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O autogolpe do capitão de milícias

Quem pensa que tirará a própria casquinha da ditadura em marcha de um mau militar pode tirar cavalo da chuva, pois nela só terão vez a própria família e seus servos cegos, mudos e eunucos

José Nêumanne

04 de maio de 2020 | 22h37

Bolsonaro trata dezenas de adoradores dele que frequentam o cercadinho diante do Palácio da Alvorada como se fossem o povo brasileiro em suas narrativas delirantes. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Não pense o incauto leitor que é mera coincidência a sucessão de fatos dos últimos meses na surrealista cena política nacional. Chegou da China a infecção viral terrivelmente contagiante que abate a economia, estressa a sociedade e encerra inocentes numa prisão domiciliar que parece eternizar-se. O presidente sem escrúpulos de uma República insana aproveita-se da ocasião para cometer, como lhe convém no momento, um autogolpe que inverte o secular conceito leninista de Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás, estratégia resumida em livro do líder comunista russo Vladimir Ilitch Ulianov lançado em maio de 1904 – há, portanto, 116 anos.

O bolchevique (majoritário, em russo) Lenin teve de esperar 13 anos para chegar ao poder numa “ditadura do proletariado” em seu país, mas o império soviético (de soviete, palavra russa equivalente a sindical) durou 69 anos, 62 depois de sua morte, em 1924. Jair Messias Bolsonaro ganhou a disputa eleitoral presidencial em 2018, 30 anos após haver negociado sua saída impune do Exército nacional, acusado de indisciplina e condenado por terrorismo num cambalacho espúrio para evitar que a própria ficha maculasse a imagem da Força. Sua marcha calculista de recuperar dogmas da ditadura militar, que enlutou a República tupiniquim de 1964 a 1985, contou com a musculatura da própria astúcia e a acomodação comodista dos chefes das instituições que poderiam atrapalhar sua chegada ao objetivo de um desfile na base de dois passos adiante e um passo atrás.

Sua marcha triunfal rumo ao Planalto, condomínio que comanda, legitimamente, com autorização de mais de 57,7 milhões de eleitores patrícios, contou com o próprio desprezo pela vida alheia e um golpe de sorte que infelicita a humanidade em peso, e o Brasil em doses cavalares: o novo coronavírus chinês. Como muito corretamente disse o cronista esportivo e militante de esquerda Juca Kfoury, ninguém pode alegar que o desconhecia. O capitão reformado, de fato, nunca precisou esconder-se na clandestinidade para proclamar seus princípios mortíferos. Em palestra para um grupo da mais abonada elite financeira nacional foi aplaudido com entusiasmo ao descrever sua operação de desfavelização: distribuir de helicóptero, sobrevoando favelas, ditas comunidades pelos politicamente corretos, panfletos avisando aos cidadãos de bem que saíssem. E, em seguida, invadi-las, atirando para matar. Com mais de um ano de mandato presidencial, descreveu sua tática para enfrentar a covid-19, que mobiliza o planeta: permitir o máximo contágio para eliminar idosos e imunizar os sobreviventes. E, como sofismou no domingo 3 de maio, “muitos perderão suas vidas também, mas é uma realidade, e nós temos que enfrentar”.

Esperar do autor de uma frase como essa algum escrúpulo equivale a atirar-se na cratera de um vulcão para refrescar a pele no verão. Os discursos do deputado por 28 anos com louvores ao capitão PM-RJ Adriano Nóbrega, chefe miliciano na periferia carioca, foram ouvidos, gravados e reproduzidos, em 2005. Recentemente apontado pelo Ministério Público como chefe da milícia do Rio das Pedras e articulador do Escritório do Crime, o maior grupo de matadores de aluguel do Rio, Adriano, há 15 anos, já havia sido condenado por homicídio, antes do pronunciamento de Jair Messias, pai de Flávio, no plenário da Câmara. O então parlamentar do PP afirmou ter comparecido ao julgamento do PM, segundo ele, um “brilhante oficial”. Fiel à inversão da tática leninista, ele nunca recuou nem se desculpou por esse “deslize”. Assim como o filho 01, que disse ter ido à prisão condecorar o miliciano por ser este não um homicida condenado, mas um herói da PM. Da mesma forma, o pronunciamento de “seu Jair” ao votar pelo impeachment da petista Dilma Rousseff em 2016 foi um elogio público a outro notório assassino, o torturador Brilhante Ustra, este impune.

Em 2017, pré-candidato a presidente, ele declarou sem medo de ser feliz: “Sou capitão de artilharia. Minha especialidade é matar”. Não consta, contudo, que jamais tenha participado de um combate na vida, nem mesmo os encetados por seu chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno Ribeiro, contra miseráveis haitianos.

