A taça de fel dos traídos
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A taça de fel dos traídos

Cunha combinou tudo com os russos, mas perdeu a semifinal da cassação porque não contou com traição

José Nêumanne

15 de junho de 2016 | 17h44

Minerva/Atena, arte, sabedoria e justiça

Minerva/Atena, arte, sabedoria e justiça

Quarta-feira 15 de junho de 2016

Depois da derrota contra o Uruguai na final da Copa de 1950 em casa, o Maracanazo, em que era favorito absoluto, e do vexame da briga do jogo contra a Hungria, em que o treinador Zezé Moreira foi acusado de jogar uma chuteira em Puskas na Copa de 1954, o Brasil não chegou à Suécia com pinta de campeão em 1958. Para complicar, caiu no grupo da União Soviética, que, de acordo com os especialistas, usava a alta tecnologia que lhes permitia voar na órbita da Terra para marcar os jogadores adversários e gols planejados com precisão matemática. O folclore do futebol registra o caso, quase certamente mais anedótico do que documental, no qual, em determinado momento da preleção, o técnico Vicente Feola, diante de um tosco quadro negro, ensinou com voz baixa e calma:

– Zito toma a bola do sueco aqui – começou, desenhando um círculo de giz no meio do campo imaginário – e depois entrega a Didi, que estica pra Garrincha, que dribla o marcador, vai à linha de fundo e cruza pra Vavá fazer o gol.

– Seu Feola, me desculpe perguntar, mas o senhor combinou isso com os russos?

Dificilmente o caso foi um fato. Mas a expressão pegou e passou a ser usada em todas as atividades humanas, inclusive na política. Sempre que algum plano não dá certo, aparece um gaiato para comentar:

– Esqueceram-se de combinar com os russos.

Eduardo Cunha não se esqueceu. Planejou cuidadosamente sua resistência à avalanche de depoimentos, delações, documentos e provas contundentes que lhe indicavam o caminho do cadafalso no Conselho de Ética da Câmara, e nunca contou com nada menos do que o triunfo final. Com sua habilidade em prorrogar prazos e cancelar sessões, recorrendo ao regimento interno da Casa, que conhece sobejamente, além de contar com a ignorância sesquipedal dos desafetos e adversários em qualquer atividade que exija leitura e disciplina, esticou o julgamento na primeira instância o quanto pôde: 225 dias. Mas, na partida semifinal, perdeu. E por um placar inesperado: por 11 a 9 o relatório de Marcos Rogério, recomendando a cassação de seu mandato em próxima votação no plenário, foi aprovado, contrariando um cenário favorável e até o mais desfavorável.

O primeiro cenário previa 11 votos contra o relatório que o desfavorecia contra 9 de seus adversários. Mas na sessão anterior a deputada Tia Eron, colocada na undécima hora no lugar de um apoiador hesitante, e seduzida no derradeiro segundo pela lógica implacável do relator, ficou o tempo todo escondida no gabinete da liderança de seu partido, obediente ao bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus e presente no governo provisório de Michel Temer na pessoa do advogado Marcos Pereira, ministro da Indústria e Comércio.

Quando Tia Eron ressurgiu das sombras, emergiu também a hipótese possível, embora improvável, de uma dissidência. Daria empate: 10 a 10. Mas a deusa Minerva, correspondente romana à grega Atena, da sabedoria e das artes, seria convocada a resolver a dúvida. O voto dito de Minerva do presidente, José Carlos Araújo, devoto seguidor de Jaques Wagner, o Finório Jaquinho, anspeçada baiano de Dilma no Planalto e no Alvorada, empurraria Cara de Cunha para a barca de Caronte rumo à morte política. Ou seja, a coisa não ficou boa para o deputado e presidente afastado da Câmara. Mas podia piorar. E como piorou!

Depois que se soube, enfim, que Tia Eron votaria mesmo contra as pretensões de permanência do soba, outro dissidente dos fiéis escudeiros de Cunha, Wladimir Costa, roeu a corda e virou o placar. Com isso, tornou desnecessária a tomada de posição do presidente do Conselho e dispensou arte, sabedoria e senso de Justiça de Minerva/Atena. Foram 9 a 11 votos.

Foi então na terça-feira, 14 de junho de 2016, que tivemos mais um exemplo de que quem disputa uma peleja qualquer no esporte, na política ou no dia a dia da vida corriqueira, ninguém assegura previamente o triunfo, por mais que tenha deixado tudo acertado com os russos. Convém lembrar, afinal, que, no jogo jogado há 58 anos, tiveram sua técnica infalível desmanchada pelos dribles de Mané. Não há ciência exata que resista incólume à inexata natureza humana. Se fosse mais precavido, o deputado fluminense poderia ter dado uma espiadinha no Palácio do Planalto desocupado por sua desafeta Dilma. Eleita apenas e exclusivamente pelo prestígio do criador, o padim Lula, essa afilhada desnaturada fez ouvidos de mercador às evidências de que o chefe queria o trono de volta em 2014. Mas ela terminou por explodir o pedalinho, que está prestes a afundar no lago. Jura Arnaldo Jabor que Lula escolheu o poste improvável por causa do gênero. “Mulher não trai”, teria dito o até então tido como infalível ex-líder sindical, esquecendo-se de que em toda traição conjugal de casais heterossexuais, macho e fêmea compartilham a mesma traição. Tal descuido pode lhe estar valendo um futuro doloroso. Assim como o de Cunha. Pois lições como esses regimentos das Casas de Leis não ministram. Se a criatura pode trair o criador, por que a prosélita não trairia o pastor?

As raposas felpudas do velho PSD de Juscelino e Tancredo cultivavam a sabedoria, a justiça e a arte de só darem início a negociações depois que o negócio já estava acertado. A sensata decisão era ditada pela precaução de evitar aquela coceirinha danada que sempre acomete o fiel levando-o a pecar enganando um senhor para servir a outro em hora de orar ou de votar. Tia Eron ligou a ignição, chamando os machos à fala e se tornando a heroína de cinco segundos de iconoclastas como Júlio Delgado, que comemorou seu voto como se fosse um gol que o Brasil não fez no Peru em Boston domingo passado.

Quis o destino que Cunha e Dunga mergulhassem no mar das lamentações até o pré-sal, bebendo, depois da fortuna certa, numa taça que não é troféu o licor de fel dos traídos.

 

 

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