O despudor da ‘famiglia’ Bolsonaro em Dubai

A pose de Eduardo, mulher e filha, com fantasias de sheik fake, é o flagrante brega de um desgoverno que desrespeita Deus, a família e a Pátria, que rói asa de frango no lixo na pandemia

José Nêumanne

18 de outubro de 2021 | 19h28

Com a esposa Heloísa e filha Geórgia, o falso califa Eduardo Bolsonaro esnoba milhões de brasileiros desempregados que passam fome para que a famiglia presidencial viaje ao deserto à custa deles. Foto: Eduardo Bolsonaro em Dubai

O secretário da Pesca do desgoverno Bolsonaro, Jorge Seif, cujo sobrenome aproxima-se dos selfs de seu deslumbramento, embarcou em 30 de setembro para Dubai, destino de grã-finos nas milenares tiranias árabes, em passeio “de trabalho” com custo ao pagador de impostos de R$ 3,6 milhões. A pretexto de promover o turismo no Brasil direto do pavilhão da Pátria, que dizem amar muito, na feira internacional, a comitiva incluiu o ministro do Turismo, Gilson Machado, o presidente da Embratur, Carlos Brito, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, e os prefeitos de Maceió, JHC, e de Balneário Camboriú, Fabrício Oliveira.

O anfitrião da patota da alegria precisa responder a algumas questões primárias feitas a quem exerce qualquer cargo (no caso uma prebenda) público. O que sua “pasta” tem que ver com promoção de turismo, tarefa específica de outro assíduo comensal do clã bolsonarista, Gilson Machado, líder de uma banda de forró intitulada Brucelose, enfermidade que assolava nossos rebanhos bovinos na pré-história do agronegócio nacional? Outra curiosidade que ele também poderia ser convidado a esclarecer seria o potencial da sede da exposição, com seus 3 milhões e 331 mil habitantes recenseados em 2019, para ajudar na tarefa de fazer retornar a seus níveis tradicionais de ocupação a hotelaria e a aviação tupiniquins depois da passagem arrasadora do novo coronavírus nestes tristes trópicos.

Por enquanto, sabe-se que o setor está começando a ocupar novamente quartos, mesas, praias e centros de atração basicamente com viajantes autóctones. Os estrangeiros, dentre eles os originários dos Emirados Árabes Unidos, são mais arredios, mesmo com as estatísticas animadoras das quedas de contágio e mortes pela pandemia por causa da imunização, apesar de percalços e sabotagem criminosa do “mito” e seus engajados bajuladores. O principal responsável por esse temor é o chefe dos premiados com “lazer com trabalho”, Jair Bolsonaro, cujo veio humorístico sinistro ainda tem sido pródigo em receitar remédios ineficazes e plantar mentiras sobre efeitos negativos das vacinas Pfizer, AstraZeneca, Coronavac e Jansen, que fornecem a seu público-alvo atestados de imunização, rejeitados com veemência por ele. Diante da hipótese implausível de convencer Seif, Brucelose e Mourão a se recolherem à própria insignificância ante a verdade dos fatos e das estatísticas, seria o caso de questionar se não seria mais proveitoso para o movimento de hotéis, bares, restaurantes, boates, pistas de desfiles de carnaval e outros locais apropriados para o turismo externo no Brasil convencer o propagandista-mor da cloroquina a recorrer ao posto de vacinação mais próximo e permitir a aplicação de uma dose de qualquer vacina disponível.

O patrono da boca livre não poderia, contudo, encontrar melhor símbolo para sua viagem de “ócio e ofício” do que Sua Excelência o ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados Eduardo Bolsonaro, filho 03 do capitão-presidente. Aliás, seu apelido de “bananinha” foi disseminado por um companheiro de piquenique no oásis, Hamilton Mourão, aposentado como marechal. Fantasiado de sheik fake, o ex-fritador de hambúrgueres nos EUA posou, ao lado da mulher, Heloísa, e da filha, Geórgia, nome dado em louvor ao paraíso dos red knecks (“pescoços vermelhos”, gíria pela qual são conhecidos os racistas locais), em fotografia disponível em álbuns de Instagram no perfil de madame.

O ícone cafona de uma elite com empatia zero custou, segundo os repórteres abelhudos, R$ 995, uma bagatela comparada com o custo milionário do convescote, cujo único desconforto, conforme o anfitrião, Seif, foi o calor, que ele comparou com o de Bangu, na periferia do Rio de Janeiro, maior pólo turístico no país dos pagadores. E também o bairro onde se situa um presídio de segurança máxima onde vivem em celas apenados do crime organizado e, cada vez menos, da corrupção endêmica.

Do lado de fora de seus muros uma população faminta sobrevive dos restos de banquetes da elite folgazã, que mantém no poder falsos profetas, que usam em vão o santo nome de Deus para justificarem a ignomínia, estampada com orgulho no flagrante de luxo abjeto. E o da Pátria, que ofendem na defesa de garantias que protejam seu clã do pior de todos os crimes numa democracia, o desplante do negacionismo à paridade de direitos de todos os cidadãos que sustentam não a farra do boi, mas o festival do correspondente contemporâneo da brucelose, a covid-19.

O colunista do Globo e comentarista da GloboNews Merval Pereira disse, no Dois Dedos de Prosa editado no blog do Nêumanne no portal do Estadão, que Bolsonaro foi o pior de todos os governantes que conheceu em meio século de ofício. Cada vez que os asseclas dele invadem ruas das cidades brasileiras com o auriverde pendão da terra do poeta baiano Castro Alves, seus versos candentes denunciam não mais o porão dos infames navios negreiros, mas o lixão que a plebe é obrigada a fuçar na pandemia letal. Para, pelo menos, adiar a perda de seus rebentos raquíticos tão longe das proteínas do Paraíso na miséria em que vegetam sem ter nada de que se orgulhar nem motivos para amar esta tal Pátria que os degreda a um destino de segregação e terror. Como escreveu José Américo de Almeida na introdução ao pioneiro romance regionalista A Bagaceira, “existe uma miséria maior que morrer de fome no deserto; é não ter o que comer na terra de Canaã.”

  • Jornalista, poeta e escritor

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