Gestão Bolsonaro despreza a vida

Presidente é, no mínimo, leniente com violência criminosa ao abolir rastreamento de armas compradas no comércio e liberar velocidade assassina em vias a pretexto de combater ‘indústria de multas

José Nêumanne

07 de dezembro de 2020 | 22h32

Artilheiros comemorando gols e até crianças, como esta fotografada nos braços do então candidato a presidente no aeroporto de Santa Genoveva, em Goiânia,  repetem gesto do capitão imitando uma pistola. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Em 30 de julho passado, o Estadão publicou reportagem no noticiário policial intitulada Botucatu vive madrugada de terror com assaltos a agências bancárias, explosões e tiroteios. José Maria Tomazela, correspondente no interior paulista, informou: “Um suspeito foi morto e dois policiais ficaram feridos durante ataques de uma quadrilha com 40 integrantes; ação criminosa teve início por volta das 23h30 de quarta-feira, 29”.  Foram roubados R$ 2 milhões. Na terça-feira 1.º de dezembro, 30 homens fortemente armados puseram Criciúma (SC) em pânico, de madrugada, imobilizaram a Polícia Militar (PM), que não prendeu nenhum membro da quadrilha, apenas quatro cidadãos comuns que recolheram dinheiro no asfalto. Na madrugada seguinte, ocorreu em Cametá (PA) fato idêntico em todos os detalhes, menos dois: a quadrilha arrombou um cofre sem dinheiro e deixou um refém morto, na fuga.

 

Isso tudo é uma vergonha. Vergonha ainda maior porque não são  episódios isolados nem fortuitos. Há tempos organizações criminosas se aproveitam de deficiências de segurança de cidades interioranas, usando a estratégia que ficou conhecida como “novo cangaço”. É uma forma de glamourizar folclorizando iniciativas criminosas brutais com as quais buscam compensar a queda dos lucros provocada pela pandemia da covid-19. Seja como for, ninguém tem ouvido mais a cantilena de autoelogio do presidente Jair Bolsonaro e de seus comparsas sobre a “brava e eficiente” atuação do ministro da Justiça, André Mendonça. Segundo ele, superando o que diz ter sido fiasco do antecessor, o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro. Que o capitão usou como trunfo para conquistar votos contra a corrupção na eleição presidencial em que emergiu do baixíssimo clero no Congresso Nacional para o posto com o poder maior nesta insana república de trevas.

A expressão “novo cangaço” é usada, como lembrou o jornalista Artur Dapieve no programa Estúdio i, da GloboNews, como eufemismo. Folhetos de cordel, filmes de aventuras, incluído um premiado em Cannes, O Cangaceiro, de Lima Barreto, análises marxistas de “especialistas”, como Rui Facó (Cangaceiros e Fanáticos), canções de domínio e sucesso públicos e outros produtos de consumo de massa já se tinham encarregado de amenizar a brutalidade absurda dos cabras de Jesuíno Brilhante, Lampião e Corisco, tornando-a saga de aventuras e até de  heroísmo. Algo similar ao que é feito agora com o carinhoso diminutivo “rachadinha” para tornar o crime de que é acusado o primogênito do presidente, Flávio, mais palatável do que contratação de servidores fantasmas, peculato, ou seja, desvio de dinheiro público para proveito privado, extorsão, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As invasões noticiadas e outras têm contado com a facilidade de as Polícias Militares não as combaterem como deveriam, o que, às vezes, não fazem por lhes faltarem homens e armas. Estas, modernas e pesadas, usadas nos assaltos, são geralmente furtadas dessas forças e também do Exército, o que ressalta a ineficiência de sua guarda para que se limite à defesa da sociedade. O silêncio das autoridades públicas que comandam as PMs e também do governo federal, que as trata como milícias populares armadas, é criminoso. Além de incentivar o uso de armas de fogo, seja imitando revólveres com os dedos, seja obstruindo os instrumentos de controle do comércio legal de armas de fogo no País. Em abril passado, a procuradora Raquel Branquinho afirmou, em ofício encaminhado ao Ministério Público Federal, que o presidente Jair Bolsonaro tinha violado a Constituição ao determinar ao Exército a revogação de portarias que facilitavam o rastreamento de armas e munição.

Em reação a tais portarias, publicadas pelo Exército em 17 de abril no Diário Oficial da União (DOU), o presidente escreveu em rede social que determinara a revogação das providências tomadas pela autoridade regular para rastrear armas adquiridas legalmente. Para a procuradora, há elementos que apontam a interferência de Bolsonaro em atos exclusivos do Exército. Na opinião dela, o episódio representa uma situação extremamente grave e tem o potencial de agravar a crise de segurança pública no País. Pela lei, ela informou, compete ao Comando Logístico do Exército Brasileiro fiscalizar produtos controlados, como armas e munições. O general Eugênio Pacelli, à época em que dirigia a Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) do Exército e determinou a adoção das normas por ela citadas, escreveu carta de despedida a colegas defendendo-as. Exonerado, havia ido para a reserva, conforme o DOU de 25 de março.

O deputado do baixíssimo clero que discursou na tribuna da Câmara em homenagem a Adriano da Nóbrega, quando este foi condenado e preso por homicídio e era suspeito de comandar a milícia de Rio das Pedras, nunca deixou de louvar o uso de revólveres e fuzis para “justiçamento”.

Da mesma forma, a queda de um ônibus irregular, dirigido por um motorista sem habilitação, em João Monlevade (MG), revela outra constante no discurso político e na ação do capitão de Artilharia, que admitiu ser seu ofício matar. Convém lembrar ainda a colisão de caminhão com ônibus, com 42 vítimas na manhã de 25 de novembro, no quilômetro 172 da Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho, em Taguaí, perto de Avaré (SP).

A proibição de rastreamento de armas legais e a redução da punição de motoristas infratores que provocam acidentes trágicos por abuso de velocidade em vias públicas ou rodovias, no mínimo, não recomendam Jair Bolsonaro como gestor público e justificam seu afastamento do cargo.

  • Jornalista, poeta e escritor

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