O jagunço e o bacharel
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O jagunço e o bacharel

Na abertura do ano cultural da ABL e do ciclo de palestras sobre "ligações singulares" entre Machado de Assis e Guimarães Rosa, palestra de Nêumanne

José Nêumanne

07 Março 2018 | 18h54

José Nêumanne Pinto na mesa ao lado dos acadêmicos Marco Lucchese e Carlos Nejar. Foto: Isabel de Castro Pinto

Texto de minha palestra que abriu o ano cultural da Academia Brasileira de Letras e o ciclo de conferências sobre Guimarães Rosa, organizado pelo poeta e acadêmico Carlos Nejar, em sessão presidida pelo presidente da ABL, Marco Lucchese e que contou com a presença de vários acadêmicos, entre os quais Ana Maria Machado, responsável por esses cursos, no Teatro Raimundo Magalhães Júnior, na sede da Casa de Machado. A palestra foi transmitida ao vivo e poderá ser vista no vídeo que circulará a partir de segunda-feira no portal da ABL: www.academia.org.br .

O jagunço e o bacharel

 

Machado de Assis e Guimarães Rosa:

ligações singulares

 

Academia Brasileira de Letras – 6 de março de 2018

 

Quando Deonísio da Silva, espécie de Indiana Jones na caça à origem das palavras, me avisou que o poeta Carlos Nejar queria  me incluir na programação de seminário sobre Guimarães Rosa, tremi nas bases. E mais ainda: abrindo o ano desta Casa de Machado de Assis. Que desafio para esse cangaceiro das palavras, sem formação acadêmica para me escudar nem leitura recente em que me apoiar, ao discorrer sobre o percurso daquele jagunço das letras!  Contudo, não sou de fugir de desafios, e não me abalei com a segunda parte da proposta: teria de fazer uma conexão – provável, porém pouco estudada – entre o gênio de Cordisburgo e o bruxo do Cosme Velho. Aí, danou-se! Mas me dispus a navegar nas carrancas do Velho Chico e a viajar de carruagem nas priscas eras da República entre a rua Matacavalos e a praia do Flamengo.

Como diria meu avô Chico Ferreira, que diacho podia haver que identificasse o amanuense que fundou a Academia Brasileira de Letras com o diplomata e ex-médico fulminado por um infarto horas após tomar posse nesta venerável instituição cultural que reúne intelectuais e notáveis? Muito amiga de minha mulher, Isabel, aqui presente, e minha, a professora Márcia Lígia Guidin, cuja tese de doutorado na USP versa  sobre Machado, sugeriu-me que abordasse dois dos principais relatos dos gênios da literatura pelo que têm em comum. Duas de suas obras-primas, Dom Casmurro e Grande Sertão:Veredas, são relatos de velhos saudosos de episódios do passado, protagonizados pelas duas mais sedutoras mulheres da literatura nacional em todos os tempos: Capitolina,  no formoso e frenético burgo de São Sebastião do Rio de Janeiro, ex-Corte do Império e capital da República Velha, e Deodorina, nos ermos e ignotos sertões ditos dos Gerais às margens do Velho Chico e seus afluentes. Os episódios, ocorridos no século 19, presumivelmente ainda no Segundo Império, são narrados por velhos que viveram amores mal resolvidos com as damas citadas, que se tornaram as verdadeiras protagonistas, conhecidas tempos afora pelos apelidos familiares:  Capitu e Diadorim.

Aprendi desde cedo que quem tem amigo não morre pagão. Recorri à cultura inesgotável dos leitores obsessivos José Mario Pereira e Christine Ajuz e eles prontamente me socorreram. Outro leal amigo, Maurício Melo Júnior, que acaba de lançar um romance e tem obra biográfica de destaque no campo do documentário sobre grandes escritores no canal de TV do Senado Federal, citou-me a coincidência notória de que o bruxo do Cosme Velho e o filho de Cordisburgo (a cidade do coração) publicaram contos com o mesmo e significativo título – O Espelho –, o primeiro em Papéis Avulsos, o segundo em Primeiras Estórias. Em comum entre os dois, porém, apenas o tema e o título. Machado escreveu uma novela de realismo mágico avant-la-lettre. E Rosa aventurou-se por digressões psicanalíticas, como se abordasse um assunto mais científico do que ficcional.

Disposto a evitar o naufrágio de minha alocução e o tédio de meu público, eu não poderia apelar para a memória, cada vez mais escassa nesta idade em que tenho, se não alcançado, pelo menos me aproximado da dos narradores paralelos no momento em que resolveram dividir suas experiências e aventuras, no caso de Machado, com o distinto público leitor urbano da Corte e, no de Rosa, com o anônimo e silente ouvinte que passou três noites do sertão escutando, certamente com encantamento, embora não registrado nem relatado.

Prestes a completar 67 anos – se Deus, Nosso Senhor, me permitir comemorar o próximo aniversário, em maio – não podia contar com o socorro da memória de minhas leituras juvenis dos dois clássicos. Lembro-me que os li aos 14 anos, portanto há 52 distantíssimos carnavais, num quarto no quintal da casa de meus pais, no centro de Campina Grande, Paraíba, onde cursava o científico no Colégio Estadual da Prata. Adquiri-os, ambos, na Livraria Pedrosa, cujo dono, José Pedrosa, se dava ao luxo de importar da Alemanha livros para um freguês de escol, o saudoso acadêmico Ariano Suassuna. Primeiramente, devo ter lido a saga de Bento, o bacharel, que chegou à senectude, anunciada ao leitor incauto, carregando o significativo apelido infantil de Bentinho, o que não deixa de sugerir que jamais atingiria o que chamamos de maturidade. Somente depois de algum tempo, não muito longo, me deixei levar pela viagem, ou melhor, pela travessia de Riobaldo por veredas, rios e vilarejos do interior mais ermo, entre o sul da Bahia e sua cidade natal.

