O direito à dúvida
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O direito à dúvida

Janot e Lewandoski têm ajudado tática de Cardozo de vencer impeachment de Dilma por cansaço e decurso

José Nêumanne

17 de junho de 2016 | 10h16

 

É Aristóteles quem explica

É Aristóteles quem explica

Ontem, 16 de junho, se celebrou pelo mundo inteiro o Bloom’s day, ou seja, a data em que Leopold Bloom, protagonista de Ulysses, de James Joyce, percorreu seu roteiro peripatético pela Dublin que o autor não conseguia esquecer em suas passagens por Trieste e Paris, onde Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare & Co., publicou, em 1922, este marco seminal da ficção.

Hoje cedinho, na manhã fria do fim deste outono, homenageei o fluxo de consciência do protagonista de Joyce alimentando algumas dúvidas que me acompanham nos últimos dias a respeito de nossa dura realidade brasileira.

1 – Augusto Nardes, presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), deu, sem ser obrigado a fazê-lo, 30 dias para Dilma Rousseff defender-se no processo que lhe foi movido no TCU acusada de ter usado uma contabilidade “criativa” com as tais pedaladas e recorrido de forma abusiva e ilícita a decretos suplementares para tapar rombos óbvios no Tesouro Nacional. Deu mais 30 às vésperas de novo e recente parecer sobre o mesmo ato em 2015, Isso depois de a prática em 2014 ter sido considerada crime de responsabilidade fiscal pelos autores do processo de impeachment, por 367 em 513 deputados e 55 dos 81 senadores. Este deve ser punido com o afastamento da Presidência da República. Mas o ex-advogado-geral da União José Eduardo Martins Cardozo pediu que o Senado convocasse um perito para auditar o procedimento técnico do TCU. Nunca antes na história deste país… O presidente da comissão processadora do impeachment no Senado, Raimundo Lira, e o relator, Antonio Anastasia, negaram. Mas o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, que também preside o processo no Senado, concedeu em nome do pleno direito de defesa. Ficou no ar uma dúvida atroz: só pra contrariar, o xará do goleador polonês aceitaár o pleito da defesa de Dilma de substituir o perito escalado? É ver para crer, como diria São Tomé diante das chagas de Cristo. Vade retro!

2 –  O mesmo princípio basilar da justiça foi invocado pela defesa da presidente afastada para escalar 40 testemunhas para responder aos senadores em defesa de Dilma. Lewandowski também concedeu. O procedimento foi aberto, as testemunhas estão sendo questionadas, mas ninguém, nem mesmo os 5 membros da bancada que chora, esperneia, grita e insulta os 16 colegas postados no lado oposto, encontrou até agora no interrogatório uma única razão para considerar que algum fato novo foi acrescentado que seja capaz de plantar um grão de dúvida no cérebro da multidão enfurecida e dos julgadores sobre a culpa de Sua Excelência. Nenhum gaiato de plantão referiu-se ao fato de que o número das testemunhas reproduz um símbolo muito antigo da corrupção, pois coincide com o total de membros que usavam a senha “Abre-te, Sésamo”, sob o comando do chefe Ali Babá, para abrir certa caverna onde eram guardadas pedras preciosas e essências raras, talvez assemelhadas às compradas pela sra. Eduardo Cunha nas lojas de grife das capitais europeias para usar em festas ou presentear amigas de fé.

E mesmo quando decide contra pleitos do procastinador-geral Cardozo, o presidente do STF lhe dá pretexto para insistir até vencer. Quando lhe negou a inclusão da delação de Sérgio Machado nos autos do impeachment, por exemplo, ele deixou claro que a razão era que a delação corria em segredo de justiça. Divulgados os vídeos, logo este entrou com recurso alegando que, não sendo mais secretas as gravações, podem ser utilizadas para o fim pretendido de fazer o impeachment ser derrotado por decurso de prazo.

