeita dentre todos os modos artísticos. Tudo certo, mas, se prestarmos atenção na frase da “arauta” (será que existe esta flexão de arauto? sei lá!), ou porta-voz (vocera, em castelhano), o que importa mesmo é tradição, ou seja, cultura como um todo, não literatura em geral e poesia em particular.

A maioria dos poetas que se metem com essas questiúnculas de teoria literária, entre os quais me incluo, não misturam poesia com letra de música, assim como não convém confundir Jesus Cristo com Zé Buchudo nem tomada com focinho de porco – comparações nas quais ninguém tem dúvida de quem seja o Messias ou o que se aproxima da tomada elétrica. Como Arnaldo Jabor separou naquela crônica que Rita Lee musicou e gravou, poesia é nobre e letra, popular. Ou meu amigo, meu irmão, meu mestre Ivan Junqueira, que citava T. S. Eliot, que só admitia uma melodia apropriada para a autêntica poesia, o silêncio da “auditory imagination”. Tradutor de Waste Land para nossa última flor do Lácio, inculta e bela, o poeta sabia do que falava. E acrescentava que à poesia cabe “purifier les mots de la tribu” (purificar as palavras da tribo), como resumia Mallarmé.

Mais pajé da palavra do que Dylan, contudo, em minha imodesta leitura de ambos, seria o canadense Leonard Cohen, poeta aclamado nas academias antes de se tornar um cantautor como Dylan, que, aliás, foi seu patrono inspirador. Agora mesmo, quando o profeta das canções folk de protesto político e social recebeu o maior dos galardões da literatura no planeta, o próprio Dylan não disse nada. Nem sequer se dignou atender ao telefonema da Academia dando-lhe a notícia. Mas Cohen não se recusou a elogiar: “É como se se desse o prêmio de montanha mais alta ao Everest”.

Uau! O fato é que o judeu que foi apóstata, mas também se converteu ao cristianismo antes de voltar ao seio de Javé, não merece o Nobel pela poesia liberta de formas e charme na prosa livre de Tarantula nem pelos textos endiabrados de Crônicas. Muito menos pelas melhores letras que um roqueiro jamais produziu. Foi, sim, pela mistura de tudo. Talvez seu Robert Allen Zimermann não tenha comemorado o laurel no palco em Las Vegas onde se apresentou feliz como nunca e abusado como sempre e tenha dado uma canseira aos premiadores até dizer se se dignava recebê-lo, como Camus, ou nrm ir a Estocolmo, como Sartre. Afinal, o cara sabe que não foi propriamente sua obra pessoal que o fez merecedor da láurea. Mas o fato de ser a melhor tradução da imensa e prolífica, profusa em margens, ribanceiras e galhos, com muito passado e mais futuro ainda cultura americana. Nele gemem os spirituals das plantations do Sul, os gritos de protesto de Woody Guthrie, seu ídolo de adolescência, as viagens sem destino dos peregrinos da geração beat e os guitarreiros do blues, do gospel e do rock and roll. Nada do que seja americano lhe é estranho.

Há, é claro, inúmeras referências literárias em suas canções. A primeira delas, que ouvi anos a fio desde que a conheci em Campina Grande na casa de Nicó Barros, na rua de nosso ponto de encontro, o Colégio Estadual da Prata, e a ouço ainda hoje por tempos sem fim amém nos congestionamentos de São Paulo, é a joia Desolation Row. Ela será o barco à deriva em que seguiremos Mississippi abaixo para conhecer o premiado. A canção tem que ver com o Nobel porque se inspira em Cannery Row (Beco de Lata), título de uma obra-prima sobre a desgraceira da Grande Depressão dos Estados Unidos, escrita por John Steinbeck, Prêmio Nobel de 1962. E em Desolation Angels (Anjos da Desolação), de Jack Kerouac, que merecia muito ser agraciado, mas nunca foi e agora o está sendo na pessoa do peregrino que, no fundo, sempre viveu na carona de um trem de carga pelos ermos de seu país afora.

