O inferno é aqui e Bolsonaro é seu capetão

Covid bate recordes de casos e óbitos, Congresso folga para eleger presidentes, STF suspende sessões, povo não pode ir às ruas, desemprego cresce e presidente vai a treino do Flamengo

José Nêumanne

25 de janeiro de 2021 | 15h00

Em plena crise do oxigênio em Manaus e Porto Velho, em Brasília Bolsonaro gazeou o expediente no Palácio do Planalto para invadir o treino do Flamengo no campo do Brasiliense. Foto: Presidência da República

Atrasado em relação a Reino Unido, União Europeia, Argentina, México, Chile, Israel e Índia, entre muitos outros países, o Brasil começou a vacinar profissionais da saúde, idosos em asilos, indígenas, quilombolas e penetras da elite governante no domingo 17. O governador de São Paulo, João Doria, saiu na frente, (1) porque tinha a Coronavac, sino-brasileira, com aplicação autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por cinco a zero; e (2) porque a Índia não entregou antes 2 milhões de doses da AstraZeneca-Oxford fabricadas pela Serum. Espumando de ódio, o presidente Jair Bolsonaro proibiu ministros de negociarem com paulistas e mandou polícia, órgãos de “inteligência” (aliás, burrice) e engavetadores amigos devassarem eventuais ilícitos do produtor do imunizante disponível, o Butantan, com 119 anos de ótima reputação.

Da justificada euforia pela ressurreição da esperança o cidadão brasileiro passou a soluçar de pânico ante a iminência de faltarem insumos para a produção em território nacional, com a insuficiência do produto imunizante: 10 milhões de doses para 212 milhões de habitantes. A incúria é recente. No ano passado, o atual governo negociou com a Pfizer, presente em EUA, Reino Unido, Europa, Israel, etc., 70 milhões de doses para 2021. Mas a compra não foi feita. E o Brasil perdeu lugar na fila, apesar dos alertas da própria farmacêutica para a elevada demanda pelo imunizante na pandemia. Em sua costumeira lorota de caixeiro viajante da “pílula do câncer”, o capitão cloroquina disse que quem quiser vender ao Brasil ofereça o produto. Agora quem paga a conta sabe que foi oferecido e recusado. A prioridade de gastos públicos no Brasil é comprar votos nas eleições para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado. Prioritário é o ódio preconceituoso do chefe do governo e de seu gado, que se deixa contaminar pelos perdigotos do “mito” (ou “minto”) perverso. Jamais a imunidade de rebanho, que poderá devolver a normalidade perdida ao povo, mero alvo teórico do populismo obscurantista.

A experiência brasileira recente em imunização data de 1962, no governo Jango Goulart, que declarou guerra à varíola, erradicada do território nacional desde 1973, em plena repressão do governo Emílio Médici, no recrudescimento da ditadura militar. Desde então, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e, agora, Jair Bolsonaro caíram na lorota, cara aos chefões das organizações partidárias, de que melhor seria comprar vacinas baratas no exterior do que produzi-las no Instituto Butantan, de São Paulo, e na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio. Enquanto isso, bilhões de dólares eram queimados no furto organizado dos governos petistas, cuja impunidade é garantida pelo populismo de direita do gabinete do ódio do capitão de milícias.

Justiça seja feita: o mundo todo passou a depender das poderosas indústrias farmacêuticas das populosíssimas China e Índia. E o Brasil, a mendigar a boa vontade das duas potências farmacêuticas, pois seus laboratórios de genéricos, criados com a quebra de patentes capitaneada pelo engenheiro-economista José Serra na gestão tucana, nada podem fazer, já que não produzem o procuradíssimo ingrediente farmacológico ativo (IFA). Nem detêm – ora direis, quem sabe até quando – a transferência tecnológica do IFA pela Sinovac e pela filial chinesa da britânica AstroZeneca. Os defensores da compra de vacinas baratas na China e na Índia se escafederam, escapando da justa fúria dos entes queridos dos mais de mil brasileiros que morrem por dia de covid enquanto seu IFA não vem. Na série Nêumanne Entrevista, publicada no Blog do Nêumanne do portal do Estadão, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta batizou de imunização “aos soluços”. Ou seja: chega vacina, aplica vacina, vacina acaba, para vacinação até chegarem novas doses, etc. A quem perde entes queridos por falta de vacina resta soluçar de dor e saudade.

Em Manaus e Porto Velho, brasileiros morrem afogados no seco. O intendente incompetente da Saúde, general Eduardo Pesadelo, refugiou-se às margens do Amazonas, com data incerta para voltar ao gabinete, para tentar fugir da mira do protetor-geral da famiglia Bolsonaro, Augusto Aras. Este pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para investigá-lo por omissão criminosa pela falta de oxigênio. O petista baiano, que deve o cargo ao chefe do carregador de doses, ainda não foi informado (talvez porque tenha notório ódio à comunicação da verdade) de que o sinistro da doença apenas obedece a ordens expressas e públicas do capitão terrorista.

Deputados federais e senadores só pensam naquilo: a composição das Mesas que dirigem as Casas que, só em teoria, representam o povo. O chefe do governo conta com a eleição de dois paus-mandados. Um é o deputado Arthur Lira, figurão do Centrão e fiel anspeçada de Eduardo Cunha, o Caranguejo do propinoduto da Odebrecht, hoje cumprindo pena por furto qualificado. Contra ele, Baleia Rossi, do MDB, é frequentador assíduo de beija-mãos no palácio. E o senador Rodriguinho Pacheco enfrenta Simone Tebet, que se declara contra o impeachment de Bolsonaro, invocando o “sentimento do povo”, que não pode sair à rua na pandemia.

Ainda assim, o caloteiro, que não pagou as doses confiscadas do Butantan, as únicas disponíveis no Brasil até a chegada das adquiridas do laboratório Serum, abusa do recesso da cúpula do Judiciário, fingindo ser Caronte, o canoeiro que atravessa o Hades, rio da morte. Em plena alta do desemprego na recessão, gazeou o expediente em dia útil, invadindo na sexta-feira 22 o treino do Flamengo, imaginando-se acima do bem na condição de agente do mal. Por enquanto, panelaços e carreatas correspondem à queda da popularidade nas pesquisas. E, sobretudo, o mais importante: o pato pateta não conta mais com o patrão, Donald Trump, para dar aval ianque ao planejado autogolpe. Mais do que qualquer outro breve contra a ditadura da crueldade negacionista, pesará até 2022 Joe Biden na Casa Branca, fiel da balança de freios e contrapesos da ótima democracia.

*Jornalista, poeta e escritor

 

 

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