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De golpista basta presidente

Bolsonaro vai a manifestação contra democracia num dia e no outro diz que defende instituições democráticas, mentindo duas vezes, uma a seus devotos e outra a democratas que devem defendê-la

José Nêumanne

20 de abril de 2020 | 20h08

No dia seguinte ao de sua adesão a ato exigindo “intervenção militar” com ele no poder, Bolsonaro exigiu de um apoiador à frente do Alvorada respeito às instituições, Foto: Dida Sampaio/Estadão

O presidente da República, Jair Bolsonaro, aderiu a um ato de apoiadores à frente do Quartel-General do Exército, antigamente conhecido como “forte apache”, onde discursou de cima de uma caminhonete, dizendo, explicitamente: “Eu estou aqui porque acredito em vocês”. Nas imagens colhidas no domingo, 19 de abril, Dia do Exército, fez circular em suas redes sociais, forma oficiosa de comunicação com o país que governa, uma faixa explicitando: “Intervenção militar, com Bolsonaro no poder”. Se  discordava dessa palavra de ordem, que motivos teve para compartilhar a mensagem naquele lugar e naquela data específica?

Na manhã de segunda-feira, 20 de abril, contudo, Sua Excelência, ao se dirigir mais uma vez a meia dúzia de gatos-pingados que ele insiste em chamar erroneamente de “povo”, parodiou a repetição da tragédia institucional como farsa, citando Hegel via Marx no texto clássico O 18 Brumário de Luís Bonaparte, dando-se o direito de repreender um  manifestante que berrava a palavra de ordem da faixa antidemocrática. “Sem essa conversa de fechar. Aqui não tem que fechar nada, dá licença aí. Aqui é democracia, aqui é respeito à Constituição brasileira. E aqui é minha casa, é a tua casa. Então, peço, por favor, que não se fale isso aqui. Supremo aberto, transparente. Congresso aberto, transparente”, disse. Ninguém riu da piada, é claro. Mas não era uma piada. Ou era?

Vamos aos fatos. Ninguém vai a um comício para enfrentar a fúria dos próprios apoiadores e discordar dela. No domingo 19, o chefe do Poder Executivo da República Federativa do Brasil visitou os filhos Flávio, senador, Eduardo, deputado federal, e Carlos, vereador no Rio, na casa do segundo. De lá foi direto de carro, com agentes de segurança de seu séquito habitual, para uma aglomeração de meia dúzia de fervorosos admiradores, acotovelando-se e carregando faixas como aquela, exigindo do condottiere o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). O agente federal Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (?) – Abin –, não o teria informado do teor das agressões aos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, presidentes como ele de outro Poder, o Legislativo? Quando dirigiu a palavra a seus eleitores, disse: “Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil”. Ou seja, ele sabia a quem se dirigia e, portanto, não havia nenhuma hipótese de ignorar do que se tratava. Além disso, a aglomeração desafiava a proibição de proximidade física e, portanto, aumentava a velocidade do contágio do novo coronavírus, que no momento, produz a maior crise sanitária da História do Brasil e do mundo.

No entanto, no dia seguinte, segunda-feira, logo cedo, ao sair para seu encontro com o “povo” que ele reconhece e venera, os bolsonaristas fanáticos que se postam à frente do Palácio da Alvorada, onde mora, fez discurso oposto ao que fez para apoiar a manifestação pública da véspera. Um apoiador gritou uma palavra de ordem contra o STF e ele respondeu com a frase citada entre aspas no segundo parágrafo deste texto. E completou: “No que depender do presidente Jair Bolsonaro, democracia e liberdade acima de tudo”. Ou seja, ele só defende liberdade na frente da casa dele (ou melhor, da nossa, como corrigiu depois). O Palácio da Alvorada não é a casa dele, mas do presidente da República por quatro anos, ou oito, se for reeleito. A residência oficial de um servidor público.

Vamos ao bê-á-bá da liberdade e da democracia, tal como as descreveu Montesquieu e como as configuraram os pais fundadores da democracia norte-americana. Todo o poder emana do povo de verdade, mais de 100 milhões de eleitores que, por maioria, o escolheram para presidir não o Brasil, mas um dos três Poderes, o Executivo. De acordo com a Constituição que ele jurou cumprir e fazer cumprir quando empossado em 1.º de janeiro de 2019, esse Poder é compartilhado com outros dois: o Legislativo, que aprova leis, e o Judiciário, que julga se elas estão na moldura do mesmo texto constitucional. Então, o cidadão que deu entrevista virulenta à CNN há uma semana dizendo cobras e lagartos do deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, que representam o tal do povo, ou seja, aquele que não vai bajulá-lo na “porta de casa” ou na frente do “forte apache”, não era o “presidente”, mas o ex-oficial agitador que fora convidado a se retirar do convívio da caserna? Há um médico (no caso, exercendo clandestinamente o ofício) e um monstro (que venera o torturador Brilhante Ustra como herói militar) habitando o mesmo corpo, um quando vai a manifestações subversivas e outro, ao sair de casa para despachar em dias úteis em outro palácio, o do Planalto?

