Educadora prefere instrução suprapartidária a PT ou escola sem partido
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Educadora prefere instrução suprapartidária a PT ou escola sem partido

Márcia Lígia, da Editora Miró, critica demagogia do ProUni de Lula e “colmeias” do colegial unificado dos militares e simpatiza com um ministério só para educação e cultura

José Nêumanne

06 Dezembro 2018 | 17h47

Sobre futuro Márcia Lígia diz: “Vamos ver como fica o que mais me assusta e mobiliza: a combalida educação deste país.” Foto: Acervo pessoal

“Educadores sérios queremos uma escolha sem o partido da esquerda nem o da direita. Queremos uma escola suprapartidária”, diz a doutora em Literatura pela USP e dona da pequena editora Miró Márcia Lígia Guidin. Ela discorda frontalmente da exaltação dos programas demagógicos pelo candidato petista derrotado à Presidência Fernando Haddad, afirmando que  “o ProUni formou  apenas  alguns despreparados  profissionais, que pouco contribuirão para o crescimento dos índices educacionais. Qualquer coisa servia, desde que  se criassem índices de crescimento, que, claro, são desmentidos todos pela divulgação dos resultados acachapantes de avaliações internacionais sobre nós.” E, ao mesmo tempo, diz-se preocupada com a escolha do filósofo colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Vélez Rodríguez pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, “porque é  um intelectual extremamente conservador, o que significa radicalismo, e traz  como  ostensiva bandeira  a adesão à ideia da horrenda Escola  Sem Partido (ou seja, da escola sem a  “doutrinação” do que chamam de ‘esquerda’). A  luta para aprová-la no Congresso está cada vez mais forte. Um educador verdadeiramente sério não pode concordar com tal proposta.”

Márcia Lígia Guidin nasceu em São Paulo, no bairro do Tatuapé, em 1950.  Naquela época a região era reduto de espanhóis e italianos, exatamente essa a sua origem, acrescida aí da veia  germânica de sua mãe. Estudou sempre em escola pública do Estado, da alfabetização ao fim do ensino médio, e na USP, da graduação  ao  mestrado e doutorado. Por isso dedicou sua vida docente a tentar restituir à sociedade tudo o que sua formação acadêmica  lhe trouxe. Cursou Letras Vernáculas e Germânicas  na graduação, na Faculdade de Filosofia e Ciências  Humanas. Seu mestrado e doutorado abordaram respectivamente análises críticas  de obras de Clarice Lispector e Machado de Assis. Deu aulas da Unip e na ECA-USP. Em andamento há um  estudo de pós-doutorado que analisa  o ensino de literatura nos livros didáticos. O ingresso de Márcia no mundo editorial começou nos anos 1980, como leitora crítica de editora Ática. Tornou-se organizadora de coleções de livros paradidáticos e universitários. Há anos concilia sua vida de professora universitária aposentada com atendimento e aconselhamento a escritores, inéditos ou não. Ministra palestras e cursos de pós-graduação, além de escrever crítica literária regular para o jornal Rascunho. Sua pequena editora, Miró Editorial, edita obras universitárias para adoção em salas de aula. Pertenceu ao Conselho Curador do Prêmio Jabuti por 12 anos.

Márcia Lígia constata que Índice de Desenvolvimento Humano da ONU desmente discurso otimista de Haddad sobre sua atuação como ministro. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Márcia Lígia Guidin

Nêumanne – Qual a sua avaliação a respeito do nível em que atualmente se encontra a situação da instrução pública no Brasil, entre duas interpretações colidentes: a do ex-ministro da Educação Fernando Haddad, que em campanha para a Presidência da República se orgulhou de sua obra, e a revelada por dados preocupantes de estagnação, registrados pelo Índice de Desenvolvimento Humano, das Nações Unidas,  recentemente divulgado?

