Dilúvio na Bahia, e Bolsonaro ao mar

Enquanto ciclone inundava, desabrigava e matava cidadãos comuns na Bahia, presidente da República passeava de jet-ski numa praia de Santa Catarina e exibia sua preguiça de luxo nas redes

José Nêumanne

03 de janeiro de 2022 | 23h23

Ruas da cidade de Itambé, no interior da Bahia; Estado está enfrentando pior acumulado de chuvas do mês de dezembro desde 1989, enquanto Bolsonaro doura a pele ao sol em Santa Catarina Foto: Felipe Iruatã/EFE

Um temporal muito parecido com o que inspirou o episódio bíblico do dilúvio universal desabou sobre a Bahia e Minas Gerais no fim do ano, inundando lares, desabrigando famílias e matando pessoas. O patriarca Noé, que, segundo a tradição, não dispensava um capilé, atendendo a um aviso divino, teria construído uma arca, para a qual levou casais de todos os seres do reino animal até que um arco-íris anunciou a estiagem e o barco improvisado desse com a quilha no Morro Ararat. O presidente do Brasil, que não tem predileção especial por animal nenhum, principalmente os ditos racionais, não perdeu um só dia de férias de fim de ano para dedicar um segundo de sua real atenção às vítimas do ciclone. Cumpriu pontualmente 13 dias da folga, que determinou para si mesmo, e só saiu da praia para se livrar de uma obstrução intestinal num hospital de luxo, em São Paulo.

Nos sete dias que passou, abrigado num forte do Exército em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina, exibiu a ricaços que o exaltam, à classe média, que o vaia, e a pobres da Pátria, que jura em vão amar, seu luxo próprio de cada dia. Desta vez, talvez alertado pela péssima repercussão do desaforo, poupou as mulheres esquerdistas de seu insulto, segundo o qual têm mais pelo (sic) do que cadelas, rima nada singela de um funk com inspiração lírica similar à de seus discursos direto do Palácio da Alvorada, às quintas-feiras. Mas não largou o hábito de exibir o rosto sem máscara nem a pregação a favor do contágio do oficial ao qual continua batendo continência: o novo coroné vírus. Fez da areia das praias próximas ao forte seu palanque de campanha para as habituais exortações de vendedor de óleo de cobra de feira-livre e charlatão sem consultório nem nosocômio.

Se tivesse o QI próximo de 3, poderia ter pronunciado mais uma frase de efeito para responder às críticas para a exibição “social” de vagabundagem explícita: “E daí? Sou Messias, não Noé!”. Mas preferiu repetir cifras, que não têm como ser comprovadas nem conferidas, ou procurar justificativas chinfrins para recusar ajudas de pessoal e material e não recusar as vindas em espécie, hábito de quem costuma conviver com as chamadas “rachadinhas”. Escalou os ministros Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, João Roma, da Cidadania, que rima com Bahia em qualquer axé, e outros dos quais nem é mister lembrar, e distribuiu verbas, recebidas com escárnio pelo governador da Bahia, Rui Costa, do Partido dos Trabalhadores (PT). O velho Noé não teria feito mais nem melhor.

Seus anspeçadas do gabinete do ódio e quetais repetiram suas récitas de cor. Dilma também não foi a enchentes semelhantes. Correto. Pelo menos desta vez, ele não mentiu. Mas quem disse que seu juramento sobre a Constituição na posse o obrigava a repetir tudo o que madama presidenta tivesse feito?

Bolsonaro, que faz o mal para todos, à exceção de filhos e bajuladores próximos, é, no mínimo, coerente, pois repete sempre a mesma lenga-lenga e não abandona seus sermões, “terrivelmente odientos”. Se nunca viu um respirador salvar a vida de um contaminado pela pandemia funcionando numa UTI, por que se preocuparia com pobres, que tinham muito pouco e tudo fora levado pela correnteza? Se sua colega de clero e QI baixos Dilma não foi sujar a sapatilha, por que melaria de barro seu coturno para usar em helicóptero militar?

Seus argumentos e pretextos estúpidos e convenientes bastam para convencer eleitores suficientes para levá-lo ao segundo turno na eleição deste ano. E são repetidos aos borbotões nos comentários a quaisquer críticas que lhe sejam feitas. Para quem tem dificuldade de contar de um até três, à exceção de moeda sonante, basta. Sua carência de empatia não o afasta do que considera uma luta contra o PT, que há muito não inclui mais o combate à corrupção. Ao contrário, o adversário da vez, que não é mais Doria, agora é Moro, o juiz, atual ameaça a lhe tomar o bastão da luta antilula.

Jair não é Noé nem messias, mas um demolidor implacável de instituições de que se vinga do que acha que lhe foi feito de injusto pelo Exército, de cujo corpo o expeliu sem honra nem dragona superior. Na tarefa, não é um lobo solitário, como é acusado de sê-lo seu esfaqueador Adélio Bispo, mas tem seguidores que não vão bajulá-lo no jardim do Alvorada. O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, por exemplo, fez-lhe enorme favor ao abrigar no pretório nada excelso seus cumpridores de tarefas Nunes Marques e André Mendonça. Além de ter desmoralizado todas as instâncias iniciais (e não inferiores, como as trata) da própria instituição no processo de limpeza da ficha do ex-presidente que deverá derrotá-lo no segundo turno da eleição presidencial de novembro.

Neste exército de sombras, os fantoches, eleitores que lhe darão um degrau mais baixo para não machucá-lo na queda, são quase anônimos e certamente manterão fidelidade a seu projeto de destruir sem nada fazer no lugar. Como o executarão os derrotados de Trump, seu exemplo em grosseria e ignorância ao norte do Rio Grande. Como reza o provérbio português, “o poder de Deus é grande, porém o mato é maior”.

*Jornalista, poeta e escritor

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