Eleitos não devem ter privilégios ilegais
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Eleitos não devem ter privilégios ilegais

Chefes das instituições que fingem assegurar a liberdade à informação pela cidadania só reclamam, mas não punem abusos violentos de Bolsonaro contra esse conceito sagrado da democracia

José Nêumanne

24 de agosto de 2020 | 21h35

Sem ter justificativa a dar sobre depósitos do ex-colega paraquedista na conta de sua mulher, Bolsonaro se fez de pugilista de feira. Foto: Gabriela Biló

O presidente Jair Bolsonaro terminou a semana passada viajando para o sertão do Rio Grande do Norte com uma comitiva de 40 ministros, parlamentares, seguranças, assessores e seu filho zero-zero, Carlos, vereador no Rio de Janeiro, para inaugurar um poço artesiano e um terminal de wi-fi. Após trair promessas fundamentais de campanha, desafiar a ciência e a lógica no combate à pandemia de covid-19, a pior em cem anos, e em plena campanha para a reeleição, proibida por lei, ultrapassou a fronteira do senso do ridículo.

Em seguida, começou esta semana ameaçando um repórter do jornal O Globo que lhe fez uma pergunta óbvia, e de aparentemente fácil resposta, a uma questão de interesse público, por dizer respeito àquilo que o professor Delfim Netto chama de mais sensível órgão do corpo humano: o bolso.

O jornalista questionou-o sobre R$ 89 mil em cheques de seu amigo desde os tempos da brigada de paraquedistas do Exército, Fabrício Queiroz, e da mulher deste, Márcia Aguiar, depositados em contas da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Outro repórter, do G1, lhe perguntou, em seguida, sobre movimentação de contas de uma loja de chocolate da empresa de seu primogênito, o filho zero senador Flávio. Disse que não responderia às perguntas. E, ao ser novamente questionado sobre os cheques para Michelle, dirigiu-se aos jornalistas e ameaçou quem a fez: “Eu vou encher a boca desse cara na porrada”. Na sequência, emendou: “Minha vontade é encher tua boca na porrada, tá?”.

A reação foi estúpida, desapropriada para o lugar (a catedral) e encerrou o breve período em que o capitão de milícias interpretou o papel de “Jairzinho paz e amor”, iniciado com a prisão de Queiroz no falso escritório de seu advogado Frederick Wassef em Atibaia, em 18 de junho. A alta nos índices de popularidade, conforme pesquisa Datafolha, teria sido, segundo vários analistas, provocada pela trégua que desde então concedeu a repórteres abelhudos e adversários contumazes. Tudo foi rompido, contudo, depois dos afagos recebidos na viagem ao Nordeste. Além, é claro, da covardia generalizada dos chefões das instituições republicanas que se arvoram em defensoras da democracia sempre que seus arreganhos nazi-fascistoides põem em risco os pilares que sustentam a ainda tida como frágil democracia sob os ditames da Constituição de 1988. Qualquer brasileiro maior de 10 anos desconfia de qualquer aceno pacífico de um político do baixíssimo clero cujo sucesso, que vem garantindo sua sobrevivência nos últimos 30 anos, tem dependido apenas de seus notórios maus bofes.

Bolsonaro já sobrevoou manifestações públicas pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) na Esplanada dos Ministérios, ao lado de seu ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, de óculos escuros à Pinochet. Já discursou à frente do Quartel-General do Exército, o tal Forte Apache, apoiando fanáticos que gritavam essas mesmas palavras de ordem. E tem uma extensa folha corrida de violação da Lei de Segurança Nacional, incorporada à Constituição, sem que o procurador-geral da República, Augusto Aras, travestido de seu despachante-mor, se pronuncie contra. Nem que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, espane o pó dos mais de 30 pedidos de impeachment guardados em sua gaveta pela alegada razão de que não obteriam os dois terços de votos necessários para a abertura de um processo a ser julgado no Senado ou de uma queixa-crime, sob apreciação do STF.

As reações a respeito após a investidura do “primeiro magistrado” na condição de “Maçaranduba do Executivo” explicam, embora não justifiquem, a pusilanimidade geral. Maia, de olho na reeleição para a presidência da Câmara, proibida pela Constituição e pelo regimento interno da Casa, saiu-se com a bela frase inócua de sempre: “A liberdade de imprensa é inegociável”. Bidu! E daí? O novo líder do governo, Ricardo Barros, dos baixos de sua subserviência aos presidentes a que serviu – Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer – pôs a máxima acaciana do chefe da Mesa em seu devido lugar. “Conhecemos Bolsonaro há 28 anos, ele sempre foi assim e não vai mudar”, disse, em entrevista à Rádio Jovem Pan. Só faltou pespegar-lhe um beijo na bochecha para desafiar o isolamento social contra a covid-19 e cochichar: “Garoto traquinas…”.

Nada justifica a inércia dos falsos guardiões da democracia. A liberdade de expressão não é garantia para os meios de comunicação, mas para os cidadãos, que têm o direito sagrado de saber como o dinheiro dos impostos é gasto pelos poderosos que elegem. Não há dispositivo constitucional que garanta a quem tenha sido empossado legitimamente, após a vitória numa eleição livre e justa, a posse dos recursos de todos. O presidente covarde que agride repórteres, porque não se justifica o injustificável, não tem o direito de se locupletar com a pusilanimidade dos chefes de outros Poderes, que têm o dever de zelar pelos eleitores, e não pelos ilícitos privilégios dos eleitos.

*Jornalista, escritor e poeta

 

 

 

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