É claro que me apaixonei perdidamente por Capitu, mas isso não foi algo que pudesse considerar de muita relevância na minha pré-adolescência de leitor ativo, atento e deslumbrado. Afinal, o caso de identificação mais apaixonante que vivi nos meus 14 anos não foi com nenhum personagem feminino, mas com um jovem de minha mesma faixa etária à época: Werther, de Goethe. Foi tão fulminante que cheguei a considerar a hipótese de cometer suicídio, o que, como se sabe, acometeu muitos meninos de minha idade, em “Oropa, França e Bahia”. Mas isso não interessa agora. O que importa é que me deixei levar pelos devaneios, primeiro com Capitu e depois com Diadorim, apesar dos relatos abertamente opostos a respeito das duas: a adoração que virou desprezo do bacharel Bento Bentinho e a veneração ampliada com o distanciamento dos fatos narrados pelo jagunço RiobaldoTatarana Urutu-Branco sobre o mais que amigo que conheceu na infância como Reinaldo, depois transformado no companheiro Diadorim em vários bandos de jagunços aos quais a dupla pertenceu.

Desde que li Dom Casmurro, há 52 anos, não me lembro de haver voltado ao clássico de Joaquim Maria, muito embora tenha guardado todos os momentos de genialidade que o autor carioca produziu, como a progressiva descrição dos olhos de ressaca até a veneração pela forma de seus braços desnudos nos bailes que frequentava. Durante todo o enlevo do narrador pela protagonista, que ocupa pelo menos dois terços do livro, apesar de não ter em nenhum momento se referido a uma formosura que a tornasse uma Tônia Carrero do século 19, são feitas várias referências aos olhos de Capitu, tema que virou uma espécie de coqueluche para os leitores. É o caso do capítulo 32, Olhos de ressaca, no qual Bento Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

 

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”.

 

É impossível ler essa descrição sem ser assaltado pelo êxtase causado pela emoção provocada pela beleza da narrativa, pela elegância do estilo e pela veneração do autor por nossa língua portuguesa. Do capítulo específico sobre os braços, extraí alguns parágrafos que lerei para nosso deleite:

 

“De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que… Os braços merecem um período.

Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore, donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou logo comigo.

— Sanchinha também não vai, ou irá de mangas compridas; o contrário parece-me indecente.

— Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos seminaristas. Capitu já me chamou assim.

Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio vestidos de escomilha ou não sei quê, que nem cobria nem descobria inteiramente, como o cendal de Camões”.

 

A citação deste trecho permite-me chamar-lhes a atenção para o ciúme doentio que foi tomando conta da narração, de forma sibilina e também exaltada, injetado pelo autor no pleno domínio de seu ofício.

Li, é claro, todo o Machado, e nada dos seus escritos românticos de juventude me marcou muito. Para cúmulo do que podem considerar absolutamente fora de esquadro, também guardo lembrança viva da leitura fascinada das obras da maturidade, particularmente Memorial de Aires, que ficou registrado em minha memória abalada pela vechiaia como o livro que eu gostaria de ter escrito, embora muitos críticos percebam em seu texto certo desleixo de velho distraído. No entanto, não foi este, nem Dom Casmurro, diga-se de passagem, que entrou na minha escassa obra de ficcionista, e sim Memória Póstumas de Brás Cubas. O antigo respeito que tinha pelo velho Aires terminou se transferindo para o memorialista post-mortem que inspirou meu romance O silêncio do delator, que em 2005 mereceu desta casa o prêmio Senador José Ermírio de Moraes como melhor livro de 2004, o primeiro romance a receber este prêmio, do qual muito me orgulho. À presença de Machado foi acrescentada a influência de Fazes-meFalta, da portuguesa Inês Pedrosa, narrativa em que a primeira pessoa estava sendo velada, e não já sepultada, como no caso de Brás Cubas.

Não me arriscaria a tanto, mas talvez Dom Casmurro, como, de resto, a obra inteira de Machado, possa ter em comum com a de Rosa certa referência aos deslocamentos, no caos urbano, de seus personagens. Se Xavier de Maistre intitulou sua obra Viagem em redor de meu quarto, por que não poderíamos designar a obra maior de Machado como pequenas viagens em torno de sua cidade natal? Tomo a liberdade de recorrer a esse expediente após fazer uma observação sobre algo notável do livro. Machado, como o alemão Karl May – autor de minha predileção durante minha pré-adolescência no Instituto Redentorista Santos Anjos, um seminário em Bodocongó, bairro de Campina Grande – nunca precisou sair da cidade onde nasceu para criar sua fabulação fantasiosa. May, de cujas obras compartilho similar à de nossa querida Nelida Piñon, conforme ela mesma relatou recentemente, descreveu aventuras fabulosas em selvas norte-americanas e paragens desérticas da Arábia. Machado era tão fiel ao Rio de Janeiro que desprezou os anos passados por seu narrador bacharel nas arcadas do convento de São Francisco, em São Paulo, limitando a descrição mais detalhada de sua formação escolar aos anos de seminário, e só voltando à narrativa já com diploma de Direito em punho no Rio. Ao acompanhar neste fim de semana o sucesso da branquela paulistana Rita Lee Jones ao cantar Valsa de uma Cidade, composta em homenagem ao Rio pelo paraense Ismael Netto, fundador do grupo vocal Os Cariocas, e o pernambucano Antônio Maria, tive ímpetos de falar desse amor que todos nós, forasteiros, sentimos, como ela o fez entoando “gosto de quem gosta deste mar, deste céu, desta gente feliz”. Machado é um dos mais razoáveis motivos para se amar a cidade em que ele nasceu e sobre a qual apoiou sua obra inteira. Aprendi a amar o Rio lendo Machado.

