Num bote furado à deriva
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Num bote furado à deriva

Para reconquistar a confiança da população, Temer terá que demitir Jucá. Afastamento provisório nada resolve.

José Nêumanne

23 de maio de 2016 | 19h49

Jucá se diz tranquilo, imagine!

Jucá se diz tranquilo, imagine!

Diário do Nêumanne

Segunda-feira 23 de maio de 2012

Dia destes, minha amiga e colega Eliane Cantanhêde perguntou, em texto publicado no nosso velho Estadão de guerra e paz, onde estariam os milhões de brasileiros que não voltaram às ruas para defender o governo provisório, mas constitucionalmente legítimo, do vice no exercício da chefia do governo, Michel Temer. Isso enquanto as buliçosas viúvas de Dilma Rousseff gritam “Fora Temer!” em português, francês e inglês macarrônicos à porta da casa dele, nas ruas de nossas grandes cidades e até na escadaria de acesso à sala de exibição do Festival de Cannes, na Côte d’Azur. A resposta é óbvia: o povo não confia em Temer, porque, além de vice de Dilma, ele preside o PMDB, que foi sócio preferencial do PT no maior assalto da História da humanidade. E foi um assalto ao nosso erário, ao dinheiro escorchado do cidadão honesto, que paga impostos. Temer assumiu falando português claro e elegante e nomeou dois ministros de primeira linha para tentar salvar nossa economia, 10% menor do que no mês da eleição da chapa da dupla e com uma carga desumana de 14 milhões de desempregados. Mas fez do resto da equipe de primeiro escalão um Parlamentério. E pensa, equivocadamente, que sua permanência no poder depende de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados e de Romero Jucá no Senado. Se ele prestasse atenção no que o senador diz, não confiaria tanto nele. Afinal, até hoje só chama Dilma de “presidenta”, sinal de que ainda se considera um vassalo dela e que, como ela, despreza o estilo e o bom vernáculo.

Agora a Folha de S.Paulo publicou em manchete que, no mesmo dia em que a equipe econômica de que ele faz parte levou ao Congresso Nacional os projetos com que seu governo pretende resgatar o País do buraco fundo em que foi enfiado pelos ladrões protegidos no roubo pelos próprios chefes do Estado, Lula e Dilma, seu ministro do Planejamento prevaricou. Exposta publicamente nos meios de comunicação a gravação de uma conversa espúria com o réu da Lava Jato Sérgio Machado, Jucá ouviu de Temer que precisaria dar uma explicação convincente. O País inteiro viu o ministro todo fagueiro e lampeiro dizendo as maiores barbaridades, das quais compus um decálogo:

1 – “Meu emprego não é o de ministro, é o de senador eleito pela terceira vez pelo povo de Roraima”.

Que é isso, doutor? Além de chamar Dilma de “presidenta”, esse barbarismo absurdo, repete o mesmo argumento com que sua ex-chefa tentou evitar o impeachment?

E mais: se emprego é no Senado, por que não foi ajudar Temer lá, em vez de ficar atrapalhando o País e o chefe num posto-chave da administração?

2 – “Estou tranquilo,”

Mentira! Não estava nem está. Não há nenhum brasileiro que não seja lulodilmopetista que esteja tranquilo depois dessa notícia. Se ele está mesmo, é, além de irresponsável, leviano e idiota.

3 – “É só uma onda”.

Não é. Parece aquela conversa mole de seu ex-chefe Lula chamando a crise econômica internacional de “marolinha”. É um tsunami igual àquele.

4 – Seus compinchas dizem que a conversa não o incrimina em nada. Tolice! Primeiro, incrimina-o o fato de ter recebido Sérgio Machado às vésperas do impeachment. Em segundo lugar, ainda piora sua situação o fato de não ter rechaçado as propostas do protegido, uma a uma. Em vez de fazer declarações favoráveis à Lava Jato agora que foi flagrado em delito, sua obrigação era ter dito isso a Machado, ora, bolas! Ao contrário, se não disse com todas as letras, deixou claro que estava à disposição de seu plano de livrar a cara de todo mundo implicado na operação, inclusive os dois.