Márcia Lígia – Bem, Fernando Haddad se orgulha até do lustro de seu sapato. Não seria diferente com o cargo de ministro ou de prefeito de São Paulo. Em sua longa gestão no MEC houve equívocos “nunca antes” ocorridos nos exames do Enem,  o qual – é bom que se diga – não foi criado por ele, mas por Paulo Renato Souza, ministro dos governos Fernando Henrique. O  PT diz que na gestão Haddad  38 institutos federais  e 500 unidades de ensino da educação profissional foram criados. Duvido que um décimo  dessas unidades tenha sido criada e  dado certo, não houve preparação de docentes para essa formação, nem material físico adequado. Quanto ao ProUni, o programa de ingresso no ensino superior,  de que tanto se orgulha Haddad, houve um grande equívoco –  apenas ideologia, não vontade de educar e formar. O PT queria entrar para a História como o governo que mais graduou estudantes universitários (como fez Cuba, aliás), mas a falácia é essa: pagou bolsas de estudos para quem? Para empresários de faculdades particulares, de cuja qualidade, com raras exceções, se duvida. Quando Haddad fala do ProUni, nunca aborda a tremenda evasão de jovens, abandonando o programa,  que nesses anos todos tiveram de reconhecer suas limitações intelectuais desde o ensino fundamental.  Ou seja, o programa formou  apenas  alguns despreparados  profissionais, que pouco contribuirão para o crescimento dos índices educacionais. Qualquer coisa servia, desde que  se criassem índices de crescimento, que, claro, são desmentidos todos pela divulgação dos resultados acachapantes de avaliações internacionais sobre nós.

Márcia Lígia editou um dos livros do poeta Paulo Bofim e coeditou sua fotobiografia em parceria com a biógrafa Di Bonetti Foto: Acervo pessoal

N – Como, na condição de educadora, a senhora recebeu a indicação pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, do filósofo e cientista político colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Vélez Rodríguez, assumidamente conservador, para ocupar o Ministério da Educação?

ML – Recebo a indicação de Ricardo Vélez Rodriguez com grande preocupação. Em primeiro lugar, porque é  um intelectual extremamente conservador, o que significa radicalismo, e traz  como  ostensiva bandeira  a adesão à ideia da horrenda Escola  Sem Partido (ou seja, da escola sem a  “doutrinação” do que chamam de “esquerda”). A  luta para aprová-la no Congresso está cada vez mais forte. Um educador verdadeiramente sério não pode concordar com tal proposta. Em segundo lugar me preocupa a indicação de Vélez por seu currículo, que, se fomos analisar (ele é público), não traz nenhum brilho especial nem  advém de universidades de ponta. E em terceiro lugar, porém, não menos importante, preocupa-me muito a rapidez com que o presidente eleito aceitou a indicação de seu assustador guru, Olavo de Carvalho, preterindo nomes, já indicados, com carreira de brilho sólido.

Ao lado da mãe, Margarida, Márcia Lígia recebeu o prêmio Excelência Mulher do Centro de Indústrias do Estado de São Paulo. Foto: Acervo pessoal

N – Depois de uma vida inteira dedicada a frequentar cursos de bacharelato e pós-graduação na instituição universitária mais prestigiada do País, a USP, a senhora reconhece que há mesmo uma hegemonia imposta pela esquerda naquele e em outros câmpus brasileiros, a ponto de despertar uma reação de parte da sociedade, que elegeu um candidato de direita presidente da República, contando com o combate a essa hegemonia como um fator de melhora dos índices de excelência no ensino?