Aliás, no fim de semana houve carreatas no mesmo tom e com idênticas reivindicações em todo o País. Em São Paulo, no sábado e no domingo, com estímulo pessoal de Bolsonaro, foram promovidas carreatas contra o governador do Estado, João Doria, por exercer seu direito constitucional de decretar isolamento social, garantido por nove a zero pelo STF. No domingo, ele também estimulou inimigos do governador em fala no celular do publicitário Sérgio Lima, encarregado de propagar seu partido Aliança pelo Brasil. Em Porto Alegre, bolsonaristas em outro comício a favor da volta do Ato Institucional n.º 5 (AI-5) agrediram um casal pelo crime de usarem roupas vermelhas, cor do Partido dos Trabalhadores. Essas carreatas são inspiradas num crime contra a saúde pública, pregado pelo próprio presidente (ou será seu lado fã de Ustra?), o de boicotar o isolamento social, única estratégia reconhecida como viável pelos cientistas para reduzir a velocidade de propagação do novo coronavírus.

Aliás, tais carreatas cometem explicitamente um crime. A Avenida Paulista, onde elas ocorrem, é a rota de ambulâncias rumo a vários hospitais para onde são transportados doentes graves, incluídos as vítimas terminais de covid-19. Como já o fez antes, Bolsonaro (charlatão ou fã de monstro?) acusou cidadãos que ficam em casa, acatando recomendações de autoridades sanitárias de países do mundo inteiro, de serem “covardes”.

No caso específico, talvez seja o caso de questionar se não estaria ele próprio a se olhar nos espelhos dos palácios por onde desfila uma dúvida: como nunca expôs o atestado do Hospital das Forças Armadas em que se submeteu duas vezes a teste de contágio do novo coronavírus, será ele um portador assintomático, embora diga ser negativo para covid-19? Bem, terá uma grande oportunidade de provar se respeita a Câmara dos Deputados ao atender à determinação de mostrar os resultados em 30 dias.

Em relação ao vaivém de domingo 19 e segunda 20, é útil lembrar que, sendo calculista, não destemperado, obedece à tática de virar a casaca quando cruza a linha da fidelidade ao Estado de Direito. Domingo ele disse aos golpistas batendo literalmente à porta do Exército, que lhes fez ouvidos de mercador quando deveria ter rechaçado a ofensa à Constituição, que lhe cabe salvaguardar, que “esses políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”. Esse apelo à democracia direta (“esquerdopata”. no glossário bolsonarista) nada tem que ver com o que ele disse à porta do Alvorada: “Não falei nada contra qualquer outro Poder, muito pelo contrário”. Ou seja, o devoto do monstro quer impor submissão aos representantes do povo de verdade. E o charlatão de feira, jurar submissão ao primado constitucional. Na Campina Grande de minha adolescência, isso é chamado de “bater o pino”. Pino foi feito para se bater, também se diz por lá. Mas há que reconhecer humildemente…

Só para virar ponta de prego batido, este feroz perseguidor da incoerência deve ainda lembrar que à porta da caserna, à qual foi conduzido para sair sem farda, o capitão irredento ainda perpetrou uma falácia: “Nós não iremos negociar nada”. Que mentira, que lorota má, parodiando Luiz Gonzaga. Foi tudo o que o capitão de gravata fez na semana anterior: negociar com os velhos políticos do centrão o que eles querem de nosso dinheirinho do governo em troca de desafiar a liderança de Rodrigo Maia.

E o ápice da genuflexão à política velha foi inserir o depoimento do delator do mensalão, Roberto Jefferson, que cumpre pena por corrupção em casa, acusando Maia e Alcolumbre de conspirar contra a democracia. Uau!

Fugindo da tentação de ser golpista como ele é, concluo citando o desembargador Walter Fanganiello Maierovitch, em WhatsApp: “Acordem, senhores deputados, senadores e governadores”. E lembrando aos 11 ministros do STF: “O Código Penal, nos crimes contra a paz pública, tipifica, no artigo 286, o delito de incitação: incitar publicamente”…

*Jornalista, poeta e escritor

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