5 – Como Delcídio do Amaral, que foi líder do governo Dilma no Senado, Jucá tentou vender influência que, está claro, não tem no Supremo Tribunal Federal (STF). Mas também disse que Teori Zavascki é um “homem duro”. Tinha de ter dito a Machado que jamais conversaria com qualquer ministro para pedir clemência para ele mesmo e para o interlocutor.

6 – “Ajudo mais do que atrapalho o governo.” Também não é verdade. Ainda veio com uma conversa mole de que a Bolsa caiu e isso atrapalha, mas ele ajuda mais. Em quê? Teria ajudado se não tivesse aceitado o Ministério do Planejamento neste momento grave para a Nação, para não implicar o País e comprometer o governo de Temer. O resto é lorota!

Na verdade, Temer quer garantir a votação do impeachment, para o qual são necessários 54 votos, dois terços dos 81 senadores, e não pretende dispensá-lo. O presidente em exercício parece não compreender que só afundará se não demiti-lo. O que o compromete agora não é mais a antiga parceria com os ladrões das administrações petistas, mas a tibieza.

7 – Ricardo Berzoini disse que a conversa gravada comprova o golpe. Claro que se trata de um argumento sem lógica nem verossimilhança, similar àquele que tornou Eduardo Cunha o único autor do afastamento de Dilma. Como se este fosse capaz de mandar 367 colegas botarem a presidente pra fora do poder só porque ele queria. O mesmo raciocínio dá a Jucá uma força que ele não tem. A diferença entre Temer e Berzoini é que este finge que acredita nisso e o chefe do governo parece de fato acreditar.

8 – A solução que Jucá deu de se afastar temporariamente do ministério é mais uma prova de que em nenhum momento ele pensou no melhor para o País nem para seus eleitores de Roraima. Age como se todos estivessem a seus pés para garantir o que for melhor para ele. Tudo bem que ele pense assim. Mas o vice no exercício da Presidência não pode entrar nesse barco. Quem tem razão é o chanceler José Serra: “O governo não pode fracassar”. Quanto ao Berzoini, não nos esqueçamos de que ele nunca foi punido por comprar um dossiê falso contra Serra na eleição estadual de 2006. Por causa disso, seu chefão Lula o apelidou e a seus comparsas do bando de aloprados. Será que esse energúmeno acha que alguém já esqueceu isso?

9 – O PSOL quer que Jucá seja preso. De fato, há indícios de incentivo à obstrução à Justiça na conversa dele com Machado. Só que a conversa entre Dilma e Lula em outro telefonema grampeado e divulgado pela Justiça é muito mais explícita. Então, aí sim, é possível um pacto: que tal mandar prender o quarteto Lula, Dilma, Jucá e Machado?

10 – Afinal, os quatro têm algo em comum: estão pouco se lixando para o desemprego de 14 milhões, para as empresas falidas e para a quebradeira generalizada, a começar da Petrobrás. Nenhum deles tem vergonha na cara nem o mínimo de sensibilidade. Que sejam, então, punidos.

EPÍLOGO – Temendo ser desmoralizado pelo correligionário e inimigo íntimo, Renan Calheiros, presidente do Senado, Temer recuou pela oitava vez e refundou o Ministério da Cultura, entregando a nova pasta ao bando carioca de seu partido, instalado em plena Praia do Vidigal, cujas ondas mataram duas pessoas ao derrubarem a Ciclovia Tim Maia. Amanhã, Temer empossa no Ministério do Recuo Incultural um diplomata absolutamente jejuno em qualquer assunto e com nada que o recomende para o posto.

Que Deus se apiede de nós, pobres vítimas, que navegamos num bote furado à deriva em mar revolto e com timoneiros sem juízo nem moral.

(Publicado no Diário do Blog do Nêumanne)