Aliás, é bom que se diga, Desolation Row faz parte do relicário dos grandes momentos do ano da graça de 1965, em que os Beatles lançaram o ponta de lança Revolver e Dylan, os dois melhores álbuns de sua carreira, Highway 61 Revisited e Bringing it All Back Home. Desolation Row, com 12 minutos de duração, preparou os ouvidos do Village, em Nova York, para onde ele se mudara, vindo do interior, como o cearense Belchior, para o feito de desafiar o império da canção de curta duração com Like a Rolling Stone, maior sucesso de sua vida, com 6 minutos de audição, quase o dobro dos 3 minutos e meio além dos quais as paradas de sucesso não aceitavam nada de ninguém à época. Mais do que tudo, a letra quilométrica de Desolation, a maior e melhor da história do rock, insistente e recorrentemente acompanhada por um violão acústico e uma gaita, foi a mais desvairada narrativa da história da crítica literária musicada. Nela T. S. Eliot – americano britanizado, falecido em Londres em janeiro do ano em que foram lançados os dois LPs do compositor que venerava seus versos clássicos, 1965, e ganhador do Nobel de 1948 – via da torre de comando do navio surreal inventado dançarinas de vaudeville popular dançando. A seu lado, Ezra Pound, que, embora nunca tenha sido laureado, é considerado pela vanguarda a que Dylan se engajou nos anos 60 (a turma de Moriarty e Ferlinghetti) um inventor e recriador poético mais fértil e muito mais irreverente do que o outro. Pound morreu em Veneza, na Itália, para onde fora para exercer sua militância fascista na pátria de Benito Mussolini.

Em Desolation Row Bob, que adotou o nome do poeta galês Dylan Thomas como sobrenome artístico, fez um roteiro que encontra o diabo em muitas encruzilhadas, às vezes contraditórias, como a poesia e a teoria de Pound (cujo sobrenome, para cúmulo da coincidência, é sinônimo da moeda inglesa). Lá pelos meus 15 anos, quando conheci a canção, importada diretamente por Bené, engenheiro irmão de Nicó e que tinha estudado na América do Norte, associava-a ao meu filme predileto em todos os tempos, Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz), de Luís Buñuel, com o auxílio luxuoso de Salvador Dalí e Federico García Lorca.

Meio século depois, ouço nela, mais do que tudo, a única conjunção possível da cacofonia multilíngue de James Joyce, que eu lia enquanto a ouvia no quarto dos fundos da casa dos meus pais, em Campina, com a sacanagem terna e escrota de Jorge Luis Borges em sua perene enganação. Enquanto o irlandês criou uma soma de todas as línguas para escrever Finnegans Wake, que minha ignorância nunca me permitiu ler, Borges usava o castelhano que aprendeu com a mãe, depois de falar fluentemente o inglês, ensinado pela avó, para mentir descaradamente. Em obras como História Universal da Infâmia, quando fingia citar, criava. Quando fazia de conta, estava citando seriamente. Joyce e Borges, a meu ver, foram as duas vertentes da literatura universal do futuro. Pois o judeuzinho do Minesota permitiu que pela maior e melhor letra dele os suecos resgatassem ambos da injustiça de nunca terem recebido um Prêmio Nobel: o dublinense, por descuido; o portenho, por implicância.

Como Pound e Kerouac, Borges e Joyce, afinal, ganharam o Prêmio Nobel de Literatura, neste ano de 2016, na voz que cantou na manifestação em que Martin Luther King fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, em 1963. E pelo judeu evangélico, folclórico e roqueiro que, antes do Nobel, ganhou Grammy, Oscar, Pulitzer e até o Príncipe de Astúrias, para literatos em espanhol. Dylan é cultura americana como ela é, de muitas literaturas e canções que se transformam na arte de distorcer palavras em peças para superar a angústia e o desespero e encantar corações e multidões.

Jornalista, poeta e escritor

Ouça no Blog do Nêumanne quatro canções do Nobel

 

Veja aqui Dylan e Baez na Marcha de King, em 1963