Peço licença a este paciente público para chamar atenção para mais essa similitude entre a cena urbana da Corte que virou capital da República no século 19 e o sertão de então e de hoje. O menino Bentinho, como sabemos, passou a infância atormentado por seu destino traçado pela promessa da mãe de fazê-lo padre. Nos primeiros anos de minha vida, conheci muitos meninos que cumpriram esse desatino de promessas paternas, sobretudo maternas, ou pela necessidade que as famílias de posse sentiam-se obrigadas a ter um prelado na intimidade doméstica. Dizia-se que qualquer lar de respeito deveria abrigar, pelo menos, um padre, um bacharel e, no caso de meu sertão natal, um funcionário do Banco do Brasil. Não foi o meu caso. Como Bentinho, fui seminarista, mas por outros motivos, que peço vênia para descrever. Nasci na casa de meu avô, no alto sertão, e cursei o primário no Grupo Escolar Professora Jovelina Gomes, num vilarejo que virou cidade e se chamava Belém do Arrojado, antes de, por decisão ditatorial do Estado Novo, ter adotado a denominação indígena de Uiraúna, pássaro preto em tupi. A única biblioteca existente era zelosamente guardada pelo vigário local, Cônego Antônio Anacleto, numa estante com portas de vidro, cujas chaves ficavam guardadas no bolso de sua batina. Minha mãe frequentava aquelas obras, em sua quase totalidade hagiográficas, e lá encontrou o nome com que me batizaria. Pediu que meu pai me registrasse como José Newman, em homenagem ao cardeal britânico John Henry Newman, convertido do anglicanismo para o catolicismo já em idade provecta, admiradíssimo por Gilberto Freyre, e recentemente canonizado por João Paulo II, talvez considerando o fato de ter sido um dos maiores oradores sacros em língua inglesa na passagem do século 19 para o 20. Minha mãe ficou de resguardo em casa, e meu pai, José de Anchieta Pinto, foi ao cartório providenciar o registro civil. Como resultado do desconhecimento dele e da tabeliã, Chiquinha Figueiredo, do idioma inglês, tenho, desde então, a obrigação de soletrar meu nome quase alemão aonde quer que vá.

Ao contrário de Bentinho, não fui seminarista por imposição ou promessa familiar, mas por vontade própria. E abandonei a carreira eclesiástica sem sequer ter ingressado no seminário maior. De qualquer maneira, posso testemunhar que no sertão de Riobaldo, assim como no burgo de Bentinho, o ensino religioso era, à época das narrativas comparadas, a saída encontrada por muitos jovens para suprir as carências educacionais de seus lugares de origem. Em relação a Dom Casmurro, chamo atenção para o fato de o narrador ter sido forçado a deixar a Corte para cursar leis em São Paulo de Piratininga, mas nem por isso Machado encontrou nesse périplo qualquer coisa de relevante para relatar.

Deixei a casa paterna no sertão aos 10 anos de idade e só tenho ido lá esporadicamente. Mas sou capaz de apostar que até hoje, no Semiárido nordestino como nos Gerais, deve haver jovens que migram para instituições de ensino religiosas para alcançar graus mais elevados de instrução. Isso, para conforto de vocês, nos leva de volta à saga de Riobaldo e Diadorim.

Minha relação com a obra magistral de Rosa foi mais permanente do que a que mantive com a de Machado, mas também mais casual. O exemplar de Grande Sertão: Veredas esteve sempre à mão, pois costumava lê-lo como o faço com poesia e com a Bíblia. Nunca li uma obra poética do começo ao fim, mas escolhendo aleatoriamente os poemas a serem lidos. Da mesma forma, ex-seminarista, li a Bíblia livro a livro, sem ordem predeterminada. Com o clássico de Rosa fiz o mesmo ao longo desse meio século de contato: abria ao acaso uma página e lia o que estava à minha frente. Lembro-me de ter tido acesso a magníficas obras de arte que têm como origem o escritor que desde então passei a chamar de Joca de Cordisburgo, tão íntimo me sentia da obra dele. Assim foi com a minissérie da Globo com Bruna Lombardi e Tony Ramos; algumas gravações do Fantástico com Lima Duarte; o clássico de Roberto Santos, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o filme Noites do Sertão, de Carlos Alberto Prates Corrêa, a pretensiosa e decepcioinante e fraquinha adaptação cineatográfica de Grande Sertão: Veredas por Geraldo Santos Pereira, e, sobretudo, dois momentos capitais do teatro brasileiro e mundial: Meu Tio o Iaueretê e, acima de todos, Vau da Sarapalha, dirigido por Luis Carlos Vasconcelos, da Escola de Teatro Piolim, de João Pessoa, certamente um dos mais altos momentos de encenação teatral que pude testemunhar em minha vida.