ML – Sim, é forçoso reconhecer que tanto a USP quanto, sobretudo, as universidades federais têm sido levadas à “hegemonia” do aparelhamento da esquerda, para usar seu vocábulo. Devo dizer que vi docentes abertamente social-democratas  serem menos bem avaliados que outros. Vi, ninguém me contou, em concurso,  um brilhante docente “tucano” ser preterido por outro, abertamente petista. Mas também levemos em consideração que a USP é um vasto mundo acadêmico e só sei falar das humanidades. Na Medicina, na Escola Politécnica, na Economia a hegemonia não é tão grande assim. Entretanto, não é (como creio que pensa esse governo) desaparelhando a universidade que os índices de excelência de ensino vão subir. Claro que não. Há 50 anos acompanho os índices da USP e não são tão animadores, vêm descendo um pouco, a despeito dos governos. Para contar uma história quase similar à reação ao aparelhamento contemporâneo: nos anos 1970, em plena ditadura militar, quando nós, da FFLCH-USP,  saímos expulsos da Rua Maria Antônia (1968-1969) para a Cidade Universitária, fomos jogados nuns barracos de zinco para as aulas. Se chovia, não se ouviam as aulas; se fazia sol, não se aguentava o calor. À noite se enxergava muito mal, dada a elevação do teto e a iluminação precária. Era o horror dos docentes, que ainda tinham de lidar com cem alunos reunidos.  Três anos depois,  o governo militar (que já  cometia grandes equívocos educacionais, como o “colegial unificado” com o ministro Passarinho e sua famosa Lei 5.692) construiu  as “colmeias” – como as chamávamos –, que eram conjuntos de salas de aulas ligadas  apenas por corredores, numa engenharia perfeita da estrutura de  uma colmeia. Isso  para que os alunos  não se encontrassem e não fizessem piquetes. Aquela era, a seu modo, uma investida arquitetônica brilhante  em  criar – veja – uma “escola sem  partido”. Como agora, de certa forma, calando não alunos, mas o professor. Naqueles anos, os professores remanescentes do exílio  já estavam calados. Lembro que na FFLCH vivia   o maior contingente de comunistas, trotskistas, stalinistas – fossem o que fossem essas denominações. Deu certo, nós ficávamos cada um em sua sala de aula, com seu professor censurado, e nos encontrávamos por  sorte ou com hora marcada. Por que falo dessa engenharia bem-sucedida?  Porque ela foi histórica para a  USP. E por isso creio que dela provém parte da reação oposta  que veio gerar o  aparelhamento pós-ditadura em  boa parte da universidade.

Márcia Lígia dá uma aula em cursos na Bienal do Livro sobre os Caminhos da Edição, em 2014. Foto: Acervo pessoal

N – Pelo que anunciaram o futuro presidente e seu ministro de Educação, a batalha campal, já iniciada no Congresso, no debate sobre o projeto Escola sem Partido engrossará o caldo cultural dos conflitos, e isso é inevitável. A seu ver, essa guerra poderá, pelo menos, dar início a uma caminhada de melhoria para a excelência do ensino universitário no Brasil?

ML – Infelizmente, não creio que a polarização criada nestas últimas eleições perca força tão cedo no decorrer do governo Bolsonaro, por isso uma caminhada para a melhoria do ensino universitário não viria nesse ínterim. Viria depois, com ânimos menos acirrados. Penso que conflitos são sempre saudáveis se não forem mediados pela ideologia radicalizada, mas sim pela real vontade política de melhorar a qualidade do ensino. A guerra aberta  a favor ou contra a escola sem partido deveria abrir discussões mais sensatas. Educadores sérios queremos uma escolha sem o partido da esquerda nem o da direita. Queremos uma escola suprapartidária . E  sempre o ensino fundamental deveria vir em primeiro lugar nessa preocupação,  depois o ensino médio e só depois a universidade. Um educador de verdade sabe que educar é um ato político, não existe ambiente asséptico (nem nas colmeias da USP dos anos 70). Educar é ajudar a abrir  a mente do aluno para pensar, duvidar, repensar e reagir. Eu digo há muitos anos, e hoje na pós-graduação: duvidem de tudo, duvidem inclusive de mim, vão pesquisar, não se deixem seduzir por conversas bonitas! Acredite, alguns se espantam com essa frase até hoje. É grande besteira e desperdício de energia pedagógica colocar cartazes com obrigações dos mestres. Ou, como quer aquela deputada de  Santa Catarina,  néscia e sandia, a Ana Campagnoto, que os alunos gravem os mestres para denunciá-los.  Como se vê,  há recursos piores  que as colmeias da Cidade Universitária.

Marcia Lígia, ao lado do educador Paulo Nathanael, em palestra a respeito de concursos literários na Universidade Paulista, em 2015 Foto: Acervo pessoal

N – Qual é a sua posição, na condição de editora de livros, a respeito da querela da extinção do Ministério da Cultura, sua anexação à Educação, como era antes, nos tempos do velho MEC, ou, como parecem preferir os futuros governantes, sua inclusão na pasta que também abriga Esportes e Turismo?

