Em paz e com respeito
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em paz e com respeito

Devotos de Lula prometem reagir a julgamento com desordem, mas população o faz com calma e tranquilidade

José Nêumanne

24 Janeiro 2018 | 12h09

Em Porto Alegre, à véspera do julgamento, Lula trocou ataques à Justiça por campanha eleitoral. Foto Werther Santanna/Estadão

A decisão do TRF 4 de Porto Alegre influirá na vida do cidadão. Reformada a sentença de Sérgio Moro, se reacenderá a chama da esquerda, que acredita na perseguição e poderá repor o réu na condução dos negócios republicanos. Mantida a sentença, com um  voto dissidente, se permitirá à defesa recursos que adiarão a decisão sobre sua participação na eleição de outubro, criando um clima de insegurança jurídica. A decisão final unânime pela manutenção da sentença de Moro manterá Lula na disputa e a esquerda na rua, mas terá pouco efeito prático na disputa. Antes do julgamento, ficou claro que a maioria espera com preocupação, mas sossego, a decisão e, seja qual for sua posição, a cidadania deverá recebê-la como convém: em paz e com respeito.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na quarta-feira 24 de janeiro de 2018, às 7h30m)

Para ouvir clique aqui e, em seguida, no play

Para ouvir a marchinha carnavalesca do tio Lu clique aqui

 

Abaixo, a íntegra da degravação do comentário:

 

 

 

Eldorado 24 de janeiro de 2018 Quarta-feira

Haisem Em que o julgamento do recurso de Lula à sentença que o condena a nove anos e meio de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro pode mudar a História do Brasil?

Na prática, a decisão do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região em Porto Alegre, que começa daqui a pouco influirá na vida do cidadão comum de forma mais decisiva se a decisão for reformar a sentença do juiz federal Sérgio Moro, pois reacenderá a chama da esquerda devota de Lula, que acredita na sua mentira da perseguição e poderá repô-la na condução dos negócios republicanos na eleição, o que significa um mergulho no caos. Caso a sentença seja mantida, mas haja um  voto dissidente, será permitida à defesa uma série de recursos que adiará a decisão sobre sua participação na eleição presidencial de outubro, criando um clima de insegurança jurídica que não será bom para o País. Uma decisão final unânime pela manutenção da sentença de Moro manterá Lula no cenário e a esquerda na rua, mas terá pouco efeito prático nas eleições gerais. Acho que o fiasco dos movimentos a favor e contra o ex-presidente, que é evidente para quem é neutro, mostra que a maioria silenciosa espera com preocupação, mas sossego, a decisão a ser tomada daqui a pouco e, seja qual for sua posição, de forma geral o cidadão a receberá como convém: em paz e com respeito.

Carolina Isso significa que o presidente Temer tem razão quando diz que o julgamento comprova que as instituições estão funcionando?

Temer, que desembarcou ontem em Zurique para participar hoje do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, acha que não há risco de “mal-estar”. Ao contrário, segundo ele, “as instituições brasileiras estão funcionando e funcionando com toda a tranquilidade, o que naturalmente dá muita segurança para quem quer investir no País”, disse ele. Isso contradiz o que ele disse em entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo, de que ele preferia que o petista disputasse a eleição, porque a condenação de Lula o vitimizaria. Não sei se as instituições funcionam tão bem assim como ele diz, mas, a Justiça tem, sim, funcionado como a sociedade espera que funcione, permitindo que sua escolha do Estado de Direito seja aceita e respeitada, apesar de opiniões divergentes da elite política, como a do próprio presidente do prefeito de São Paulo, João Doria, do ex-presidente Fernando Henrique e de presidenciáveis, como Rodrigo Maia e Ronaldo Caiado, que, por ambição e interesse próprios, preferem garantir a impunidade de Lula para preparar a própria isenção no futuro. O sentimento geral da população, contudo, é de que se cumpra a lei.

Haisem Você diria que este também é o sentimento do protagonista deste momento considerado histórico?

Não. Ontem mesmo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o mercado, a imprensa, os adversários e o governo . Num ato com militantes do PT, partidos de esquerda e movimentos sociais, em Porto Alegre, Lula adotou tom de comício, pediu mais reação de seus aliados e partiu para o enfrentamento em um discurso alinhado com o da cúpula do PT.

SONORA_LULA 2

Este também foi o tom de seus devotos e asseclas. O presidente do PT em São Paulo, Luiz Marinho, usou, em entrevista ao Estadão, a metáfora de “apagar fogo com gasolina” para repetir as ameaças de quebra da segurança e da paz públicas na hipótese da condenação ser mantida. A ex-presidente Dilma Rousseff participou do ato de apoio a Lula em Porto Alegre. Ali disse que a oposição quer “aniquilar” Lula por ele estar em primeiro lugar nas pesquisas.  Dilma também prometeu defender o líder petista independentemente do que aconteça:

SONORA_DILMA

Isso tudo deixa claro que Lula e seus companheiros do PT deixaram de lado o enfrentamento com a Justiça e voltaram ao sindicato e à clandestinidade partindo para a simples contestação a “tudo isso que está aí” dos tempos da luta contra a corrupção e a ditadura.

Carolina Você acha que esse discurso tem chance de êxito?

Não, porque não é verdadeira. A verdade sobre esse tempo foi registrada em meu artigo no Estadão de hoje, O vendedor de greves, no qual lembrei que “Lula virou santo popular, por ter sido preso e processado após a intervenção no sindicato que presidiu nos anos 70 e 80. Mas sua passagem pela carceragem do Dops paulista à época da ditadura foi mais confortável que a de outros companheiros de cela, conforme testemunho do delegado Romeu Tuma Jr., secretário nacional de Justiça no primeiro governo Lula e filho do policial homônimo, em Assassinato de Reputações (Topbooks, 2013). Tuma relata que o falso mártir foi agente de informações do pai, a quem contava os segredos do movimento grevista. Se Odebrecht e Tuma não mentiram, em vez de vítima, o seis vezes réu de hoje foi, de fato, o que os colegas sindicalistas chamariam, à época, de “traíra” dos trabalhadores e “dedo-duro” dos militantes de esquerda, que sempre o endeusaram. Ninguém, até agora, desmentiu na Justiça os depoimentos aqui citados.”

Haisem Esse enfrentamento produzirá efeito na decisão dos desembargadores hoje e, em consequência disso, tumultuará as eleições e levará o País ao caos herdado das gestões petistas de Lula e Dilma?

Respondo a sua pergunta lendo o último parágrafo do editorial O julgamento de Lula publicado pelo Estado hoje. “Felizmente, toda a arenga petista desde o impeachment não tem impressionado os que têm a tarefa de julgar os crimes cometidos durante os trágicos anos do PT no poder. A eles continua a caber somente uma missão: fazer cumprir rigorosamente a lei.”

Afinal, o sentimento da maioria da sociedade combina com mais uma marchinha irreverente para o carnaval deste ano.

SONORA Marchinha do tio Lu