E isso pode?
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E isso pode?

Por que será que delações contra as cúpulas de Executivo e Judiciário nunca são premiadas, hein?

José Nêumanne

15 Janeiro 2018 | 12h58

 

Fatos recentes confirmam denúncia de Barroso de que Estado brasileiro é vingativo Foto: Dida SAmpaio/Estadão

Em 9 de junho de 2017, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luis Roberto Barroso afirmou que o Estado brasileiro é “rancoroso e vingativo” e que o frigorífico JBS tenderia a sofrer retaliações  após um dos seus sócios, Joesley Batista, haver denunciado o presidente Michel Temer de participação num esquema de corrupção.

De junho de 2017 até hoje os fatos comprovam que Luis Roberto Barroso anteviu e anunciou o que aconteceria e aconteceu mesmo. No início de setembro de 2017, não aguentando a pressão de um “Estado vingativo”, o rc-procurador-geral da República Rodrigo Janot anulou  a imunidade penal que foi negociada por ele para os executivos da JBS. Ao convocar a imprensa para anunciar perda da imunidade penal, Rodrigo Janot disse que obteve gravações que considerou “gravíssimas e que envolveriam o Supremo Tribunal Federal”

Os irmãos Batistas foram presos à jato a pretexto de terem usado informações, para se beneficiarem com a compra de dólares e a venda de ações da JBS, aproveitando-se do impacto no mercado provocado por seu acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal. Este foi um caso sem precedentes no Brasil. Não se conhece caso parecido, prisão por uso de informações privilegiadas.

0s irmãos Batistas sofreram um ataque de denúncias, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Receita Federal, etc. E, aí, a CVM, que antes a tudo assistiu  e deixou o roubo gigantesco ocorrer  na Petrobras sem nada ter feito, assim que os executivos da JBS denunciaram Michel Temer “acordou” e abriu 13 processos contra o grupo JBS. 13!!!

Rodrigo Janot agora está às voltas com a `Polícia Federal (PF). Foi chamado para depor em inquérito aberto a pedido da ministra Cármem Lúcia. Isso tudo apenas por ter homologado a delação premiada que incriminou o presidente da República e feito insinuações contra o STF. Quem duvida que Janot vai de danar? Puseram a PF no seu pé. Com a polícia em seu encalço, tudo indica que Janot não faz parte do club privé dos intocáveis que nunca cumprem penas no Brasil

Não vimos até agora nenhuma delação que atinja o Judiciário – e tem gente querendo denunciar. Régis Fitchner, ex-secretário da Casa Civil de Sérgio Cabral, tinha antecipado que pretendia  fazer uma delação premiada e “contar casos sobre o Judiciário”. Foi solto num piscar de olhos.

Antônio Palocci, que também negocia uma delação premiada ,que nunca fecha, antecipou que iria delatar o Judiciário e a troca de decisões por promessa de nomeações. Palocci já deixou claro que o ex-presidente do STJ  Cesar Asfor Rocha recebeu suborno de R$ 5 milhões da construtora Camargo Corrêa para anular a Operação Castelo de Areia, uma prévia da Lava Jato. Como foi publicado,  disse que o acerto com Asfor Rocha foi comandado pelo ministro da Justiça de Lula  Márcio Thomaz Bastos e incluía a promessa de apoio para que o então magistrado fosse indicado para uma vaga no STF. Ao que tudo indica, vai ser difícil fechar essa delação.

Ou seja, Barroso tinha razão: o Estado é vingativo. E isso pode, Arnaldo?

*Jornalista, poeta e escritor