ML – Confesso que ainda não tenho opinião muito sólida a respeito da extinção do MinC e união ao MEC. A princípio parece bom. O MinC e o Mec juntos têm muito a ver. Esportes também. Sei pela bibliografia com a qual me formei que na época do velho MEC (no governo Juscelino Kubistchek) livros, dicionários, atlas editados pela pasta eram maravilhosos. Tinham a autoria de grandes intelectuais e a chancela do ministério híbrido.  Nós os usávamos em sala de aula. Os preços eram muito democráticos. E se criaram trabalhos editoriais fantásticos na Campanha Nacional de Material de Ensino, que na época foi dirigida por  Armando Hildebrand. As edições eram tão boas que foram o modelo de editar livros, seguido pelas primeiras e bem-sucedidas editoras didáticas que surgiram nos anos 70. Como editora, tenho a esperança de que algo daqueles anos 60 seja retomado em conjunto, trazendo um pouco de ordem à desvalida demanda editorial de hoje. Desvio-me um pouco de sua pergunta, mas vale contar que o MEC, há anos, deixou de editar ou subsidiar livros, deixando à editoras a tarefa de criar e tentar vender seus didáticos e paradidáticos, a serem avaliados apenas  a posteriori pelo MEC. Ou seja, o MEC compra (cada vez menos) livros já prontos. Em resumo, esses ministérios unidos  talvez  sejam mais econômicos e mais dinâmicos.

Márcia Lígia se preocupa com escolha do filósofo Vélez Rodríguez para ministro de Educação por Bolsonaro, porque é “muito conservador”. Foto: Acervo pessoal

N – Quais os efeitos práticos da notória crise da indústria editorial sobre sua atividade profissional e também sobre sua atuação em instituições que promovem e estimulam a comercialização de livros no Brasil, tal como o Prêmio Jabuti, do qual a senhora foi uma das organizadoras mais ativas por 12 anos?

ML – O efeito sobre a minha atividade editorial é perturbador. Não se edita, não se vende, não se distribuem obras. Mas como minha editora é muito pequena, – e eu publico mais obras universitárias –, estou longe de ter  engolido calotes  monumentais, como  a  Companhia das Letras, por exemplo. A grave crise do meio editorial começou há vários anos, castigou primeiro as gráficas brasileiras, algumas delas, excelentes, desapareceram, pois editores foram imprimir na China. Quando o dólar subiu, voltaram a buscar as  gráficas nacionais e muitas já estavam em concordata. Parece fábula. Há uns seis anos, os grandes e médios editores têm sido muito cautelosos, só publicam obras que já foram alçadas ao sucesso em outros países. Daí o alto índice de autores estrangeiros nas listas de mais vendidos. (Um romance de escritor brasileiro,  se tiver edição inicial de 2 mil exemplares, é muito.) Assim, o editor publica pouco, manda para as livrarias em consignação e se a obra for vendida não recebe facilmente (veja-se calote da Cultura e da Saraiva). Outra fábula, agora com editores.  Se a obra  não for vendida, voltará, com muita burocracia e despesa para o editor: manuseada, amassada, até rasgada. Por quê? Porque as livrarias fizeram caridade com o chapéu alheio: nós, os leitores, as manuseamos e lemos em sofás ou almofadas faustosos, são obras  que não comparemos e, lembremos, nem sequer pertencem à livraria. É como receber um carro em consignação numa agência para vender e fazer, enquanto isso,  uma viagem de muitos quilômetros usando-o. Quanto aos prêmios literários, eles alavancam obras premiadas  a uma venda um pouco mais alentada por prazo determinado. E só. As inscrições aos prêmios permanecem com seu número quase igual. O que muda é aquele que inscreve as obras: muitas vezes o próprio autor. Se isso é bom para democratização dos prêmios, quer também dizer que casas editoriais, mais indiferentes a este ou àquele autor que não vão inscrever, sabem que não é com um autor  premiado que se ampliam os lucros. Assim, prêmios e vendas não caminham tão juntos.

