O bambu e a flecha
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O bambu e a flecha

Não será com metáforas que Janot explicará excesso de benevolência com irmãos Batista

José Nêumanne

03 Julho 2017 | 10h58

Janot recorreu a muita ênfase e pouca clareza para se justificar Foto: Alex Silva/Estadão

Questionado no 12.º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo investigativo sobre a generosidade com que o MPF livrou Joesley Batista de ter de cumprir penas que somavam mais de 2 mil anos, segundo reportagem de Marcelo Godoy, do Estadão, em troca de delatar o presidente e outros acusados de cumplicidade no crime de corrupção passiva e de uma ação programada em combinação com a PF, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot disse que “enquanto houver bambu lá vai flecha”. É apenas uma frase de efeito, que não justifica a benemerência do acordo nem a omissão do enriquecimento pra lá de suspeito do bamba do abate de Anápolis que virou big shot mundial.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na segunda-feira 3 de julho de 2017, às 7h30m)

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Abaixo, a degravação da íntegra do comentário:

Eldorado 3 de julho de 2017 Segunda-feira

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou sábado que vai continuar no “mesmo ritmo” até o dia 17 de setembro, quando então passará a chefia do Ministério Público Federal (MPF) para a sua sucessora, Raquel Dodge. “Enquanto houver bambu, lá vai flecha”.

E disse mais: “Até 17 de setembro, a caneta está na minha mão. No dia 18 não está mais. Ainda bem. Vou continuar nesse ritmo que estou”, disse Janot, em palestra no 12.º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo. Segundo foi relatado pelos repórteres Pedro Venceslau, Aline Bronzati e Fabio Serapião, do e  Estado de S. Paulo e publicado na edição de ontem

SONORA 0307 JANOT

Questionado sobre se há prova cabal contra Temer, Janot respondeu:

O procurador-geral afirmou também que não se sente confortável ao propor uma ação penal contra o presidente. “Não gostei de apresentar denúncia. Ninguém tem esse prazer louco”, disse. “Quando me dirijo a um determinado político, não é por ser político, mas por ter cometido crime”, afirmou.

Criticado por ter concedido benefícios aos Batista, como imunidade, Janot defendeu o acordo de delação da J&F. “Escolha de Sofia: não fazer o acordo e fingir que não vi? Deixar que continue porque imunidade é alta ou baixa? Foi a escolha de Sofia. Foi a escolha que eu tive. Sem imunidade não teria acordo. E mais malas teriam toda semana”, afirmou. Segundo ele, há “um zilhão de hipóteses de rompimento do acordo”.

Lula cobrou ingratidão dele. Delação de Joesley aceita passivamente a lorota das conversas republicanas com Lula e passa por cima do enriquecimento rápido e rasteiro da JBS. Janot tem razão em relação às provas e também quando diz que Temer na prática confessou os crimes dos quais é acusado ao aceitar o encontro com Joesley. Mas a relação é incompleta, parcial e generosa demais.

Além do mais dúvidas sobre se procurador pode negociar sentença, que é assunto de juiz. STF para fugir da responsabilidade de Fachin, que manteve a relatoria por 11 a 0, passou por cima da questão.

Por que você chamou no Estadão às 5 aquela sexta-feira dia Dia do Solto?

A sexta-feira 30 de junho de 2017 entrou na história como o Dia do Solto graças ao ministro do STF Marco Aurélio Mello, que devolveu o mandato a Aécio Neves e recusou o segundo pedido de prisão dele, feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. E também a seu colega Edson Fachin, relator da Lava Jato, que mandou soltar o homem da mala de Temer, Rocha Loures, filmado recebendo propina de 500 mil reais, em teoria para o chefe, numa pizzaria. Este foi o primeiro dos vários temas polêmicos abordados no Estadão às 5, sob o comando de Emanuel Bomfim.

Por coincidência ou não as decisões favoreceram Temer. A de Aécio também beneficiou o tucano, mas não o PSDB, ao qual custa coragem para tomar com o neto de Tancredo a decisão cabível.

Aliás, naquele dia, o ministro Luis Roberto Barroso também soltou Katia Rabelo, condenada no mensalão. Vão restando alguns gatos pingados até ficar só Marcos Valério, o camundongo entre os ratões.

E por que você postou no Twitter que Fachin está fazendo o serviço sujo de prejudicar a Lava Jato, que o ministro Torquato Jardim, não consegue fazer?

Há algum tempo, Fachin vem tirando processos da Lava Jato de Moro e repassando para varas da Justiça Federal em outras capitais. No dia anterior ao do Solto, o relator da Lava Jato no STF usou critério geográfico para mandar processo de Guido Mantega para São Paulo. Depois do gregoriano, agora vale o geográfico. Desse jeito não vai ficar ninguém, pois nenhum dos crimes da Lava Jato foi cometido em Curitiba.

A respeito do assunto, peço licença para ler nota da colega Thaís Arbex, do Painel da concorrente Folha de S.Paulo Nós contra eles 2.0 De acordo com a nota, os advogados de Michel Temer (PMDB), Dilma Rousseff (PT), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Aécio Neves (PSDB) – faço questão de também citar os partidos para você ver que é uma inicitiva multiplartidária – articulam o lançamento de um manifesto para questionar a atuação da Justiça e do Ministério Público. Os debates se desenrolam em um grupo de WhatsApp intitulado “Prerrogativas” — e a OAB é alvo frequente de críticas. Nas discussões, tratam da confecção de texto que prega o fim do que chamam de “Estado de exceção” e a “retomada do protagonismo da advocacia”. Criador … O “pai” do manifesto dos criminalistas é o ex-presidente Lula. A ideia, que antes se restringia a trocas de mensagens no grupo, ganhou força depois do ato de desagravo aos defensores do petista, em maio, em São Paulo. Os questionamentos à delação da JBS deram o impulso final na articulação. … e criatura Alberto Toron, advogado de Aécio Neves e Dilma Rousseff, Cristiano Zanin, defensor de Lula, e Antonio Mariz de Oliveira, de Temer, estão na linha de frente da formulação do manifesto. Todos os políticos estão na Lava Jato e foram fortemente implicados na delação de Joesley e Wesley Batista.