Mas é claro que todo esse trajeto não bastava para me levar a algumas conclusões que lhes trago agora. Tinha de reler os dois clássicos para enfrentar esta plateia. A respeito desta decisão, gostaria de lhes contar uma anedota interessante. Eu trabalhava no Jornal do Brasil e fui a Buenos Aires cobrir o julgamento dos militares. Na ocasião, fui recebido pelo genial poeta e prosador argentino Jorge Luis Borges, que me disse, e eu publiquei em reportagem de capa do Caderno B: “Ler é uma atividade muito pouco inteligente, pois a imprensa é uma das mais malignas invenções da humanidade. Imprime-se muita porcaria em papel. Hoje não existe mais a seletividade de antigamente com os copistas que cuidavam dos textos em papiros, manuscritos e palimpsestos. O prelo é uma praga. O mais inteligente é reler, porque só relemos aquilo de que gostamos”.

Nessa tarefa de releitura, comprei uma edição recente e muito boa de Dom Casmurro, lançada pela Penguin/Conpanhia das Letras, dirigida pelo colega Matinas Suzuki. A introdução do professor Luís Augusto Fischer é um verdadeiro vade-mecum da fortuna crítica do romance mais comentado e criticado da literatura brasileira. Ao deparar com os nomes citados por ele, percebi que a aventura de abarcar essa fortuna crítica seria mais penosa do que o destino de Capitu depois da conclusão a que chegou Bentinho de que ela o traíra com Escobar, resultando no “fruto podre” que o levou a proferir uma das piores imprecações do histórico da relação entre pai e filho: a de que não lamentava os gastos com seu enterro, por compará-los com o alívio representado pela ausência de um bastardo, já que este só reproduzia sua vergonha de marido traído pela amada de infância com o amigo que mais respeitava, e pelo qual tinha um afeto incomum. Essa aventura seria tanto mais dificultosa pela evidência de que grandes exegetas de Machado, como não poderia deixar de ser, ocuparam ou ocupam cadeiras neste plenário, ou pertencem ao panteão da crítica literária nacional: Sílvio Romero (que foi contra), Antonio Cândido, Lúcia Miguel Pereira, Alfredo Bosi, Raimundo Magalhães Júnior, que dá nome a este auditório, Elen Caldwell, Roberto Schwarz, John Gledson, Silviano Santiago, Hélio de Seixas Guimarães, Raymundo Faoro, Otto Lara Resende, Richard Miscolci e tantos outros. Ana Maria Machado chegou a escrever uma versão do entrecho à luz de Capitu. E Antônio Carlos Secchin, num conto curto, propôs uma terceira hipótese.

A questão do adultério de Capitu preencheu páginas e páginas desde 1899, e, embora o crítico José Veríssimo a tenha negado peremptoriamente já em 1900, continua em debate fragoroso; o último petardo crítico foi disparado por Dalton Trevisan, convicto de que ela traíra, sim, e não se fala mais nisso. Não vou querer eu agora tentar decepá-la com um golpe como Alexandre o Grande fez com o nó górdio. Não vim aqui para entrar na liça, mas para sugerir, parodiando a frase de Abelardo Barbosa, Chacrinha, o Velho Guerreiro. De qualquer maneira, não posso deixar de acrescentar uma colher de puro fel de meu amigo Jacob Pinheiro Goldberg, advogado e psicólogo, que exaltou a genialidade de Machado ao incutir no narrador indignado uma desconfiança que povoa o imaginário masculino brasileiro: todo homem acha que foi, é ou virá a ser traído. Acrescento ao maldoso diagnóstico de Jacob uma observação extraída da leitura mais recente do livro máximo de Machado: o autor salpicou toda a estória do narrador (e faço questão de reforçar o e no lugar do hi no início da palavra) com um dos vários episódios de sua imaginação farta e falsa.

No capítulo 29, O Imperador, ele descreve:

 

“Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma ideia fantástica, a ideia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta ideia a Capitu. Sua Majestade pedindo, mamãe cede, pensei comigo.

Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, a esperar, até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: O Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será? A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, — não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos, — pedia a minha mãe que me não fizesse padre, — e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.”

— A Medicina, — por que lhe não manda ensinar Medicina?

— Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade…

— Mande ensinar-lhe Medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A Medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las, vencê-1as… A senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si… É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

— Mamãe querendo…

— Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de assombro; o Imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: A Medicina, a nossa Escola. E o coche partia entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.

 

O gênio de Machado também incluiu na história um personagem de alta relevância, o agregado José Dias – que podia ser intrigante ou bajulador, dependendo da circunstância – e este cultivava o vício de reforçar seus argumentos com o uso exagerado dos aumentativos. Não é de estranhar que, convivendo com essa figura, Bentinho se tornasse, ele mesmo, um narrador exagerado, e assim não seria gratuito incluir a questão do adultério da mulher nesse vício retórico aumentativo.

