E tudo termina em vinho…
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E tudo termina em vinho…

Que pizza, que nada! A velha corrupção brasileira celebra com bons vinhos as colheitas de seu furto

José Nêumanne

06 de julho de 2016 | 16h44

Ciclovia, legado dissolvido em espuma do mar

Ciclovia, legado olímpico dissolvido em espuma da ressaca do mar

Quarta-feira 6 de julho de 2016 – 16h30m

 

Antes de ser ministro de Lula e de ter estraçalhado a própria biografia combatendo direitos autorais e lutando pela privacidade absoluta dos colegas artistas ricos e famosos, o baiano Gilberto Gil foi exilado pela ditadura militar e de Londres, roendo-se de saudade, compôs e gravou a obra-prima Aquele Abraço. O samba nostálgico virou uma espécie de hino informal dos exilados, fora (ou dentro) do Brasil. Após me ouvir cantarolando-o, a diretora da Rádio Estadão, Paula Marinho, mandou tocá-lo em minha despedida da hora de 7 às 8 que passo no estúdio, na companhia luxuosa de Alessandra Romano e Haisem Baki, fazendo uma revisão da tumultuada Pátria amada salve, salve. Valeu até como epígrafe: o Rio de Janeiro continua lindo, mas, sobretudo, continua sendo…

Provas não faltam. O prefeito falastrão Eduardo Paes, disposto a fazer o País – e, sobretudo, Maricá, na Grande Rio – esquecer as besteiras que andou falando e, pior que tudo, fazendo – como a ciclovia Tim Maia, que desabou, dissolvida em espumas de ressaca, também continua causando. Depois de ter chamado de “terrível” a gestão da polícia pelo Estado a um mês da Olimpíada, ele resolveu ser camarada dos turistas e avisou que a cidade que ele governa não é nenhuma Nova York, Chicago ou Londres. Esquece-se de que Nova York foi sinistra antes da “tolerância zero”; Chicago era de lascar à época da Lei Seca; e a Londres de Dickens nunca foi um modelo de conforto e tranquilidade. A imagem atual delas foi feita com sangue, suor e lágrimas, como diria um célebre morador de Londres, o lorde almirante Winston Churchill. OK, tudo bem. Talvez fosse o caso de o Comitê Olímpico ter sido avisado quando, seduzido pelo charme de Lulinha de Lindu e Serginho de Cabral, preteriu Madrid, Tóquio, que também podiam ser citadas na frase de Paes, e Chicago, que ele lembrou. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado, dizia vovó Quinou: há que pegar o touro à unha longe da plaza madrilenha das Ventas.

Paes não foi o primeiro a avisar aos turistas que a cidade não é mais tão maravilhosa quanto na marchinha de carnaval famosa de André Filho, mas ainda é cheia de encantos mil e também faz festas espetaculares, como o réveillon de Copacabana e o desfile de escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Os policiais, que não recebem do governo estadual, fizeram plantão na frente do Galeão (Aeroporto Tom Jobim) para dar a temerários turistas “boas vindas ao inferno”. Um carro da Força Nacional, convocada a colaborar com as autoridades policiais locais no patrulhamento da Olimpíada, teve um retrovisor espatifado por uma bala perdida num lugar que frequentei muito: a Avenida Brasil, perto da Linha Amarela. Nota oficial providencial avisou que a recepção espantosa à ajuda prometida não ocorreu na vigência de seus serviços. Imagine se tivesse ocorrido, diria mestre Ariano Suassuna. Seria a crônica da carnificina anunciada. Nunca vi uma bala perdida, algo inusitado naquele distante 1969, ano em que morei no Rio, mas o agente assustado transmitiu para o País seu terror. Pudera!

E esta não foi a única homenagem que a cidade dedicada a São Sebastião, soldado flechado e seu padroeiro, prestou ao conselheiro Acácio, de Eça de Queiroz, nestes últimos dias. Como aquele predecessor do óbvio ululante do carioca nascido no Recife Nelson Rodrigues, Paes o constatou. E o paulista Alexandre de Moraes, ministro da Justiça de Temer, também. Sua Excelência reconheceu o que nenhum carioca fez, nem os de adoção: que há risco de terrorismo no Rio. Pode ser até que ele se tenha inspirado na conversa que teve com o chefe Temer no barbeiro, depois de esperá-lo, sem que o dono do salão soubesse o que podia fazer naquele seu coco raspado. Bom, pelo menos ele deve ter lido nos jornais que o Estado Islâmico (EI) está espalhando o terror pelo mundo porque é acossado nos territórios que tinha conquistado na Turquia e no Irã. A Olimpíada é um destino óbvio de seus terroristas-bombas. E a não ser que os bandidos locais ajudem a combater os importados, não vai ser fácil as autoridades imporem a ordem pública numa cidade onde traficantes pés-de-chinelo, como o Fat Family, são resgatados á bala, com morte de inocente, em hospital público apontado como modelo na propaganda oficial da Olimpíada mais privatizada do mundo (ao menos segundo Paes). Mas não é o caso de chamar desgraça, pois no Rio este talvez seja o único produto que se pode encontrar nos hospitais, escolas e outras repartições.

Seja Alá misericordioso para que o Estado Islâmico não queira repetir as agruras do Bin Laden imaginário do humorístico da TV, nos morros cariocas! Afinal, Dilma Rousseff, sempre disposta a negociar com os terroristas da jihad, pois agora só cuida de eliminar golpistas ao redor, e não tem mais autoridade para negociar com eles, como já pretendeu, numa ação sem graça, ainda mais absurda do que a piada na TV.

No meio desses tiroteios todos, o Rio ainda é capaz de apresentar sinais de que a mudança da capital para Brasília não evita que ela continue fornecendo personagens que sintetizam a velha malandragem nacional, nem sempre boa. É o caso de Fernando Cavendish, o empreiteiro grã-fino e finório que se dá bem há muito tempo, apesar de também se ter tornado notório, uma rima, mas nunca uma solução.

Com ele veio a lume o desembargador federal Antônio Ivan Athié, do Tribunal Federal da 2ª Região (TRF2), protagonista de um processo levado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2004, acusado de ter participado de um esquema de fraudes no sistema judicial que resultaram em danos ao patrimônio público. Athié resolveu mandar Fernando Cavendish e Carlinhos Cachoeira pra casa com tornozeleiras, mas eles  ficaram na prisão porque não há tornozeleiras à disposição no Rio. Tendo-o feito, declarou-se “suspeito” em ações do empreiteiro. Manda soltar e, depois, declara-se “suspeito”. Não é a cara deste nosso Brasil varonil?

De uma coisa, contudo, nem ele nem o Rio podem ser acusados: sua cidade não é mais a capital federal, que Juscelino Kubitschek transferiu para o Planalto Central do País, que Caetano, parceiro de Gil, exalta na canção que começa e encerra a novela Velho Chico, de Benedito Ruy Barbosa, às 21 horas, na Globo.

Em Brasília, ao contrário do que pensa quem não é muito bem informado, nem tudo termina em pizza. A maioria das transações mais sinistras começa em regabofes que reúnem amiguinhos dos três Poderes regados à melhor produção vinícola de Bordéus e arredores. Pois nossa pátria da máfia pública, que ainda controla os cordéis republicanos na cidade construída no lugar onde São João Bosco sonhou, não recorre a tradições napolitanas para celebrar seus feitos de furto. Mas às melhores safras vinícolas do Velho Continente, da Califórnia e da Oceania.

E antes que me esqueça, aquele abraço.

Jornalista, poeta e escritor

 

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