Fundo Eleitoral, guerra suja de narrativas

Não se deixe enganar, não há inocentes na aprovação simbólica do novo furto partidário, que drenará R$ 6 bilhões dos cofres públicos, três vezes mais do aprovado para o último pleito

José Nêumanne

19 de julho de 2021 | 17h40

Ramos presidiu votação da LDO em que foi aprovado o furto eleitoral arquitetado pelo Centrão e entrou em conflito de narrativas com Bolsonaro e bolsonaristas. Foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

No penúltimo Orçamento, o tal do Fundo Eleitoral, assalto dos ditos “pais da Pátria” aos bolsos furados dos pagadores de impostos de uma república no pântano chamado Brasil, beirou os R$ 2 bilhões. Agora o Congresso Nacional dotou esse furto partidário de R$ 6 bilhões para as eleições gerais de 2022. E, bancando o mocinho de fancaria de hábito, o presidente da República já desgastou o pretexto de temer um impeachment caso o vetasse e bancou o solidário inerte. Agora as eleições serão a federal e as estaduais, e mais uma vez o lobo mau dos mais de 540 mil mortos na pandemia da covid-19 se fez de vovozinha bocó, transferindo a responsabilidade pela mão grande ao vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos, que presidiu a aprovação. O deputado respondeu com insultos cada vez mais de acordo com a maior parte da população humilhada e ofendida pelo desgoverno federal. Mas também não demonstrou ânimo algum, para dizer o mínimo, contra o roubo descarado, nojento e infame da classe dirigente contra o povão em geral.

Na confusa ordenação institucional brasileira ninguém tem razão, mas todos encontram motivos para provar que esta é de quem a proclamar primeiro. O pagador de impostos, ao qual nenhum dirigente de poder algum paga promessa, já pode começar a reclamar de uma excrescência que consagra, não a democracia sonhada pelos justos, mas a ditadura dos que choram menos porque podem mais. Primeiramente, é um absurdo inominável que a lei mais importante desta republiqueta insana não seja votada pelo plenário do Congresso, mas por uma votação “simbólica”. Esse tipo é realmente o símbolo mais completo do solene desprezo que a elite que controla os cordéis do teatro de fantoche de terror das instituições do Estado de Direito devota aos pagadores de suas contas e executores de sua “vontade”, de fato desprezada, alegada na teoria e execrada na prática. O plenário do Congresso Nacional não representa a maioria do povo, pelo mero incidente de ser escolhido não por um sufrágio majoritário, mas por uma complexa operação matemática de proporcionalidade. Mas já que o velho Churchill dizia que a democracia é o menos mau dos regimes, vá lá. Pelo menos que as bancadas distribuídas de forma a desafiar a aritmética cumpram, no mínimo, o dever teórico de representar o bendito e sofrido povo brasileiro. O colégio de líderes que decidiu a aprovação da Lei das Diretrizes Orçamentárias e não votou em separado o Fundo Eleitoral é a razão definitiva para que se consagre o princípio fundamental deste país de vigaristas e otários, “me engana que eu gosto”. E às favas com ordem e progresso.

A votação simbólica é a consagração estatutária da absorção do fundo furtado do suado pecúlio popular pelas bolsas inalcançáveis da elite mandatária nacional. O cinismo do Centrão, que decide nos três Poderes desta “democracia” de desiguais, é o espírito que comanda tudo. O ex-posto Ipiranga Paulo Guedes fingiu que reprovava a multiplicação do esbulho pelo mágico número três. O teórico chefe dele, capitão de bravata Jair Bolsonaro, fingiu que não escutou. E o plano do triplo assalto chegou à Mesa do Congresso sob a presidência do vice mercê da fuga dos dois encarregados do comando, os presidentes do Senado; Rogério Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira. Sobrou para Marcelo Ramos. Prato cheio para o capitão das malícias soltar a indireta mais conveniente: trata-se de um amazonense, conterrâneo de Omar Aziz, presidente da comissão parlamentar de inquérito do Senado que atormenta dom Jair. E daí? E daí, nada. Lorota. O Amazonas é um Estado bolsonarista: os votos do candidato do PSL à Presidência e de seus bajuladores Wilson Lima, governador, e David Almeida, prefeito da capital, levaram o pleito de roldão. Assim como bolsonaristas fiéis foram os comerciantes manauaras que derrubaram as restrições de funcionamento por causa da pandemia, levando a cidade ao caos sanitário e à mortandade. A colheita ideal de quem considera a morte sua modalidade de artilheiro. É ou não é?

Bia Kicis e Eduardo Bolsonaro navegaram nas naves da patranha .do chefe e pai para garantirem que votariam contra se Ramos lhes tivesse permitido votar. Não votaram porque Ramos exerceu o que lhe cabia: não convocar a votação do destaque que permitiria que eles e outros fiéis ao chefão fizessem o que nunca quiseram fazer. Assim funcionam as coisas em Pindorama.

Com mais de 130 processos de impeachment na corcunda e o patrão de verdade, Arthur Lira, jurando que nenhum começa, a desculpa da vez anterior da votação do Fundo Eleitoral para a eleição municipal perde a cor amarela para o branco, não da paz, mas da covardia. Eis a verdadeira modalidade do artilheiro que marca inimigos na coronha da pistola, como faziam os pistoleiros do Velho Oeste. E que tem mais do que se esconder, principalmente quando o Amazonas, que lhe deu margem de vitória mais caudalosa do que as águas do encontro do Negro com o Solimões, agora lhe falta, com governador do Estado e prefeito de Manaus atacados em todas as sessões da CPI da Covid do Senado, não pela oposição feroz, mas pelos leais bolsonaristas, como sempre, de ocasião. Omar Aziz desmontou seu palanque do jardim do Alvorada.

E Ramos respondeu à sua chacoalhada com ferocidade, no mínimo, inusitada. “Se depender do Bolsonaro, ele não é responsável por nenhuma das mais de 530 mil pessoas mortas na pandemia, nem por 15 milhões de desempregados, nem por 19 milhões de brasileiros com fome e nem mesmo pela escandalosa tentativa de roubo na compra de vacinas. Ele deveria é dizer que vai vetar, mas vai tentar arrumar alguém para responsabilizar também, porque é típico dele e dos filhos correr das suas responsabilidades e obrigações”, escreveu no Twitter. Duvidar quem há-de?

Bolsonaro agora tem de decidir se veta, para tirar a razão de Ramos, ou não veta, para evitar figurar na lista das traições do Centrão de Lira.

*Jornalista, poeta e escritor

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