Uma aventura pelo território da crítica publicada ou falada também poderia ser mais fatal do que os tiroteios em que Riobaldo e Diadorim se envolviam contra e a favor de Zé Bebelo, principalmente os que empreenderam perseguindo Hermógenes, o assassino de Joca Ramiro, espécie de heterônimo de Joca de Cordisburgo e pai de Diadorim. Por isso, reli Grande Sertão: Veredas em voz alta para Isabel, jeito diferente do silêncio com que o li pela primeira vez, como agora o fiz no caso da releitura de Dom Casmurro. A leitura falada me propiciou uma abordagem nova da linguagem de Rosa, que eu tentarei resumir, não tanto para surpreendê-los, encantá-los ou informá-los, e sim, muito mais, para lançar algumas inquietações de leitor sobre a possibilidade de preservar o legado canônico da língua de Camões e Eça em terras de Machado e Rosa, cujas obras-primas, como definiu um colega de ofício que também pertenceu a essa Academia, Antônio Callado, compõem em paralelo o díptico que mostra, de um lado o Brasil  profundo do sertão e, do outro, o país urbano, paradoxo quem desde então, está sempre a nos desafiar.

Vim morar no Rio em 1969 e meu primeiro emprego aqui foi na Editorial Bruguera, na Rua Filomena Nunes, em Olaria. Chefiei no escritório o departamento de reembolso postal, responsável por parte considerável das vendas da editora espanhola, cujas publicações populares em paperback, das quais até os autores eram inventados, caso de Corín Tellado, e histórias em quadrinhos com os heróis gauleses Asterix e Obelix, o detetive francês Tintin e o cowboy americano Lucky Luke eram verdadeiros arrasa-quarteirões. O chefe da redação, o poeta, escritor e tradutor Leonardo Fróes, chegava de uma viagem aos Estados Unidos, onde peregrinara pelo roteiro empreendido por Holden Caulfield, o herói de O Apanhador no Campo de Centeio, para mim um dos livros capitais da ficção no século 20. Leonardo era um grande fã do inglês Lawrence Sterne e incutiu em mim a missão de ler sua obra-prima The Life and Opinions of Tristram Shandy, segundo ele grande fonte de inspiração do estilo machadiano, Meu inglês insuficiente para a árdua tarefa forçou-me a esperar até que o poeta José Paulo Paes, autor do prefácio de meu primeiro livro de poesia, As Tábuas do Sol, fizesse a tradução para português. Sei que, apesar desse contato com um escritor de língua inglesa, nosso maior gênio literário se destacou sempre pelo uso elegante daquela que Olavo Bilac chamou de “última flor do Lácio, inculta e bela”. Ler e reler o mestre é ter sempre o conforto de reencontrar a língua em que minha mãe, a professora Mundica Ferreira Pinto, dizia de cor para os filhos, em meio às trevas sem eletricidade no sertão do Rio do Peixe, os versos imortais de Navio Negreiro, de Castro Alves, entre outros. Desde então, dedico-me a ler os melhores textos em português, pois aprendi e pratico duas lições de meu mestre e pai no jornalismo, o capixaba J. B. Lemos, meu primeiro chefe de reportagem na Folha de S.Paulo. Lemos dizia sempre que só escreve bem quem lê muito e seleciona os textos que lê entre os de melhor qualidade. E também que fazer ironia em texto escrito é uma temeridade, porque o único capaz de fazer isso bem era justamente Machado.

Reler Dom Casmurro,  mantendo contatos esporádicos com os textos de Machado, foi a chamada oportunosa ensancha para aprimorar o gosto e, em seguida, o texto, em que pontifica a verve do Bruxo, capaz de produzir no idioma de Camões e Eça o suprassumo da melhor embocadura do sense of  humour da verve na língua de Shakespeare, reconhecida como ponto máximo da fina ironia. E esta oportunidade, que me foi dada pela Academia pela intercessão de Nejar, só será bem aproveitada se eu lhes disser que aqui volto ao tema de uma palestra anterior, feita neste mesmo auditório, em que tive a chance de clamar pela preservação da melhor língua canônica. Especialmente agora, quando ela é insistentemente combatida pelos populistas, que adotam o barbarismo como manifestação democrática e de igualdade social, e as canhestras e aberrantes abreviações dos textos de computador como um meio de simplificar a transmissão de informação e o debate das ideias. Hoje como à época da palestra anterior, continuo  empenhado em manter o inestimável tesouro da literatura portuguesa produzida no Brasil, de Gregório de Matos Guerra a Jorge Amado.