Teoria e prática Outros criminalistas fazem parte do grupo que prepara o texto. Eles discutem criar um curso para debater o que seria “Estado de exceção”.

Li a nota inteira para você ter uma idéia de que não estou inventando quando abordo esse acórdão já faz bem um ano.

Aliás, o advogado de Michel Temer, Antônio Claudio Mariz de Oliveira, disse em entrevista ao Estado que discorda do otimismo do Planalto na análise do pedido de autorização da Câmara para que o Supremo Tribunal Federal julgue a denúncia contra o presidente por crime de corrupção passiva. Você concorda com ele?

Não tenho informações para discordar. Em entrevista a Fausto Macedo e Eduardo Kattah, publicada ontem, Mariz diz que a estratégia do governo de tentar acelerar a tramitação das acusações formais na Casa (a expectativa é de que sejam apresentadas novas denúncias) não pode ser feita “em detrimento da defesa”. Mas eu gostaria de chamar a atenção para um fato bastante preocupante da estratégia de Temer e seus advogados.

Terça-feira passada, perito Ricardo9 Molina convocou uma coletiva de imprensa em um hotel em Brasília para desqualificar o trabalho da Polícia Federal (PF) e reafirmar que o áudio “continua a ser imprestável”.

Segundo ele, o laudo da PF é “cheio de evasivas, nunca é conclusivo nem categórico”. “Essa gravação transpira irregularidade”, declarou o perito, afirmando que 6 minutos e 18 segundos da gravação, equivalente a 23% da conversa, foram suprimidos. “Em nenhum momento a PF provou que a gravação é autêntica”, disse.

Isso é gravíssimo: o presidente da República patrocina a desqualificação do Instituto Nacional de Perícia da Polícia Federal e põe em dúvida todo o trabalho que a instituição tem feito desde que foi fundada.

E você leu ontem no Estadão que o Palácio do Planalto determinou aos ministros que apressem a liberação de emendas parlamentares da base aliada e ainda prorrogou o prazo para pagamento de despesas empenhadas e não executadas de anos anteriores. O que você acha disso?

A quitação se esgotava nesta sexta-feira, 30, e foi estendida até 30 de novembro. A medida foi publicada em uma edição extraordinária do Diário Oficial da União um dia depois da leitura na Câmara da denúncia contra o presidente Michel Temer por corrupção passiva.

Tânia Monteiro e Carla Araújo em texto publicado ontem no Estadão apuraram que o Planalto pediu celeridade no repasse de cerca de 1 bilhão de reais em emendas, que já pode ser distribuído a deputados e senadores. A decisão pode beneficiar mais de 300 parlamentares com recursos destinados a obras e projetos em suas bases eleitorais. Congressistas considerados “traidores”, que votaram contra o governo em projetos estratégicos para Temer, e da oposição podem ficar com suas emendas “na gaveta”.

SONORA TEMER/ECONOMIA

Dinheiro pra passaporte acabou em junho, Gabeira alertou que qualquer hora dessas são interditadas as saídas e a prioridade nos gastos públicos passa a ser salvar o emprego de Temer

Sexta-feira foi o dia em que bebê baleado na barriga da mãe será paraplégigo se sobreviver e presidiário foi único a comparecer à sessão da Câmara. Este País não está ficando surrealista?

O Brasil está se transformando numa espécie de reino de Ubu do clássico de Jarry que está em cartaz em São Paulo. Vou correndo ver como tarefa de comentaristas.

O bebê de Claudineia dos Santos Melo, baleado quando ainda estava dentro da barriga da mãe, na sexta-feira, 30, em Duque de Caxias, segue internado em estado grave. De acordo com o secretário municipal de Saúde de Duque de Caxias, José Carlos de Oliveira, a criança está com paraplegia e foi transferida para o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, por requerer necessidades especiais neurológicas.

Na mesma sexta, dia seguinte ao recebimento oficial pela Câmara dos Deputados da denúncia contra o presidente Michel Temer, apenas um dos 513 deputados federais registrou presença na sessão da manhã da Casa.

O único parlamentar a comparecer foi o deputado Celso Jacob (PMDB-RJ), condenado a 7 anos e 2 meses de prisão por falsificação de documento público e dispensa indevida de licitação para a construção, em 2002, de uma creche em Três Rios, no Rio, na época em que Jacob era prefeito da cidade.

Na terça-feira passada, a Vara de Execuções Penais do Distrito Federal autorizou o deputado a trabalhar nos dias úteis nos períodos da manhã e da tarde, devendo retornar à prisão à noite, para dormir. Ele foi detido no início de junho.

Como o peemedebista foi o único a registrar presença, a sessão desta sexta-feira foi cancelada e, com isso, o prazo oficial para a entrega da defesa do presidente não começou a contar. O quórum mínimo necessário é de 51 presentes na Casa.

Nossos ouvintes podem pensar que estou pirando misturando um caso que nada tem que ver com outro. Mas  há de compreender que a situação no Brasil está ficando mesmo de enlouquecer qualquer um.

SONORA Saia do meu caminho Belchior

https://www.youtube.com/watch?v=gGV1yyDMGSM