No mato, acuados pela cachorrada
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No mato, acuados pela cachorrada

Nesta situação, como diria Vitorino Freire, vaca não reconhece bezerro

José Nêumanne

13 de julho de 2016 | 17h48

Vitorino Freire

Vitorino Freire

Quarta-feira 13 de julho de 2016 – 17h30m

Rosângela Bittar conseguiu em seu artigo no Valor Econômico (“Loja de Conveniência”, também um título por demais porreta),  resumir de forma mais precisa do que eu ou qualquer outro colega pudemos fazê-lo essa transição da política do latrocínio para a do lenocínio que ora constatamos. Isso se passa nos últimos dias em que vivemos uma generalizada e preocupante crise de espírito coletivo, geral no Brasil que Dilma entregou em frangalhos ao vice Temer e este parece tonto com tão muito a fazer e de tão pouco dispor. Rosângela é uma senhora elegante e não compararia a Câmara com “casa de recurso”, antecessora dos motéis de hoje na Campina Grande de minha adolescência. A definição talvez seja imprópria, mas, desculpem, me parece bem apropriada. De fato, o clima na Câmara do “cada um por si e Deus só por alguns”, título que dei ao meu artigo-desabafo na página 2 do Estadão, foi relatado pela colunista de maneira mais encadeada e lógica do que em qualquer outro texto que li ou comentário que assisti ou ouvi. Palmas para ela, que ela merece. Rasgos de lucidez merecem destaque nesta República da Bizarria. Em recente conversa, o professor Joaquim Falcão, da Fundação Getúlio Vargas do Rio, opinou num café a três (isso, sim, é petit comité) que hoje a Justiça realiza plenamente um velho ditado sobre juízes, desembargadores e ministros: “cada cabeça, uma sentença”. Uma tragédia: todos os de primeira instância asseguram sua vontade jurídica (antigamente, no tempo em que o PT ainda afirmava que não furtava, havia a vontade política, que era uma espécie de panaceia de fancaria, agora é a vontade jurídica que comanda o cangaço, haja ou não morte no meio). Desembargadores distribuem sua generosidade só pra gente do andar de cima. E ministros do STJ e também do Supremo resolveram mandar, autocraticamente, em tudo. Qualquer dia, o pleno determina em jurisprudência de quantas escovadas precisa a higiene bucal. O caso do presidente lewandowski chega a ser “patoilógico”: ele usurpou até o julgamento do impeachment, que a Constituição manda ser da Câmara, primeiro, e do Senado, depois. Vitorino Freire, o soba maranhense da era pré-Dino, o patrono do tonto Maranhão, e pai do poeta Lula Freire, gente fina, parceirinho de Baden, dizia que é grave a crise na qual vaca não reconhece bezerro. Bezerrão do sertão, completo: não estamos no mato sem cachorro. Não. Estamos no mato acuados pela cachorrada. E vamos apelar pra quem? Só se for pra São Gregório, que inventou o calendário cheio de nomes de potentados romanos. Mas se,  fiel a seu devoto, ele suspender os dias úteis e inúteis até o fim da Olimpíada, como na jurisprudência lewandowskiana? Um desafio para a impotência generalizada que até mesmo Deus parece ter resolvido curtir e compartilhar nos perfis sociais lá do céu cor de anil nestes dias secos de veranico.

Leia aqui o artigo de Rosângela Bittar, Loja de Conveniência

 

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