Márcia Lígia, com outras editoras na Feira do Livro de Frankfurt, em 2014, quando o Brasil foi homenageado, acha que evento perdeu relevância. Foto: Acervo pessoal

 

N – Em continuação à questão anterior, quais serão os efeitos que a senhora percebe, como editora, professora e crítica, do pedido de recuperação judicial das grandes redes de livrarias Cultura e Saraiva sobre a quantidade e a qualidade da produção literária, em particular, e da cultura, em geral, neste momento de crise generalizada por que passa a sociedade brasileira?

ML – A pergunta, como só você sabe fazer, é muito ampla e séria. A princípio, não vejo muita causa e efeito entre a quebra das livrarias e a qualidade ou quantidade da produção em si. Não creio que as editoras dependessem das vendas apenas dessas duas casas livreiras. O pedido de recuperação judicial das livrarias Cultura e Saraiva já era, no meio editorial brasileiro (pequeno, muito pequeno em relação ao de outros países), uma tragédia mais que anunciada e comentada entre editores.  Por muitas razões. A venda de livros online, a feroz  Amazon, ao Brasil e o portal Estante Virtual (que, parece, a Cultura comprou enquanto quebrava) diminuíram sensivelmente a ida do leitor à livraria. Eu mesma vou pouco, e, sem solidariedade aos companheiros, olho livros e depois  os compro mais baratos  pela internet. Ora, isso é movimento mundial da oferta. Outra explicação são os notórios erros de gestão das empresas, além da megalomania que lhes fez criar  as megastores. Quanto à quantidade da produção de livros, até onde sei, aumentou um pouco no número de títulos, mas, com edições pequenas, não aumentou na quantidade de exemplares. Não creio que a estagnação mude tão cedo.

Márcia Lígia acha que hegemonia da esquerda na academia nasceu da reação à tentativa do regime autoritário impor-se à força nos câmpus. Foto: Acervo pessoal

N – Como profissional que lida com a realidade do mercado na área do livro e consumidora de outros produtos artísticos e culturais, a senhora tem uma posição firmada a respeito da manutenção ou extinção de instrumentos oficiais de incentivo, cujo caso mais notório é o da Lei Rouanet?

ML – Considero a Lei Rouanet boa, não creio que deva ser extinta de modo nenhum. É grande o equívoco popular que atribui a esse instrumento de incentivo o compadrio e a vassalagem cultural entre a esquerda e os artistas, escritores, cantores. Generalização perigosa. Certo é que os governos petistas não sabiam bem a diferença entre o público e o privado, nem sequer sabiam como se encaixavam bem na definição do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda. Tapinha nas costas de um amigo ou compadre, no caso da Rouanet, não significa necessariamente que  só artistas petistas fossem brindados com autorizações para captar recursos. Há muita ignorância contra a lei. Eu vi nas inúmeras fake news que me chegaram.

Márcia Lígia , em 1964, época em que estudava no Instituto de Educação Padre Anchieta, no bairro do Brás. Foto: Acervo pessoal

 

N – Como cidadã ativa e antenada, que consequências a senhora está notando que influem, ou ainda podem ocorrer, positiva ou negativamente, para a higidez das instituições do Estado de Direito no Brasil, depois da polarização  exacerbada das últimas disputas eleitorais, em especial a presidencial?

ML – Creio que a  polarização,  como comentei atrás,  se estenderá ainda por muito tempo, com os sinais trocados; agora a oposição radical estará  com a esquerda. Polarização é ruim para qualquer país e para a verdadeira democracia dialética. Tive a sorte de conhecer um pouco alguns países nórdicos. Nada nesses lugares é radical. Tudo é transparente e discutido. O povo se une, independentemente de partidos, pelo bem do país.  Na Islândia, há poucos anos, o povo  foi às ruas, derrubou o ministro e escreveu uma nova Constituição. Simples assim. Claro que eles são minúsculos. Mas estou otimista: nossas instituições estão funcionando bem. O Estado de Direito parece intocado. Vamos ver como fica o que mais me assusta e mobiliza, como cidadã e docente: a combalida educação deste país.

Com mestrado sobre Clarice Lispector e doutorado sobre Machado de Assis, Márcia Lígia participou da organização do prêmio Jabuti por 12 anos. Foto: Acervo pessoal