A releitura em voz alta, às vezes interrompida por exclamações de deleite e entusiasmo, tanto de minha parte quando da parte de Isabel, nos fez perceber que a obra-prima de Guimarães Rosa também tem esse condão de preservar o melhor de nosso vernáculo na urdidura de sua escrita, em que a trata de forma erudita e com apoio em seu notório e notável conhecimento de várias línguas estrangeiras, com as quais demonstrava intimidade E o faz de tal forma que consegue reproduzir expressões de um arcaísmo saboroso, que se perderam na algaravia urbana, mas se mantêm intactas tanto no sertão de onde Isabel e eu viemos quanto naquele em que Rosa viveu. E que reproduziu de forma magistral em suas narrativas. Esta observação pode parecer estranha, pois o mineiro é tido e havido como um dos mais habilidosos criadores de neologismos da literatura universal em seu tempo. Na primeira vez em que li Grande Sertão: Veredas, tive evidentemente contato com palavras e expressões criadas e outras que parecem bebidas nos potes de barro de minha infância. Desde então, sempre me senti tentado a incluir o ápice da literatura tida como de vanguarda na estirpe de escritores que, em minha opinião de leitor, bebem da mesma água com que se destila o uísque irlandês. Exatamente na época em que tive o primeiro contato com Dom Casmurro e Grande Sertão: Veredas, até mesmo antes, graças a Sagarana, percebi no autor sua filiação à corrente recriadora da ficção com a metamorfose das palavras a partir de um conhecimento enciclopédico das estruturas das línguas todas da literatura ocidental, cujo ápice está na obra de James Joyce. Não me refiro a Finnengans Wake, mas especificamente à tradução de Ulysses feita pelo grande mestre da filologia nacional, Antonio Houaiss. Peço, porém, vênia para reafirmar que o recurso ao neologismo não contradiz o uso criativo e ao mesmo tempo respeitoso de Rosa da nossa língua materna e de João Cabral, Bandeira e Drummond. Neste esforço para fazer ligações singulares entre nossos dois gênios, encontrei a incomum palavra espórtulo, usada por Machado no conto O Espelho e por Rosa em seu clássico sobre o qual tratamos neste momento.  É apenas uma boutade, pela qual talvez J. B. Lemos me repreendesse, mas não resisti ao registro.

E, por falar em boutade, domingo passado, em visita à impressionante e invejável biblioteca do poeta Antonio Carlos Secchin, este me contou uma que não podia faltar aqui.  Segundo o acadêmico, diz-se que, certo dia, um dos poetas concretistas de São Paulo teria dito a Rosa que identificava sua obra com a de outro grande romancista brasileiro: Oswald de Andrade. O interlocutor logo percebeu um visível desapontamento do interpelado, que confessou que esperava que fosse Machado de Assis. Pois Rosa tinha toda razão: nenhum outro escritor no Brasil poderia ser comparado com o autor de Grande Sertão: Veredas. E esta seria mais uma das chamadas “ligações singulares”, concordam?

Voltando a meus 14 anos, em Campina Grande, o contato com a obra-prima de Rosa me levou a outras aventuras no universo da leitura. Foi ao encerrá-la que me senti impelido a conhecer melhor o tema que motiva o projeto do romance: o  pacto de Fausto com o Diabo. Não me lembro mais nem tenho a edição lida  àquela época para registrar o tradutor do Fausto, de Goethe, que adquiri na mesma Livraria Pedrosa onde havia comprado os outros livros. Mas me recordo que li depois a tradução do Doutor Fausto, de Thomas Mann, da lavra de Herbert Caro. E esta me introduziu no universo de Mefistófeles, levando-me a encarar outras obras-primas do romancista: Os Buddenbrook, A Montanha Mágica, Morte em Veneza e, sobretudo, a tetralogia José e seus Irmãos.

Ainda há pouco lhes narrei que quase acompanhei os jovens eu seguiram o impulso suicida de Werther. E lhes digo agora que só não o fiz porque, ao contrário de Euclydes da Cunha, acho que a principal característica do sertanejo não é a força, mas, sim, a capacidade de sobreviver às intempéries.

E este sertanejo que lhes fala passou por muitas intempéries até descobrir num livro como é grande a genialidade, a ponto de transmitir a uma pessoa comum, a capacidade de repassar ao leitor a luz e a energia de seu talento incomum. Este foi o caso de Goethe, e não apenas pelo fato de seu poema seminal ter inspirado obras-primas como a de Mann e a de Rosa. Desde que li A Segunda Morte de Ramón Mercader, tornei-me fã de carteirinha do espanhol Jorge Semprun, que escreveu quase toda a obra literária em francês. Um de seus livros que muito me encantaram é Um Belo Domingo, no qual ele narra conspirações armadas na proximidade da latrina de cheiro insuportável e, por isso mesmo, menos vigiada pelos guardas no campo de concentração de Buchenwald, perto de Weimar, onde Goethe tinha vivido. No romance Semprun refere-se às conversas que o poeta manteve com um cidadão comum, que terminou escrevendo um livro fundamental não apenas para o conhecimento da obra do criador de Fausto, mas também para servir de iniciação à compreensão da poesia, prosa e até da filosofia alemã e mundial. Falo de Conversações com Goethe, de Johann Peter Eckermann, que li numa versão em castelhano, mas acabo de saber que acaba de sair uma edição em português, cuja leitura recomendo. E aqui o registro porque, assim como outros livros já citados, esse me permitiu avaliar de forma ampla a importância do tema do Fausto na obra de Rosa.

Peço licença para narrar outro episódio pessoal que me permitiu entender melhor a escritura do Grande Sertão: Veredas. Fui a Cordisburgo para conhecer a casa onde João Guimarães Rosa nasceu e passou a infância, e ali me deparei com algo que chamaria de iluminação. Depois de percorrer a gruta de Maquiné, visitei o museu e fiz uma parada mais longa na vendinha de seu Rosa, o pai de João. Ali imaginei que o futuro prosador, na infância, se escondia no balcão da venda para ouvir os relatos de jagunços, tropeiros e boiadeiros que paravam para comprar mantimentos, arreios e outras utilidades para suas marchas. É possível que lá o romancista tenha começado a engendrar o idioleto que criaria depois em contos como A Hora e a Vez de Augusto Matraga e no roman-fleuve de que aqui tratamos. A releitura deste me permitiu compreender melhor essa descoberta infantil e, depois, todas as viagens que o autor faria pelo sertão, narradas em livros como o de Fernando Granato e em documentários como o de Pedro Bial para a televisão. Lendo em voz alta o texto seminal de Rosa, pude me deparar com esse linguajar que, em muitas ocasiões, se assemelha muito ao universo vocabular a que Isabel e eu nos acostumamos em nossa infância e juventude no sertão de Uiraúna, Pombal e Condado, no Semiárido paraibano, e em Campina Grande, que, no alto do Planalto da Borborema, sempre tem acolhido esses vocábulos.

