E Queiroz, Moro?
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E Queiroz, Moro?

Para manter aura a que chegou como juiz, ministro da Justiça não pode fingir que devassa sobre atuação dos 'rolos' de ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj não é com ele

José Nêumanne

07 Janeiro 2019 | 21h04

Os desafios do ex-juiz Sergio Moro no Ministério da Justiça não se limitarão à luta contra a corrupção e o crime – Foto: Gabriela Biló/Estadão

Em artigo publicado no fim do ano passado neste Blog do Nêumanne, A PM do Rio e a família Bolsonaro, expliquei o principal obstáculo à permanência do ex-juiz federal Sergio Moro no Ministério da Justiça, no qual tomou posse dia 1º.

Veja só, nenhuma das empresas que caíram na rede anticorrupção da Lava Jato tinha sede em Curitiba: a da Petrobrás, origem da operação, fica no Rio e como ela, as matrizes das empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, UTC, Queiroz Galvão, Engevix, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Skanska, GDK, Toyo Setal, Iesa, Techint, Carioca Engenharia, Schahin, Alumini Engenharia, Tomé Engenharia, e Andrade Gutierrez não ficam em Curitiba. Os doleiros também não viviam na capital paranaense.

Lula e o núcleo duro do PT, José Dirceu, Antônio Palocci e os ex-tesoureiros Delúbio Soares e João Vaccari, são de São Paulo. Assim como o triplex no Guarujá, o sítio em Atibaia e o Instituto Lula, objetos da mais famosa devassa policial e judicial da História da República.

Moro precisou de uma gambiarra para pegar o touro à unha e levar para a vara sob sua jurisdição a investigação e, assim, tentar salvar o País da corrupção institucionalizada em que estava e da qual ainda não saiu completamente. Ele espichou uma investigação de um posto de gasolina em Brasília para incendiar a rapina de cofres públicos no Brasil inteiro. E foi assim que conduziu o movimento para descriminalizar o Brasil.

Se inquéritos e ações ficassem em São Paulo, nada aconteceria. No caso Alston, o Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo nada fez e, pelo menos até agora, não deu em nada. Ficou claro, nesse caso, que na Bastolândia (o reino do mago Thomaz Bastos), o Judiciário e o MPF evitavam atrito com o sistema vigente. No Rio ficou explícito por que a roubalheira comia solta quando se descobriu que o MP recebia mesada de Sérgio Cabral e nada investigava. Vista grossa para a corrupção, a exemplo do que exigia Lula em relação às obras superfaturadas das arenas da Copa do Mundo.

Moro pôs Curitiba no mapa. Hoje são comuns em Curitiba os Tours Lava Jato, para ver a Polícia Federal, onde fica a cela de “estado-maior” que abriga o presidiário Lula, a Procuradoria da República, a Justiça Federal e o Complexo Médico-Penal, a penitenciária das celebridades.

Depois da divulgação dos fatos em pauta, foi possível ao cidadão comum perceber que as autoridades do nosso Brasil hoje podem ser classificadas em seis categorias:

1) Os do partido, que lutam pela causa;

2) os mercenários, que fazem tudo por dinheiro;

3) os políticos, pela perspectiva de promoções;

4) os surfistas, para aparecer e ficar bem com a imprensa, pelos benefícios da notoriedade;

5) os vulneráveis, que atuam por ameaça;

6) e os incorruptíveis, que julgam pelos méritos.

Ninguém duvida hoje, no Brasil, que Moro seja categoria 6, pois teve de chamar a si as iniciativas, ou, caso contrário, ainda estaríamos na situação anterior. Pois foi assim que a Lava Jato fez de Moro um herói nacional. O certo seria todos os outros juízes agirem como Moro, e aí nos poderíamos orgulhar de termos um Judiciário. Mas, por enquanto, poucos o imitaram. A maioria continua entre o auxílio-moradia e as traças tomando conta dos processos nos cartórios das varas.

Moro chegou a ser ameaçado por Lula. Em audiência pública em maio de 2017, o ex petista afirmou: “Se eles (agentes da polícia e o Ministério Público) não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los?”. Podia ser mais explícito?

