O barão de Coubertin de Rio das Pedras

O barão de Coubertin de Rio das Pedras

O repúdio à continência e a negação do mérito da medalha são idênticas, à esquerda e à direita

José Nêumanne

19 de agosto de 2016 | 17h57

thiago

Thiago Braz, sargento de ouro da FAB

Sexta-feira, 19 de agosto de 2016 – 18 horas

A esquerda aristocrática está furiosa com os campeões olímpicos brasileiros que bateram continência quando receberam suas medalhas na Olimpíada do Rio. Coisa de fascista nostálgico da ditadura militar, acham, mas não têm coragem de dizer. A “sargenta” da Marinha Rafaela Silva, que fora humilhada em Londres, em 2012, porque vacilou e perdeu a luta decisiva, dormiu heroína do povo negro, pobre e favelado e caiu no ostracismo ao revelar sua patente militar. O técnico de Arthur Zanetti. Marcos Goto, reclamou: as Forças Armadas só investem em esportistas de alto rendimento, nunca na base. Ele talvez preferisse que os atletas de alto rendimento não fossem ajudados. E se não fossem, quem o faria?

Mauro Guimarães, meu chefe no Jornal do Brasil, dizia que a esquerda brasileira gosta mais de farda do que namorada de cadete. O repúdio à continência, que não é um símbolo de tortura, mas de respeito aos símbolos nacionais, parece ser ressentimento de quem nada tem o que comemorar em arena, quadra ou praia, porque só disputou partidas de porrinha. Não tenho a menor afinidade com farda, toque de corneta e caserna. Sou inimigo jurado de qualquer regime fechado, civil ou militar: de Fidel Castro ou do marechal Artur da Costa e Silva. Com esse nome eu era fã mesmo do cão favorito de César Lattes, o descobridor do meson pi, a quem fui apresentado pelo saudoso amigo comum, Zeferino Vaz, fundador da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto e da Unicamp: Marechal Arthur da Costa e Silva, o Gaúcho. O físico garantia que a vírgula fazia parte do nome e dela cão e dono sempre fizeram questão.

À falta do que fazer, porque a cidade de São Paulo está pronta e não tem problemas, o professor Fernando Haddad acaba de resolver o único transtorno que restava na cidade: o nome do viaduto horrendo, mas utilíssimo, que Paulo Maluf estendeu da Consolação à Lapa e agora falam em derrubar. A memória do oficial, que golpeou e foi golpeado (afinal, foi substituído por uma junta militar antes de morrer, combalido, claro, mas ainda vivo, sim), deve esse favor ao pior prefeito que São Paulo já teve. Quem duvidar pode perguntar ao povo, desde que se prepare para ouvir muitas e boas. Agora o monstro chama-se João Goulart. Que sacanagem com o Jango! O Brasil deve a esse outro gaúcho (de São Borja), no mínimo, o adiamento do golpe militar de 1961, quando negociou com os milicos um parlamentarismo fajuto, para 1964, quando os que antes pactuaram com ele o derrubaram. Poderia ter havido uma guerra cruenta e sem esperança e ela foi evitada pelo maior defeito do pacato estancieiro que ascendeu ao poder dando atenção ao velho Getúlio no retiro nos pastos de sua terra. Jango era rico, frouxo, estroina e mulherengo. Diz-se que ele foi traído, mas, ao que me consta, ele deve ter traído muito mais a belíssima Maria Tereza. E daí? Pouco importa! O que ele fez de bom bastaria para evitar que desse nome àquele aleijão arquitetônico, embora continuando a ser de alta serventia urbanística. Talvez aquele treco apelidado de Minhocão combinasse mais com o mulato de olhos claros da Bahia de Mãe Menininha Carlos Marighela. Ou com o Tiro Fijo brasileiro, Carlos Lamarca. O frio instinto assassino dos Carlos condiria mais com o feioso.

Mas a ignorância histórica do prefeito Radard e seus asseclas não é assunto de nossa conta e urge reconduzir o leitor às praias esportivas para lembrar a Goto que explicações sobre a indigência de apoio estatal à atividade dos desportes precisa ser cobrada mesmo é do PCdoB de Agnello Queiroz, Orlando Silva, Aldo Rebelo e Ricardo Leyser, que ocuparam o Ministério do Esporte por 13 anos, 5 meses e 12 dias, e não se conhece sequer um campeão de bilhar que tenha sido subsidiado por uma verbinha mixuruca qualquer que tenha passado por seus orçamentos. Devo essa lembrança à Rainha do Pelourinho, Aninha Franco, que dedicou sua coluna semanal do Correio da Bahia a cutucar a ignorância e a insensibilidade dessa choldra de esquerda, cujo espírito ditatorial faz de tudo tolher a liberdade até dos atletas de ponta na hora de comemorar seus feitos. Cada um comemora como quer, suas bestas! Usain Bolt chama a atenção para o próprio heroísmo evocando o raio. Pelé socava o ar no ápice de sua impulsão “felomenal”, como diria o bicheiro da novela global. Outros jogadores menos dotados cobrem a bola na barriga com a camisa para sinalizar uma esperada paternidade. Outros ensaiam mirabolantes passes de dança. E quando marcam três no mesmo jogo alguém pede música no Fantástico. Os militantes da consciência negra ergueram os punhos nos pódios da Olimpíada do México, em 1968. Por que cargas d’água gratos vencedores não podem reverenciar seus provedores, ora bolas?

Mas, por favor, leitor desavisado, não pense que a burrice e o autoritarismo são exclusividade da esquerda. O ministro do Esporte de Michel Miguel, Leonardo Picciani, muito experiente na arte da trairagem acima das ideias, pois traiu Eduardo Cunha para mamar no desgoverno de  Dilma Vana e discursou contra o impeachment dela nos estertores do poder para se aninhar nos braços do interino no lugar da madama afastada também participa dessa cena bufa com a contribuição de sua elegância de demolidor de pedreiras.

No dia em que o Brasil, sob sua égide, mas sem nenhuma participação de seu escasso talento de gestor como fabricante de cerveja ou criador de gado vacum, bateu o recorde de medalhas em Olimpíadas, com um número modesto, mas histórico, conseguiu superar o barão de Coubertin em desapreço ao mérito do triunfo. Dos baixos de seu cérebro baldio e da empáfia da qual só emigra quem é completamente ignorante. o herdeiro do patriarca do PMDB do Rio de Janeiro, capital olímpica do mundo, saiu-se com uma pérola que é só jaça ao afirmar: “A medalha não pode ser um único parâmetro a ser seguido. Muitas vezes a medalha não vem por um detalhe”. Como sempre fazem parcos de lógica e desprovidos de senso de loção exigido por minha tia esquizofrênica Maria Ferreira, ele não se dignou nos contar que alternativas propõe para substituir o mérito, testado em provas no dimensionamento da excelência desportiva. Seriam a capacidade de esmigalhar pedras, a contagem de reses à entrada dos currais, a quantidade e o volume dos gases expelidos pelos levantadores de copos de loiras geladas ou a altura atingida na prática dos (apud Haissem Abaki) saltos orçamentais? Ai, meu Deus!

Jornalista, poeta e escritor

 

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