3 – As emissoras all news (só notícias) ainda desperdiçam o tempo e a paciência de seu público reproduzindo os malabarismos verbais do causídico Cardozo, ao manobrar chicanas com a habilidade de um neurocirurgião e a delicadeza de um lutador de sumô. Não há ampulheta capaz de acompanhar a perda de tempo dos senadores e dos telespectadores. Mas o douto doutor não se cansa de cansá-los.

4 – Dirigida com competência por Raimundo Lira e escrutinada com perícia por Antonio Anastasia, a comissão convive com momentos circenses sempre que a bancada do chororô executa seus números grotescos de magia, mistério e humor involuntário, sem qualificação nem nexo. Sem argumentos para defender a patroa afastada, o coronelzinho marrento  Lindbergh Farias destaca-se pela falta de cavalheirismo quando, após participar do escarcéu em que é coadjuvado pelas damas a seu lado, Vanessa Grazziottin, Gleisi Hoffmann e Fátima Bezerra, insinuou que a sra. Ana Amélia Lemos favorece apartes do pecuarista Ronaldo Caiado por inconfessável parcialidade do parceiro ruralista. Mas a colega é jornalista…

5 – O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que usa 23 horas e 45 minutos do dia para catalogar delitos do Cara de Cunha, começou agora a  garimpar motivos para a prisão de Renan Calheiros. O presidente do Senado, acólito de Lewandowski no processo de impeachment, só não foi preso porque o STF não deixou. Se fosse, seria substituído por Jorge Viana, que, em telefonema que ecoou pelo País afora, incentivou o advogado de Lula da Silva, Roberto Teixeira, a estimular o ex a desacatar o juiz Sérgio Moro, forçando a própria prisão para ser arrancado da cela pela multidão enfurecida com a injustiça. Imaginei se ele seria parcial para subir à cadeira de Renan (imagine), como demonstra o conselho arriscado e estúpido que deu ao prócer. Este de delongas entende, pois viveu à sombra do colegiado supremo em nome da impunidade seletiva, ou melhor, do foro privilegiado, do qual não quer sair de jeito nenhum. Pois acredita que poderá vir a ser o gol de honra do jogo cujo placar desonra a Suprema Corte: 74 réus condenados em primeira instância por Moro na Lava Jato e ZERO pelo STF. Este placar, inesperado até numa inviável final de Copa do Mundo entre a Alemanha e o Íbis de Pernambuco treinado por Dunga, agora também seu colega em ex.

Meu neto de ano e meio, que encarreguei de vigiar a entrada dos bancos suíços, onde o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, diz ter entesourado seus fabulosos lucros negociando carne na África, telefonou-me para perguntar se a razão disso não seria só ganhar tempo, desperdiçando o nosso. Divergi argumentando que aqueles senhores de gravata e senhoras de tailleur tinham mais o que fazer para evitar o golpismo sem freios que assola o País para gastar a vida à toa.

Foi aí que, de repente, não mais que de repente, o velho Aristóteles assomou da tumba e me recriminou:

– Respeite a criança, sujeito. A lei lhe dá razão.

– Que lei? – perguntei, incrédulo, ao tutor de Alexandre, o Grande.

– A Constituição, imbecil – berrou da cova ao lado Santo Tomás de Aquino.

Que impertinência desses doutores da Igreja, pensei com os botões de meu colete. Mas resolvi conferir. A Constituição dá 180 dias de prazo depois da abertura do processo para que madama seja julgada e, então, se não for, a afastada voltará e reassumirá com pompa e circunstância o poder republicano mandando os golpistas pra… (melhor poupar o leitor)

Pelo andar da roda presa, o julgamento chegará ao 181º dia em 10 de novembro. Mesmo não tendo pressa nenhuma para entregar o martelo, Lewandowski já estará fora da presidência da soit-disant Corte a partir de setembro. Ou seja, já terá sido substituído por Cármen Lúcia. Que poderá, por mera questão de consciência, não aceitar esse jogo de empurra para Dilma voltar por gravidade. E que gravidade!

 

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