Aliás, não posso omitir o fato de que, em 1969, trabalhei na Bruguera com Nei Leandro de Castro, que havia conhecido antes, pois, tal como ele, eu havia feito parte do grupo Poema/Processo, liderado pelo carioca do Mato Grosso Wlademir Dias Pino, pelo camoniano Álvaro de Sá e por sua mulher e musa, a poeta e artista plástica Neide Dias de Sá, ambos do Rio. Naquele ano, Nei, hoje publicitário de ofício, ganhou o prêmio do Instituto Nacional do Livro (INL) com a obra resultante de sua pesquisa ortográfica, Universo e Vocabulário do Grande Sertão, publicada em 1970 pela Vozes, cujo catálogo à época era feito por Rosemarie Muraro e frei Clarêncio Neotti, diretor da Revista de Cultura Vozes, na qual publiquei muitos textos e resenhas de livros. Mais do que um fato biográfico, dos quais aqui abusei, esse é também o resgate de uma obra importante, que caiu no ostracismo e merecia maior atenção no debate sobre o clássico dos clássicos em matéria de registro literário do Brasil rural profundo.

Convém registrar ainda que refiz alguns conceitos de minha primeira leitura do grande romance de um fôlego só, e uma delas diz respeito ao gênio que escreveu Os Sertões, de que acaba de sair mais uma edição crítica, organizada por Walnice Nogueira Galvão. À primeira leitura, concluí que o sertão de Joca de Cordisburgo não era o mesmo meu, de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, nem mesmo o de Canudos. Hoje, contudo, percebo que me enganei redondamente. Como diz Riobaldo, o sertão é um só, e, embora todos os escritores citados aqui, e muitos outros, sejam luminares e superiores, não têm hoje a repercussão ao=lcançada pela obra de Rosa e Euclydes. A minúcia enciclopédica com que o diplomata e ex-médico mineiro descreveu a terra, a flora e a fauna do Norte de Minas em tudo se assemelha ao trabalho ciclópico do fluminense que relatou a campanha de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, onde hoje milito.

Encontrei, ao longo da releitura do Grande Sertão, referências à luta entre Deus e o Diabo que lembram alocuções de Antônio Conselheiro, relatadas por Euclydes e usadas por Glauber Rocha num dos mais esplendorosos momentos do cinema brasileiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol. E também em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que, segundo definiu genialmente seu Zé, porteiro do Cine Capitólio em minha pré-adolescência em Campina Grande, é um “faroeste de cangaceiros”. Destaco que as pregações do profeta cearense Antônio Vicente Maciel, o Conselheiro, citadas por Euclydes, usadas por Glauber e hoje também recolhidas em livro específico, espalham-se pelas referências permanentes de Rosa ao pacto com o demônio, leitmotiv de seu clássico. Resumo-as na toada de Sérgio Ricardo com que Glauber encerra o filme citado: “Que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo”, talvez o resumo do relato de Riobaldo Tatarana, marcado pela repetição de frases que causaram o maior impacto neste locutor que vos fala. Tudo isso é da mesma inspiração de Rosa ao concluir seu romance imenso: “Nonada. O diabo não há. É o que digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”.

Antes de chegarmos a esse fecho magnífico, tropeçamos em pérolas do vernáculo, como o é o caso de “viver é muito perigoso”. Se é! Mas, sobretudo, na epígrafe mais adequada que já encontrei numa obra em minha trajetória de leitor: “o diabo na rua no meio do redemoinho”. Na primeira vez em que deparei com essa epígrafe, li, parei, repeti e fiquei  meia hora pensando, lendo e relendo. Só depois é que aventurei-me a navegar no curso do texto-rio para saber que muitas frases ainda me fariam parar a leitura, algumas, aliás, repetidas por ele. Selecionei uma:

 

 

“É preciso de Deus existir a gente, mais: e do diabo divertir a gente com a sua dele nenhuma existência. O que há é uma coisa, – uma só, diversa para cada um – que Deus está esperando que esse faça. Nesse mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa. Mas, então, todos são maus. Mais, mais então, todos não serão bons? Para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber muito, formar alma, na consciência, para se pensar, não se carece. Bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque. Digo ao senhor: tudo é pacto”.

 

E, antes de encerrar, preciso abordar as “ligações mais singulares” entre o tema do seminário e o fundador desta casa de sábios: a beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira. Refiro-me, naturalmente, à carioca Capitolina e à sertaneja Deodorina. São dois nomes estranhos e incomuns. A única referência que conheço em relação à musa que Machado presenteou ao bacharel Bentinho é o nome da escola em que Isabel lecionou, em João Pessoa, capital da Paraíba: Capitulina Sátiro. De Deodorina, nome que só é revelado junto com a citação do batistério nas últimas páginas da saga, que apelidei, de forma roseana, de “ságua” do jagunço tiro certo, só me ocorre que pode ser o feminino de Deodoro, general que deu o primeiro golpe bem-sucedido da nossa História: a República que pegou o povo bestializado, no dizer do jornalista socialista Aristides Lobo, lembrado no clássico de nossa historiografia, da lavra do acadêmico José Murilo de Carvalho. Como a República insana já tinha dez anos quando a obra veio a lume, talvez não se devesse levar demasiado em conta essa ironia, associando-a ao mito de Hua Mulan, a guerreira mais famosa da China ancestral de Reinaldo/Diadorim.

