Mussolini e Bolsonaro, de moto contra a lei

Mussolini e Bolsonaro, de moto contra a lei

Carreata de motos no Rio, inspirada em ato fascista na Itália, viola leis eleitoral e sanitária e revela que presidente continua apostando na mortandade da ‘imunidade de rebanho’

José Nêumanne

24 de maio de 2021 | 20h28

 

Beinito Mussolini passeava de moto para dar uma ideia de vigor do fascismo. Foto: Reprodução (Junho de 1933)

Na sexta-feira 20 de maio de 2021, o presidente Jair Bolsonaro, em cerimônia para anunciar medidas beneficiando caminhoneiros, informou que motoqueiros não pagariam mais pedágios em rodovias em futuras concessões, segundo informou no dia a edição do Jornal do Carro do Estadão. Trata-se de um privilégio absurdo, de vez que os pedágios não arrecadam para o governo federal, mas para empresas particulares que ganham concorrências para gerir reformas em estradas, cujas despesas de manutenção e modernização o poder público – União, Estados ou municípios – não tem como bancar. Exatamente porque a arrecadação cai e as despesas públicas só aumentam. Ao fazê-lo, repetiu promessa feita no dia 10, véspera do começo da convocação para uma manifestação pela Federação de Motoclubes do Rio de Janeiro. Em postagem em sua página oficial, essa entidade agradeceu o atendimento de uma “demanda muito antiga”. Segundo O Antagonista, “é a mortadela dos motoqueiros”, já que a conta da isenção sairá dos bolsos dos caminhoneiros e dos proprietários de automóveis, que pagarão pedágio acrescido.

Aí está a origem da manifestação bolsonarista de domingo 23 de maio, na qual Sua Excelência repetiu ato similar, realizado em julho de 1933 pelo Partido Nacional Fascista na Itália, no qual o duce Benito Mussolini liderou uma “motociatta”, cujas imagens têm ilustrado muitas mensagens postadas nas redes sociais revelando a origem espúria da ideia. Ideia ilegal, diga-se de passagem. Afinal, trata-se de um comício realizado fora do prazo determinado pela legislação eleitoral. A ilegalidade configura-se ainda mais grave por ocorrer no instante em que o Rio de Janeiro, sede da passeata, ainda enfrentando a segunda onda da covid-19, começa a encarar a ameaça da terceira. Mesmo sendo governado por um capacho de Bolsonaro, Cláudio Castro, o Estado teve de aprovar restrições a aglomerações e circulação sem máscaras para evitar o aumento descontrolado do total de casos e de óbitos e o conseqüente colapso de uma saúde pública já assolada por anos de tragédias sanitárias causadas por gestões estaduais corruptas e irresponsáveis. Ainda assim, a autoridade estadual, sob os auspícios dos irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro, providenciou o emprego de mil policiais militares também montados em motos para garantirem a paz e o sossego do evento.

De acordo com Daniel Cerqueira, doutor em Economia e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as despesas foram de R$ 485 mil, calculando apenas os salários dos agentes públicos destacados para fazer a segurança, que trabalharam por cerca de seis horas, metade das 12 horas diárias da escala de plantão. Conforme a CNN Brasil, que levou ao ar a conta do especialista e não pode ser acusada de ser contra Bolsonaro, a quantia poderia bancar a compra de cerca de 28 mil doses de vacinas anticovid.

Qualquer analista independente e responsável sabe que nenhuma das repetidas declarações a favor de restrições sanitárias adotadas por Estados e municípios, da lavra do ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, conta com o apoio de quem o nomeou. Apesar das informações publicadas de várias pesquisas no Brasil e no mundo sobre isolamento social, uso de máscara e higiene insistente e prolongada das mãos, com sabão, Jair Bolsonaro continua se declarando contra elas, promovendo aglomerações como a de domingo e emitindo disparates, ironizando quem as pregue ou empregue. Isso quer dizer que ninguém pode esperar que ele venha a aconselhar a vacinação ou deixar de ameaçar o emprego de força contra as quarentenas impostas por governadores e prefeitos aconselhados por epidemiologistas e outros profissionais médicos. Ou seja, seus conselheiros em matéria de vida e morte do povo brasileiro, dizimado por suas manias de charlatão excêntrico, que continua apregoando a pílula do câncer, ainda são os mesmos negacionistas Arthur Weintraub e Osmar Terra, além dos filhos Carlos e Flávio. E estes publicam nas redes sociais fake news, como faz o bolsonarista Marcos Rogério na CPI da Covid, no Senado, da qual é membro.

Durante a tal da “motociatta”, o repórter Pedro Duran e o cinegrafista Daniel Cordeiro, da CNN Brasil, foram hostilizados por bolsonaristas selvagens O jornalista precisou de escolta policial para não ser agredido. Aos gritos de “CNN lixo”, centenas de militantes insultaram Duran, que cobria ao vivo a participação do presidente no ato. O xingamento ao canal de notícias também ficou entre os assuntos mais comentados no Twitter, com publicações a favor e contra o ataque à imprensa, tratada como inimiga, como ocorre com quem o critica, por mínima que seja a crítica.

A verdade é que, com a blindagem montada por Arthur Lira na Câmara e Rogério Pacheco no Senado, por Augusto Aras na Procuradoria-Geral da República, por parte dos membros do Supremo Tribunal Federal e, sobretudo, do Superior Tribunal de Justiça, o presidente da República não se sente ameaçado. Pois continua com apoio para se manter no poder, apesar das evidências de agravamento do caos sanitário e da crise econômica e do absoluto negacionismo, inclusive ao trabalho no expediente. E do derretimento do apoio a seu desgoverno incapaz, ineficiente e sem rumo. Sem impeachment à vista nem punição a sequazes insistentes como Eduardo Pazuello, resta lamentar, torcer e rezar.

*Jornalista, poeta e editor

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