O padim de Caetés queria mesmo era ir para Paságarda, onde “lá sou amigo do rei”, o belíssimo poema de Manuel Bandeira inspirado na cidade persa. Mas mesmo com a perspectiva, antes e agora, da presença de Moro no Ministério da Justiça – e nós sabemos que quando aparece uma barata na cozinha nunca é uma só -, o ex-motorista do hoje senador Flávio Bolsonaro, à época da Alerj velha do achego e do achaque, Fabrício Queiroz não compareceu nas quatro vezes em que foi intimado para depor no Ministério Público, conforme ele próprio revelou em entrevista a Débora Bergamasco, do SBT. Entrevista, aliás, que só piorou a situação dele e de todos os citados. Não depor no MP e dar entrevista no SBT… Isso pode, Arnaldo?

Flávio Bolsonaro foi para o Senado e foge do ex-chefe de segurança como o diabo da cruz. Papai presidente reconheceu publicamente que Queiroz fazia “rolos” na Alerj. PM do Rio fazer rolos na pouquíssimo confiável Alerj seria uma forma antiga de fazer a política nova, capitão?

Ah, mas o “roleiro” agora tem o beneplácito dos procuradores fluminenses: segundo o MP, Fabrício Queiroz está doente e só vai depor com a autorização do médico. Que beleza! Bolsonaro diz que ele fazia rolos, o filho Flávio atestou como “plausível” a versão na qual nem ele mesmo deve acreditar. Mas o nada insuspeito MP do Rio entregou ao médico particular do “paciente” (palavra que vale para réu e para doente) o poder de julgar e executar sua sentença. Não é possível que o cidadão que virou o ai-jesus do Brasil inteiro considere isso legal, normal. Muito menos ético. Ou é? Sê-lo-ia nos conceitos da “nova política”?

Há, contudo, perguntas a que o MP pode responder, ainda que seja, digamos, frágil a saúde de Queiroz, a exemplo do que acontece com o coronel João Batista Lima Filho, amigão do ex-presidente Temer e protagonista do processo da alienação da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). No tal caso rumoroso da Alerj, porém, resta uma pergunta ao MP: se Fabrício está doente, por que não convocar sua filha personal trainer, Nathalia Queiroz? Ou, quem sabe, Michelle Bolsonaro, craque em marketing político, como ficou demonstrado no parlatório do Planalto na posse do marido e, antes disso, beneficiária de depósitos do ex-assessor? Elas não estão doentes e não há como arguir que não fazem parte no rumoroso episódio, apesar da explicação do devotado esposo.

Dizem línguas ferinas da Boca Maldita, em Curitiba, que a delação de Sérgio Cabral vai tocar fogo no Judiciário e, à luz de fogueiras, mesadas ao MP serão reveladas. Pode ser, então, que venha à tona o porquê da mão leve do MP nesse até agora aparente simulacro de investigação. Tem gente aí remando com o pé dentro d’água. Só que, ao contrário do que os personagens do caso imaginam, para complicar a vida deles a imprensa não vai largar esse assunto. Apostar em esquecimento é uma atitude suicida, como também o é silêncio até agora adotado.

No fim do ano passado a Coluna do Estadão revelou, na nota Fermento, que o caminho natural é o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) ampliar as buscas para revelar para quem mais Fabrício Queiroz repassou o dinheiro. E o Coaf agora está sob as ordens de Moro. Segundo o ministro, a transferência do Coaf para sua pasta permitirá “o fortalecimento do órgão”, que “sofreu com redução do quadro funcional por questões circunstanciais”.

Pois é, pelo visto, Moro não vai poder fazer vista grossa, como pediu Lula ao TCU nas obras da Copa. É que no tempo do petista existia uma contaminação, uma incompetência deliberada e generalizada do aparelhamento do Estado. As agências sob a batuta dos petistas deixaram passar uma manada de elefantes, e nada fizeram: CVM, Coaf, Banco Central, só para citar algumas.

Esse assunto foi tratado em artigo que escrevi em 30 de julho de 2018 também no blog, Política sem pudor. Quem quiser reler pode fazê-lo clicando aqui.

Moro assumiu o Ministério da Justiça e agora não tem saída. Na função, terá de se preservar. Pois o Brasil tem muitos ministros e poucos heróis.