De qualquer forma, isso não teria importância maior, pois Machado realizou em Dom Casmurro a narrativa espetacular sobre uma mulher fascinante e uma dúvida cruel. E isso foi tão celebrado já em seu tempo que, conforme registra notícia de jornal à época, seu caixão foi levado da casa do Cosme Velho ao coche fúnebre que o transportaria à Academia por mocinhas, entre as quais as muito jovens filhas de Fausta (mais uma coincidência, hein?), prima  de o arqueólogo Edgardo Pires Ferreira, que recentemente nos contou que ainda as conheceu. A mulher é Capitu, cujo apelido, este sim, é mais usado do que o próprio nome em nossos dias; e a dúvida que Machado lançou no ar é a do possível adultério que atormentou Bento /Bentinho, o bacharel da capital. Peço licença aos ilustres ouvintes para afirmar que não considero capital a questão do adultério de que a verdadeira protagonista do romance foi acusada, e pelo qual se exilou e morreu em solidão no exterior. Capitu é de longe, muito longe, longe mesmo, a figura que merece destaque e simpatia. Bento Bentinho é a criação genial de um personagem mesquinho, medíocre, de pouca relevância e escasso brilho intelectual, sempre socorrido pelo agregado José Dias e pelo melhor amigo Escobar nas empreitadas que exigiam lógica e raciocínio. Ele resumiu este episódio difamatório a um ponto final no qual só restou a tirânica palavra do narrador contra o silêncio sepulcral de sua vítima. A Bento o que é de Bento, a Capitu o que a Capitu pertence.

E, se há ainda a contar uma ligação singular entre estes dois entre os pontos altos da literatura brasileira é o fato de que o julgamento de Zé Bebelo, do qual não falarei porque se trata do tema da palestra de Deonísio da Silva, terça-feira próxima nesta mesma hora e lugar, de certa forma também se aplica a Capitu. Sim, minhas senhoras e meus senhores, Zé Bebelo foi julgado e exilado, num marco civilizatório inverossímil em romance de aventuras de jagunços sertanejos. E Capitu está sendo julgada até hoje, após ter morrido no exílio, ao qual a relegou seu próprio criador e carrasco.

Quanto a Deodorina, ficou a glória de ser a mais deslumbrante, mas também a menos verossímil heroína de romance da história da literatura mundial. Guerreira como ela foi a francesa Joana d’Arc, mas o martírio desta é verossímil porque aqueles com quem conviveu sabiam que era mulher, e do povo, com armadura de soldado. E ela terminou sendo o marco da identidade francesa. O mesmo se pode dizer de personagens do mesmo gênero, tais como Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, e Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Diadorim é uma espécie de anjo inefável que acompanha o atirador de tiro certo dos bandos de jagunços do norte de Minas como uma espécie de brisa benfazeja, a guiá-lo para longe das encruzilhadas onde poderia vender a alma ao Mefisto das margens do São Francisco, nos sertões de Bahia e Minas Gerais. Confundi-la com concessão à moral, como fez o escritor Dominique Fernandez em entrevista a Betty Milan no livro O Poder da Palavra,  é engano similar à confusão recente de que se teve notícia de Diadorim com transgêneros. Poucas personagens poéticas terão seu charme relatado pelo amante ao qual o mistério só foi desvendado com a morte, que o liberou para a noiva dos sonhos, uma entre muitas mulheres de um narrador mulherengo como o autor das memórias de Giácomo Casanova. Como Bento Bentinho, Riobaldo Tatarana é um velho nostálgico contando uma história de amor impossível. Mas, diferentemente daquele outro, este era merecedor da mulher disfarçada de companheiro de jagunçagens  pelo fato de ter sido fiel a seu mistério até o fim.

Ao concluir, lerei um do texto de Rosa em que ele narra a descoberta poética de que o parceiro tão amado era fêmea; algo poético, simbólico e, por isso mesmo, inverossímil, como o marco civilizatório que foi o julgamento de Zé Bebelo. Encantemo-nos com o texto de Joca de Cordisburgo:

 

“Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair.

Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia.

Não me mostrou de propósito o corpo. E disse… Diadorim — nu de tudo. E ela disse:

— ‘A Deus dada. Pobrezinha…’

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor — e mercê peço: — mas para o senhor divulgar comigo, a par,  justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha…

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer — mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca.

Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para abaixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

— ‘Meu amor!…’

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa- senhora. Só faltou – ah! – a pedra-de-ametista, tanto trazida…

O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — ‘Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba … ’

Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam… Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim. E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi”.

Resta-nos, com a chegada da noite, o encantamento e o espanto. Quanto a mim, não posso encerrar sem agradecer a enorme generosidade da Academia, dos acadêmicos que me prestigiaram e deste atento e simpático publico que aqui compareceu. Agradecidíssimo a todos, pois!