Agora, ambos protegem as instalações de um gabinete dito do “ódio”, de onde partem disparos virtuais para assassinar reputações, não de adversários e inimigos, mas de ex-amigos e apoiadores que ousaram discordar das trairagens do chefão. Os projéteis não matam na hora, mas podem ter efeito retardado, como o ataque súbito que causou uma queda e a morte de um ex-auxiliar que virou desafeto, Gustavo Bebianno.

Outra vítima de execuções virtuais do “gabinete do ódio”, a ex-líder do governo no Congresso, deputada federal Joice Hasselmann, atualmente líder do PSL na Câmara, deu um depoimento devastador sobre a atuação de um dos irmãos nota zero, o 02, Carlos Bolsonaro, nesse escritório clandestino no Palácio do Planalto. Desde então, tem sido alvo preferencial dos fuzilamentos. Fazem-lhe companhia o ex-juiz da Operação Lava Jato Sergio Moro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moras. Moro ousou denunciar publicamente a interferência do presidente na nomeação para diretor-geral da Polícia Federal de seu segurança na parte final da campanha eleitoral Alexandre Ramagem. Moraes alegou “desvio de finalidade” nessa nomeação depois que o próprio chefe do governo confessou cada um dos sete delitos que cometeu, de acordo com a denúncia do ex-ministro da Justiça. O próprio denunciado desqualificou o ex-juiz da Lava Jato como “Judas”, comparando-se dessa forma com Jesus Cristo, em mais um arroubo de imodéstia, cometido depois de ter parodiado Luís XIV com a frase “Eu sou a Constituição”.

No domingo 19 de abril, Dia do Exército, à frente do QG da mesma Arma, Sua Insolência, lixando-se para o isolamento entre governantes mundiais – que comandam o “fique em casa” contra o novo coronavírus – e na política brasileira, avisou que a paciência acabou e não aceitará interferências fora da Constituição exclusiva que ele, sozinho, promulgou.

Nestes últimos dias, a insana república do diz-me-diz relaciona suas reações absurdas ao desespero causado pela aproximação das investigações feitas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e do STF de seu trio de filhotes nota zero. No entanto, a segunda manifestação por ele abençoada ocorreu sem nenhuma prisão em flagrante dos vândalos que agrediram o excepcional repórter fotográfico do Estado Dida Sampaio com socos e pontapés. E os alvos do “gabinete do ódio” continuam sendo alvejados sem punição alguma de seus covardes algozes.

Por enquanto, as reações limitam-se a cochichos anônimos da elite dos 400 oficiais de alta patente das Forças Armadas dependurados nos cabides de emprego da generosa máquina de devorar recursos e exterminar reputações da mais alta cúpula da República que não se dá ao respeito. Os ministros do STF, insultados pelas tropas de assalto do nazibolsolulofascismo invocam adjetivos a gosto da retórica sem ação de Cármen Lúcia, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Celso do Mello e Marco Aurélio Mello. Os outros, então, nem “tchuns”.

As notas oficiais cheias de boas intenções lembram, como pontuou editorial deste jornal, a sentença suicida de ACM decretando, juntamente com FHC, o sangramento do “porco” Lula na reeleição de 2006. Que garantiu ao PT mais 12 anos, abreviados pelo impeachment de Dilma, de assalto ao erário. Enquanto o capitão de milícias, sem a graça do sargento Leonardo Pataca do genial romance de costumes de Joaquim Manuel de Almeida, compra com dinheiro suado do pagador de impostos a adesão desavergonhada do condenado por corrupção Roberto Alcaguete Jefferson, o “gabinete do ódio” pega, mata e come, como o carcará de João do Vale. E os democratas covardemente acomodados desfilam adjetivos de ocasião com efeito similar ao óleo de cobra que Jair Bolsonavírus vende na Praça dos Três Poderes com placebos como pílula do câncer e cloroquina.

O calculista da morte reduzida a estatísticas tem tudo para ganhar a competição com os covardes vocacionais em sua corrida do autogolpe anunciado com a cumplicidade do ministro da Justiça, André Mendonça, mestre na arte de bajular chefes, exaltando o cadete Cavalão na modalidade da profecia.  E do procurador-geral da República, Augusto Aras, lobo pastorando cordeiros do Ministério Público. Os dois, os filhos e os agressores de profissionais da informação para salvar vidas em carreatas da morte sentar-se-ão à extrema direita do “Bessias” da morte alheia.

*Jornalista, poeta e escritor

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